EUA nas Urnas: Duelo acirrado entre Kamala Harris e Donald Trump marca eleição histórica
Pesquisas mostram disputa apertada enquanto eleitores decidem entre continuidade democrata e retorno republicano

Em um dia que promete entrar para a história dos Estados Unidos, milhões de americanos comparecem às urnas nesta terça-feira, 5 de novembro de 2024, para escolher entre a atual vice-presidente democrata Kamala Harris e o ex-presidente republicano Donald Trump. A eleição, considerada uma das mais polarizadas e consequentes da história recente do país, tem mantido o mundo em suspense, com pesquisas indicando uma disputa extremamente acirrada.
As últimas sondagens nacionais mostram uma ligeira vantagem para Kamala Harris, com 48,2% das intenções de voto, contra 47,5% para Donald Trump, uma diferença dentro da margem de erro. No entanto, a corrida nos estados-chave, que efetivamente decidirão o resultado devido ao sistema do Colégio Eleitoral, permanece extremamente competitiva.
Um dos desenvolvimentos mais surpreendentes desta eleição ocorreu em Iowa, um estado tradicionalmente republicano que Trump venceu duas vezes. Segundo uma pesquisa recente do Des Moines Register, Kamala Harris agora lidera neste estado, uma reviravolta notável que demonstra a volatilidade do eleitorado.
A campanha de Harris tem enfatizado a continuidade das políticas progressistas da administração Biden-Harris, prometendo expandir o acesso à saúde, combater as mudanças climáticas e promover a justiça social. Seus apoiadores elogiam sua experiência como vice-presidente e sua visão para o futuro do país.
Por outro lado, Trump tem apostado em uma plataforma que promete "Make America Great Again, Again", focando em questões como imigração, economia e lei e ordem. Seus seguidores valorizam sua abordagem não convencional à política e suas promessas de priorizar os interesses americanos.
Prós e Contras dos Candidatos:
Kamala Harris: Prós:
Experiência como vice-presidente e senadora
Forte defesa de políticas progressistas
Potencial para fazer história como primeira mulher e pessoa de cor na presidência
Continuidade das políticas da administração Biden-Harris
Contras:
Críticas à sua gestão da crise migratória como vice-presidente
Percepção de alguns eleitores de que ela é muito progressista
Desafios em unificar todas as alas do Partido Democrata
Donald Trump: Prós:
Base de apoio leal e entusiasta
Experiência prévia como presidente
Promessa de políticas econômicas favoráveis aos negócios
Postura firme em questões de imigração e segurança nacional
Contras:
Controvérsias legais e políticas pendentes
Divisão dentro do Partido Republicano
Preocupações sobre seu impacto na democracia americana
Relações tensas com aliados internacionais
A eleição também tem sido marcada por debates intensos sobre a integridade do processo eleitoral. Autoridades eleitorais em todo o país implementaram medidas de segurança reforçadas para garantir uma votação justa e transparente, em resposta às preocupações levantadas por ambos os lados.
O papel da mídia nesta eleição tem sido particularmente escrutinado. Recentemente, veio à tona que Jeff Bezos, proprietário do Washington Post, teria intervindo para impedir um endosso do jornal à candidatura de Kamala Harris, levantando questões sobre a independência editorial e a influência dos proprietários de mídia no processo democrático.
As redes sociais também têm desempenhado um papel crucial, com ambas as campanhas investindo pesadamente em estratégias digitais para alcançar eleitores, especialmente os mais jovens. Plataformas como Facebook, Twitter e TikTok implementaram políticas rigorosas para combater a desinformação eleitoral.
À medida que as urnas começam a fechar em diferentes fusos horários, a nação e o mundo aguardam ansiosamente os resultados. Analistas preveem que, devido ao alto número de votos por correio, o resultado final pode não ser conhecido por vários dias, a menos que haja uma vitória decisiva de um dos candidatos.
