Poder e Bastidores

Dilma reeleita no Banco do BRICS: um novo capítulo para a desdolarização global?

Recondução de Rousseff sinaliza força do Brasil no bloco e intensifica debate sobre o fim da hegemonia do dólar

Compartilhar: WhatsApp X LinkedIn

No último domingo, 23 de março de 2025, Dilma Rousseff foi reconduzida à presidência do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), conhecido como Banco do BRICS, em uma decisão unânime que reflete tanto seu desempenho à frente da instituição quanto o respaldo diplomático construído ao longo de sua trajetória.

Indicada pelo presidente russo Vladimir Putin, a ex-presidente do Brasil inicia um novo mandato de cinco anos com a missão de consolidar o NDB como uma alternativa ao sistema financeiro dominado pelo dólar e ampliar o financiamento para o desenvolvimento sustentável nos países do Sul Global. Mas o que isso significa para o futuro da economia mundial?

A reeleição de Dilma, anunciada durante um evento em Pequim, ocorre em um momento de tensões globais crescentes, com o retorno de Donald Trump à Casa Branca e suas ameaças de tarifas contra os BRICS caso avancem na desdolarização.

Desde que assumiu o comando do NDB em 2023, por indicação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma tem se destacado por sua condução firme, recuperando a instituição de uma crise de liquidez e ampliando linhas de crédito para projetos estratégicos. Analistas apontam que seu lastro político – forjado durante os seis anos como presidente do Brasil – e a habilidade de navegar em um cenário internacional complexo foram decisivos para sua permanência.

A escolha de Putin para reconduzir Dilma também reflete uma estratégia geopolítica. Com a Rússia sob sanções ocidentais devido à guerra na Ucrânia, um nome russo no comando do NDB poderia enfrentar barreiras em articulações internacionais e acesso a serviços financeiros. “Seria bem mais difícil um político russo viajar, se articular presencialmente com outras autoridades ou utilizar serviços bancários em nome do banco estando sob sanção”, explica Augusto Rinaldi, professor de relações internacionais da PUC-SP. A indicação, portanto, é vista como um gesto político da Rússia ao Brasil, sinalizando uma convergência de interesses entre os dois países.

Desdolarização em pauta: o que esperar dos próximos cinco anos?

O tema da desdolarização, que ganhou força nos últimos anos entre os BRICS, deve permanecer no centro das atenções no novo mandato de Dilma. Durante a Cúpula de Kazan, em outubro de 2024, Putin já havia elogiado a condução de Rousseff, destacando sua postura em favor do uso de moedas nacionais no comércio internacional. “Desde o ano passado, Putin tem se demonstrado bastante satisfeito com a condução da presidente Dilma”, afirma Henrique Domingues, chefe adjunto do Fórum Internacional dos Municípios BRICS, que esteve presente em um evento em São Petersburgo. Segundo ele, a expectativa é que Dilma intensifique o debate sobre o tema, ampliando o financiamento em moedas locais – uma meta que ela própria estabeleceu em 30% das operações do banco.

Sob sua gestão, o NDB já deu passos concretos nessa direção. Desde 2023, a instituição captou cerca de US$ 14 bilhões no mercado internacional, incluindo emissões em yuan por meio dos chamados Panda Bonds, e expandiu os desembolsos para países membros, como o Brasil, onde projetos como o Hospital Inteligente da USP e infraestrutura hídrica na Paraíba receberam aportes. A entrada da Argélia como membro do banco em setembro de 2024 também reforça a estratégia de expansão do NDB, que busca se firmar como uma alternativa ao Banco Mundial e ao FMI.

No entanto, desafios persistem. Rinaldi aponta que a volta de Trump ao poder traz incertezas ao cenário internacional, especialmente diante de suas ameaças de retaliação econômica. “A segurança e a capacidade de fortalecer o NDB serão fatores cruciais neste mandato”, avalia o professor. Já Domingues destaca que a influência brasileira no BRICS dependerá da vontade do governo Lula de se posicionar de forma mais assertiva no bloco, algo que, segundo ele, tem sido limitado até agora.

Um gesto político ou uma liderança consolidada?

A recondução de Dilma não é apenas uma vitória pessoal, mas um sinal de continuidade na agenda do NDB. Especialistas divergem sobre o peso da influência brasileira na instituição. Para Rinaldi, a unanimidade na escolha de Dilma dá a ela autonomia para conduzir o banco conforme sua visão, respeitando as regras do jogo. Domingues, por outro lado, acredita que a influência do Brasil no BRICS “depende única e exclusivamente da vontade do governo brasileiro de se fazer influente”, sugerindo que Dilma priorizará atrair novos parceiros ao invés de refletir uma agenda nacional específica.

Com um mandato que se estende até 2030, Dilma Rousseff terá pela frente o desafio de equilibrar interesses diversos em um bloco que reúne potências como China, Rússia e Índia, além de novos membros emergentes. Em um mundo marcado por instabilidade econômica e disputas geopolíticas, o NDB sob sua liderança pode se tornar um pilar na construção de uma ordem financeira multipolar – ou enfrentar resistências que testarão sua relevância. O futuro da desdolarização, ao menos por ora, passa pelas mãos da ex-presidente brasileira.


Palavras-chave: Dilma Rousseff, Banco do BRICS, desdolarização, NDB, Vladimir Putin, Lula, economia mundial, Sul Global, moedas locais, Trump
Hashtag: #DilmaRousseff #BancoBRICS #Desdolarização #EconomiaGlobal #BRICS2025 #PainelPolitico