Eleições 2026

Dino manda PF investigar suposta interferência estrangeira na eleição

O ministro do STF manda a PF apurar se a rede americana Rockbridge ofereceu recursos ou serviços a uma campanha em troca de interesse em terras raras. Os citados negam

Dino manda PF investigar suposta interferência estrangeira na eleição
📷 Victor Piemonte/STF
📋 Em resumo ▾
  • O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), mandou a Polícia Federal (PF) abrir inquérito sobre suspeita de interferência estrangeira nas eleições de 2026. A decisão é desta terça-feira (27/10) e foi tomada na ADPF 1178.
  • A PF vai apurar cinco pontos. Entre eles: as conversas entre a rede americana Rockbridge Network e os empresários Tallis Gomes e Pedro Sang; quem pagou anúncios eleitorais de perfis estrangeiros; e se as conversas sobre financiamento político tinham ligação com interesses em terras raras.
  • O inquérito vai correr sob supervisão do STF, porque pode haver participação de membros do Congresso Nacional.
  • Ninguém foi indiciado ou acusado. Tallis Gomes e Pedro Sang já negaram publicamente qualquer papel em campanhas.
  • Por que isso importa: a lei brasileira proíbe totalmente que partidos e candidatos recebam dinheiro de origem estrangeira, de forma direta ou indireta. A investigação vai dizer se isso aconteceu ou não.
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O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), mandou a Polícia Federal (PF) abrir um inquérito para apurar suspeitas de interferência estrangeira no processo eleitoral brasileiro. A decisão foi assinada nesta terça-feira (27/10), em Brasília, na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 1178. Segundo a imprensa, Dino respondeu a pedidos do PT e do ex-candidato à Presidência Renan Santos (Missão). O documento manda a PF informar no próprio processo o número do inquérito aberto e determina “cumprimento imediato”.

Os cinco pontos que a PF vai investigar

Na decisão, Dino lista cinco questões que a Polícia Federal deve esclarecer:

  1. As conversas entre a Rockbridge Network e os empresários Tallis Gomes e Pedro Sang. A PF deve verificar inclusive se houve alguma ligação entre “recursos, serviços ou outras vantagens economicamente aferíveis” e uma campanha eleitoral.
  2. Quem pagou e contratou a publicidade eleitoral atribuída a perfis estrangeiros. A PF também deve apurar de onde veio o dinheiro e se pessoas ou empresas no Brasil participaram sabendo do que se tratava.
  3. Se existem elementos concretos que liguem as conversas sobre financiamento político aos interesses econômicos noticiados em terras raras e minerais críticos brasileiros.
  4. Os contatos entre representantes da Rockbridge e empresários brasileiros: o que foi tratado, quem participou e com qual objetivo.
  5. Possíveis “assimetrias dolosas e manipulações algorítmicas” por empresas de internet para favorecer ou prejudicar candidaturas. Em linguagem simples: se plataformas digitais mexeram de propósito no alcance de conteúdos para ajudar ou atrapalhar candidatos.


Todos os itens são perguntas a investigar. Nenhum deles é uma conclusão. O próprio texto da decisão usa termos como “noticiadas”, “atribuída” e “eventual”, o que mostra que os fatos ainda não estão comprovados.

Por que o caso fica no STF

A decisão diz que a apuração ficará sob o controle do próprio Supremo:

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“A investigação tramitará sob a supervisão do Supremo Tribunal Federal, diante da possível participação de membros do Congresso Nacional nos fatos objeto de apuração.”
— Trecho da decisão do ministro Flávio Dino, na ADPF 1178

Isso acontece porque deputados e senadores têm foro no STF: só o Supremo pode supervisionar investigações que envolvam parlamentares. Nas páginas da decisão a que o Painel Político teve acesso, nenhum parlamentar é citado nominalmente. A expressão “possível participação” indica que essa hipótese ainda será verificada.

Quais órgãos foram avisados

Dino mandou dar ciência da decisão a uma lista ampla de órgãos, para que cada um avalie e adote as providências que considerar cabíveis dentro da sua área:

  1. Ministério da Justiça e Segurança Pública, Ministério de Minas e Energia e Ministério das Relações Exteriores;
  2. Agência Brasileira de Inteligência (Abin);
  3. Agência Nacional de Mineração (ANM), ligada à exploração de terras raras;
  4. Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), ligada à questão das plataformas e dos algoritmos;
  5. Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), Banco Central, Receita Federal e Advocacia-Geral da União (AGU), ligados à origem e ao caminho do dinheiro.


A Procuradoria-Geral da República (PGR), que é quem pode apresentar uma eventual denúncia criminal no futuro, também foi informada.

O que é a Rockbridge e quem são os citados

A Rockbridge Network é descrita pela imprensa como uma rede de empresários e investidores conservadores dos Estados Unidos, ligada ao vice-presidente americano J.D. Vance. As suspeitas começaram em setembro. O PT acionou o STF citando reportagens, um discurso de Renan Santos e uma apresentação sobre aliança Brasil–EUA em minerais críticos e terras raras que trazia na abertura o título “Flávio Bolsonaro | Campanha 2026”.

O que cada citado disse até aqui, segundo a CNN Brasil:

  1. Tallis Gomes, cofundador da G4, confirma ser membro da Rockbridge, mas diz não ter cargo de gestão ou de representação. Nega fazer parte da campanha de Flávio Bolsonaro ou de qualquer candidato. Nega ter arrecadado, doado ou movimentado dinheiro, nacional ou estrangeiro, para eleições. Disse que vai tomar medidas judiciais contra o que chama de acusações falsas.
  2. Pedro Sang nega ter sido membro da Rockbridge ou ter tido qualquer função formal no grupo. Diz que conheceu a rede em outubro de 2025 e que a iniciativa está parada desde maio.
  3. André Marinho, autor da apresentação sobre terras raras, diz que fez o estudo por iniciativa própria, como cenário hipotético, e que não o enviou à campanha de Flávio nem a autoridades americanas.
  4. A campanha de Flávio Bolsonaro não respondeu à CNN Brasil quando o caso veio a público.


O que a decisão significa — e o que não significa

A abertura de inquérito é o primeiro passo de uma investigação criminal. Na escala processual, as pessoas e empresas citadas ficam, no máximo, na condição de investigadas. Elas não estão indiciadas, denunciadas nem são rés. Também não houve, até aqui, nenhuma conclusão de que a campanha de algum candidato recebeu dinheiro estrangeiro.

A decisão leva para dentro de um inquérito formal suspeitas que circulavam em reportagens e petições desde setembro. A diferença é que, agora, a PF tem instrumentos legais para buscar documentos, rastrear dinheiro e ouvir pessoas, com acesso a Coaf, Receita e Banco Central. São dois desfechos possíveis, e os dois são relevantes. Se a investigação encontrar dinheiro ou serviços estrangeiros ligados a uma campanha, o caso terá consequências criminais e eleitorais. Se não encontrar, a versão dos citados, que negam tudo, sai fortalecida. A decisão chega dias depois de um 2º turno decidido por 3,58 pontos percentuais e no meio de outras frentes judiciais envolvendo o candidato derrotado. Por isso, o inquérito tende a ser um dos principais focos de disputa política nas próximas semanas.

🔊 Versão em áudio disponível no topo do post.

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