Esta eleição não apenas determinará o próximo líder dos Estados Unidos, mas também definirá o curso da política americana e global para os próximos anos. Com questões cruciais como a recuperação econômica pós-pandemia, mudanças climáticas, relações internacionais e direitos civis em jogo, o resultado desta votação terá repercussões que se estenderão muito além das fronteiras americanas.
Enquanto a contagem dos votos se inicia, uma coisa é certa: a democracia americana está mais uma vez sendo testada, e o mundo observa atentamente para ver qual direção a nação mais poderosa do mundo escolherá seguir.
O pesquisador do Instituto Nacional de Estudos sobre os EUA (Ineu) e professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), Roberto Goulart Menezes, explica que, para o Brasil, efeitos mais significativos poderão ocorrer caso o vencedor das eleições seja o republicano.
Risco Trump
“Trump, se eleito, será um presidente de extrema direita que tenderá a reforçar laços e vínculos com a extrema direita de países latino-americanos. Algo preocupante, pois não ocorre há uns 15 anos, é o risco de ele promover, na região, candidaturas contrárias à democracia, tanto na América da Sul como na América Latina em geral”, disse o pesquisador, que tem doutorado em ciência política pela Universidade de São Paulo (USP).
Professor do Departamento de História da UnB, Virgílio Caixeta Arraes avalia que, independentemente de quem vencer a eleição, a relação com o Brasil será a mesma: “teremos importância secundária para os EUA”, disse Arraes. “Com exceção de poucos países da América Latina e Caribe, como México, Venezuela, Colômbia ou Cuba, por motivos diferentes, a atenção de Washington para a região é menor que a de outras localidades do planeta, como o Oriente Médio ou o sudeste asiático.”
China
Para Goulart Menezes, do Instituto Nacional de Estudos sobre os EUA, é possível que os Estados Unidos façam maior pressão nos países portuários da América do Sul, a fim de dificultar a entrada de produtos chineses e, consequentemente, a ampliação da influência política chinesa na região.
A tendência é que, independentemente de quem for o vencedor, seja mantida a política de pressão sobre a China, disse o professor.
Nesse sentido, diante dos avanços da China na América Latina e, e especial, na América do Sul, os EUA têm considerado arriscada a presença daquela potência na região. Portanto tenderá a fazer pressão em países portuários como Brasil e Peru, na tentativa de afastar os chineses comercial e politicamente”, disse o pesquisador.
Retórica da segurança
Segundo Goulart Menezes, todas essas questões – econômica, comercial, política e até mesmo ambiental – resumem-se à mesma tese argumentativa, por parte dos norte-americanos: riscos à própria segurança.
“O tema que mais mobiliza os EUA ainda é o da segurança. Até porque eles costumam pegar temas que nada têm a ver com segurança e tratam de criar uma associação. É o caso, por exemplo, da migração e das drogas. Ao abordarem os temas dessa forma, os EUA sempre responsabilizam outros governos e, de alguma forma, dizem que implicam riscos à segurança do país”, argumentou Menezes.
“No caso da relação com o Brasil, que tem como tema chave de suas políticas a questão ambiental, esta também vira uma questão de segurança. Se o Trump vencer, retomará a retórica negacionista, associando a pauta ambiental à economia. Portanto, de segurança para os EUA. Veja bem: ele [Trump] não trata o tema ambiental como uma questão de sobrevivência ou de crise climática, mas como meio para aumentar o potencial econômico dos EUA”, acrescentou.
Na avaliação do historiador Caixeta Arraes, a China é uma pedra no sapato dos EUA. A forma de lidar com a situação, tanto da candidata democrata Kamala quanto do republicano Trump, é uma questão de intensidade a ser aplicada em cada situação a ser enfrentada.
“Com a China, apesar de os dois países vivenciarem meio século de aproximação, o quadro não é animador porque o avanço de Pequim no mercado internacional e na geopolítica regional incomodam Washington, haja vista aliados como Tóquio, ou Seul, ou Taipé, por exemplo”, disse o historiador.
