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EUA atacam o Irã de novo após Trump declarar trégua "encerrada"

CENTCOM confirma nova onda de ataques no Golfo horas depois de Trump dizer que acordo com Teerã "acabou"; Irã já revidou contra bases americanas.

EUA atacam o Irã de novo após Trump declarar trégua "encerrada"
📷 Centicom
📋 Em resumo
  • CENTCOM anunciou novos ataques contra o Irã nesta quarta-feira (8), horas depois de Trump declarar que o entendimento provisório com Teerã estava "encerrado".
  • A escalada começou após Irã ser acusado de atacar três navios comerciais no Estreito de Ormuz, o que levou Washington a revogar isenção de sanções ao petróleo iraniano e a bombardear mais de 80 alvos.
  • Teerã revidou com mísseis e drones contra bases dos EUA no Bahrein e no Kuwait, e teria abatido um drone americano na província de Bushehr.
  • Preços do petróleo dispararam mais de 6% com o temor de novo fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do comércio global de óleo.
  • Por que isso importa: a crise ameaça reacender uma guerra que já matou o líder supremo do Irã e pode encarecer combustíveis e inflação global, inclusive no Brasil, além de testar a credibilidade diplomática dos EUA a quatro meses das eleições de meio de mandato americanas.
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O Comando Central dos Estados Unidos (CENTCOM) informou nesta quarta-feira (8) que as Forças Armadas americanas realizaram uma nova rodada de ataques contra o Irã, horas depois de o presidente Donald Trump declarar, à margem da cúpula da OTAN em Ancara, na Turquia, que o acordo provisório para encerrar a guerra entre os dois países havia "terminado". Em publicação na rede social X, o CENTCOM afirmou que os chamados "ataques adicionais" tinham como objetivo degradar ainda mais a capacidade de Teerã de ameaçar a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz.

A ofensiva marca o segundo dia consecutivo de confronto direto entre as duas potências desde que um memorando de entendimento, assinado em meados de junho, havia suspendido as hostilidades. A escalada reacende o temor de que a trégua mais frágil do Oriente Médio nos últimos meses esteja prestes a ruir de vez, com efeitos diretos sobre o mercado global de petróleo.

Da trégua ao colapso em três semanas

O conflito entre Estados Unidos e Irã começou em 28 de fevereiro deste ano, quando forças americanas e israelenses lançaram ataques que resultaram na morte do então líder supremo iraniano, Aiatolá Ali Khamenei. Após meses de combates e fechamentos intermitentes do Estreito de Ormuz, Trump e o presidente iraniano Masoud Pezeshkian assinaram, em 17 de junho, um memorando de entendimento que previa cessar-fogo, reabertura da via marítima e um prazo de 60 dias de negociações sobre o programa nuclear iraniano, a administração futura do estreito e o acesso a bilhões de dólares em fundos iranianos congelados.

Desde então, porém, o acordo tem sido testado repetidamente. Em 20 de junho, o Irã alegou ter fechado novamente o estreito, citando ataques israelenses no Líbano como violação do entendimento — acusação negada pelos militares americanos. Em 25 de junho, um navio-contêiner de bandeira cingapuriana foi atacado próximo a Omã, levando a Organização Marítima Internacional a suspender temporariamente um plano de retirada de milhares de marítimos da região. No dia seguinte, o CENTCOM já havia respondido com bombardeios contra alvos militares iranianos.

Ataques a petroleiros detonam nova crise

Em 7 de julho, dois petroleiros — o navio catariano de gás natural liquefeito Al Rekayat e o superpetroleiro saudita Wedyan — foram atingidos por projéteis no Estreito de Ormuz, ambos sofrendo danos, com incêndio no compartimento de máquinas do primeiro. Menos de 24 horas depois, a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) atacou um terceiro navio na região. O Catar responsabilizou diretamente o Irã pelo ataque à sua embarcação. Em resposta, o Departamento do Tesouro dos EUA revogou, ainda na terça-feira, a isenção temporária de sanções que permitia a venda de petróleo iraniano no mercado internacional, com efeito imediato e prazo até 17 de julho para o encerramento de qualquer produção ou comercialização em andamento.

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Horas depois, o CENTCOM anunciou o início de uma "série de ataques poderosos" contra o Irã. Segundo o comando militar, os bombardeios atingiram mais de 80 alvos, incluindo sistemas de defesa aérea iranianos, redes de comando e controle, radares costeiros, capacidades de mísseis antinavio e mais de 60 pequenas embarcações da Guarda Revolucionária Islâmica localizadas dentro e nas proximidades do estreito.

"A agressão injustificada das forças iranianas é uma violação clara e perigosa do cessar-fogo e prejudica a liberdade de navegação", afirmou o CENTCOM em nota, acrescentando estar "pronto para responsabilizar o Irã quando o acordo não for cumprido".