“Contudo, nenhum dos dois partidos tem de fato política efetiva de contenção ao crescimento da China. Ora apela-se a direitos humanos, ora à questão ambiental, ou ainda a regras comerciais internacionais, ou então à tensão militar. A diferença entre os dois partidos é na calibragem dos componentes do poderio à disposição”, disse o historiador.
Guerras
Dois conflitos chamam de forma mais intensa a atenção na política externa estadunidense: o de Israel, parceiro estratégico dos EUA, contra a Palestina e contra o Líbano; e aquele entre Rússia e Ucrânia.
“No Oriente Médio, a política dos EUA é uma política de Estado. Não de governo. Portanto, não se alterará nenhuma linha geral, a despeito do partido político vencedor”, destacou Caixeta Arraes.
Opinião semelhante sobre o conflito no Oriente Médio tem Goulart Menezes. Segundo o pesquisador, com relação a esse conflito não há nenhuma diferença entre Republicanos e Democratas. “O apoio norte-americano a Israel é incondicional”, enfatizou.
“Em maio de 1948, Israel se declara Estado. Os Estados Unidos, de imediato, reconhecem. Desde então, os palestinos foram perdendo territórios. Não falo isso de um ponto de vista ideológico. Basta comparar os mapas da época e o de agora”, disse o professor.
Ele explicou que, atualmente, o que há de diferente é o fato de Israel viver um momento em que sua margem de autonomia em relação aos EUA está maior. “Israel sempre foi dependente de fornecimento de armas vindas dos EUA. Ao dar esse apoio, os EUA conseguiam direcionar certas ações de Israel. Atualmente, eles ainda têm alguma rédea, mas em parte, ela não tem mais efeito”, disse Menezes.
O pesquisador acrescentou que essa perda, ainda que sutil, de influência sobre as ações militares de seu parceiro estratégico é percebida, inclusive, em meio às ameaças dos EUA de suspender a ajuda em caso de ataque de Israel a civis palestinos e libaneses. “Vemos que, mesmo assim, as tropas israelenses continuam fazendo seus ataques, e que o apoio dos EUA no Conselho de Segurança da ONU [Organização das Nações Unidas] se mantém”.
Menezes citou como exemplo o veto norte-americano à proposta de paz apresentada pelo Brasil para o conflito. “Foi uma proposta muito boa que, inclusive, recebeu sinal de apoio da Inglaterra e da França, ainda que na forma de abstenção. “O que vemos é os EUA continuando a enviar armas e dinheiro para apoio militar a Israel. Apoio este que se deve à relação histórica entre os dois países, bem como ao lobby israelense na política e nas eleições norte-americanas. Vale lembrar que é bem forte presença de judeus de diversas nacionalidades no sistema financeiro”, explicou Menezes.
Há, portanto, “certa pressão por meio do poder econômico”, acrescentou o professor, ao lembrar que, por outro lado, há também muitos judeus, tanto nos EUA como em outros países, com posicionamento crítico em relação à postura de Israel neste e em outros conflitos. “Essa pressão está cada vez maior nos EUA”.
Rússia x Ucrânia
Quanto à guerra entre Rússia e Ucrânia, as expectativas são diferentes entre republicanos e democratas. “Caso Trump retorne à Casa Branca, a política externa poderá mudar no Leste da Europa. O aspirante republicano disse que, caso vença, vai reduzir de maneira gradativa o socorro financeiro e militar e, por conseguinte, a inclinação política. Em caso de vitória da democrata, o apoio à Ucrânia mantém-se no mesmo patamar”, afirmou Caixeta Arraes.
Na avaliação de Menezes, caso Trump vença a disputa, a postura do republicano nesse conflito será oposta à dos democratas. “Ele já acenou com a retirada de apoio à Ucrânia. Não sabemos se ela será gradual ou abrupta, mas sabemos que, com isso, a guerra tomará outro curso.”