Teerã revida contra bases no Golfo

A retaliação iraniana veio na madrugada de quarta-feira: as forças militares do Irã atacaram com drones diversas bases americanas no Bahrein e no Kuwait, além de terem abatido um drone MQ-9 americano sobre a província de Bushehr, na costa oeste do país, classificando os contra-ataques como uma "resposta inicial". O Kuwait informou ter detectado e interceptado dois mísseis balísticos e treze drones considerados hostis, sem registrar mortos ou danos. O porta-voz do Ministério da Defesa do Kuwait, general Saud Abdulaziz Al-Otaibi, confirmou a interceptação bem-sucedida de todos os artefatos.

O presidente da Câmara dos Representantes do Irã, Mohammad Bagher Ghalibaf, um dos principais negociadores do país no processo de paz, acusou Washington de ser o verdadeiro violador do acordo, citando a reimposição de sanções ao petróleo e as ameaças recorrentes de novos ataques.

"A era da intimidação e da extorsão acabou. Não leva a lugar nenhum. Nós não vamos ceder", declarou Ghalibaf na rede social X.

Trump ameaça blindar o estreito e mirar infraestrutura civil

Ao lado do secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, e do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, Trump classificou os líderes iranianos de "escória" e "gente doente" e afirmou acreditar que o acordo está encerrado. Ainda assim, o republicano abriu uma brecha: disse que permitiria que seus negociadores — o enviado especial Steve Witkoff e o genro Jared Kushner — continuassem as conversas com Teerã, embora considere isso "perda de tempo".

O presidente americano também ameaçou reimpor o bloqueio naval ao Irã, atacar a ilha de Kharg — principal terminal de exportação de petróleo iraniano — e, em declaração que gerou alarme entre especialistas em direito internacional, cogitou atingir usinas elétricas e plantas de dessalinização no país, infraestrutura civil cujo ataque pode configurar crime de guerra.

"Nós os atingimos com muita força ontem à noite, e provavelmente vamos atingi-los com força de novo esta noite", disse Trump, negando, porém, ter usado o "mais alto nível" de poder militar disponível.

O vice-presidente JD Vance, em evento em Milwaukee, resumiu a lógica da Casa Branca: se o Irã atirar contra navios, os Estados Unidos vão "acabar com eles" — mas, segundo ele, Teerã havia se comportado bem por cerca de uma semana antes de retomar os ataques.

Mercado de petróleo reage e organismos internacionais pedem contenção

A escalada teve efeito imediato nos mercados: o petróleo tipo WTI saltou mais de 6,5%, para cerca de 75 dólares o barril, maior alta diária desde o início de junho, enquanto o Brent, referência internacional, subiu 6,2%, aproximando-se de 79 dólares. O Estreito de Ormuz é responsável pelo escoamento de cerca de 20% do petróleo transportado por via marítima no mundo, o que torna qualquer ameaça à navegação na região um gatilho automático para a inflação de combustíveis — inclusive no Brasil, cuja matriz de preços de derivados segue referências internacionais.

O secretário-geral da Organização Marítima Internacional, Arsenio Dominguez, condenou publicamente os ataques contra navios civis nos últimos dias, classificando-os como "imprudentes" e afirmando que marítimos inocentes foram colocados em "grave perigo". Já a chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, pediu que ambos os lados evitem nova espiral de violência no Golfo.

Funeral de Khamenei e cenário de impasse

O novo ciclo de confrontos ocorre em meio às cerimônias fúnebres de Khamenei, que se estendem por dias e devem culminar no sepultamento do ex-líder supremo no santuário do Imam Reza, em Mashhad. Trump chegou a acusar o Irã de ter usado o período de luto como cortina de fumaça para atacar embarcações, dizendo ter concedido uma pausa nos bombardeios como gesto de boa vontade que teria sido "recompensado" com novos disparos de mísseis.

O memorando assinado em junho previa uma janela de negociação de 60 dias, com prazo final em meados de agosto, para discutir os temas mais sensíveis do conflito — do futuro do programa nuclear iraniano ao controle definitivo do Estreito de Ormuz. Reuniões técnicas entre Witkoff, Kushner e mediadores em Doha, no fim de junho, não produziram avanços visíveis, e não há confirmação de contato direto entre autoridades de alto escalão dos dois países desde então.

Com o discurso de Trump oscilando entre a ameaça máxima e a porta aberta à diplomacia, e com Teerã prometendo uma "resposta mais dura" nos próximos dias, o desfecho da crise segue incerto. A pergunta que paira sobre o Golfo Pérsico — e sobre o preço da gasolina em todo o planeta — é se o que resta do acordo de junho sobreviverá até o prazo final de agosto, ou se o mundo caminha para uma retomada plena da guerra que começou em fevereiro.

Versão em áudio disponível no topo do post.

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