Evo Morales na mira: os quatro processos por bloqueios na Bolívia
Ex-presidente, governadores e líderes sindicais enfrentam acusações de terrorismo após 53 dias de protestos contra Rodrigo Paz; ofensiva judicial redefine o poder em La Paz
📋 Em resumo ▾
- A Justiça da Bolívia abriu ao menos quatro processos criminais contra o ex-presidente Evo Morales, governadores e líderes sindicais.
- As denúncias incluem terrorismo e instigação pública a delinquir, motivadas pelos 53 dias de bloqueios que exigiam a renúncia de Rodrigo Paz.
- Líderes como Vicente Salazar e Mario Argollo, que haviam conseguido liminares, agora enfrentam ordens de prisão e mandados de busca.
- O comitê cívico de Santa Cruz e o governo acusam a oposição de tentar desestabilizar o Estado para retornar ao poder.
- Por que isso importa: O embate judicial não é apenas sobre protestos; é a tentativa do governo de Paz de desmantelar a máquina de mobilização do evismo antes das próximas disputas eleitorais.
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A ofensiva judicial contra o evismo ganhou contornos de guerra institucional. A Fiscalía da Bolívia acumula ao menos quatro processos contra o ex-presidente Evo Morales, governadores e líderes sindicais por crimes como terrorismo e associação criminosa. A ação é a resposta do governo de Rodrigo Paz aos 53 dias de bloqueios que paralisaram o país e exigiram sua renúncia.
A queda das liminares e o cerco jurídico ao evismo
O cerco contra a cúpula sindical e política ligada ao Movimento Al Socialismo (MAS) se intensificou com a prisão de Vicente Salazar, líder da federação "Túpac Katari". Ele foi capturado em El Alto enquanto conduzia uma caminhonete de luxo, após conseguir evadir uma primeira tentativa de detenção em junho.
Salazar havia obtido um amparo constitucional que anulou sua ordem de prisão inicial. A mesma proteção jurídica beneficiou temporariamente Mario Argollo, secretário executivo da Central Operária Boliviana (COB), e o senador Nilton Condori (PDC). No entanto, a estratégia de blindagem legal colapsou.
Agora, a Fiscalía possui ordens de prisão e mandados de busca e apreensão domiciliar contra Salazar, Argollo e outros dirigentes de El Alto, como David Mamani, Pablo Merma e Alberto Quelali. O processo de código 201102012603341, aberto pelo Ministério do Governo, os acusa de instigação pública a delinquir, associação delituosa e terrorismo.
"Os bloqueios na Bolívia deixaram de ser apenas uma ferramenta de pressão social para se tornarem um mecanismo de terrorismo de Estado paralelo, capaz de asfixiar a economia e desafiar a autoridade presidencial."
O terrorismo como tática de pressão política
A tipificação dos protestos como atos de terrorismo marca uma mudança drástica na doutrina de segurança interna boliviana. O governo de Rodrigo Paz busca enquadrar as lideranças que organizaram os 53 dias de paralisação na lei antiterrorismo, retirando a proteção sindical e política que historicamente blindava esses atos.
O segundo processo, de código 201102012604189, também aberto em La Paz, foca na desarticulação logística dos bloqueios. A Força Especial de Luta Contra o Crime (Felcc) aponta que outros inquéritos correm em segredo, mirando dirigentes cocaleros do Chapare.
A região, fortín político de Morales, serve atualmente de refúgio para o ex-presidente. Ele se mantém foragido da Justiça desde 2024, quando uma ordem de prisão foi emitida em um caso de abuso sexual contra uma menor de 15 anos, ocorrido quando ele ainda chefiava o Estado.
Governadores e cívicos entram na linha de tiro
A ofensiva não se restringe aos líderes sindicais de La Paz. Em Cochabamba, o asambleísta Joel Flores (APB-Súmate) denunciou penalmente o atual governador Leonardo Loza e outros cinco dirigentes evistas, incluindo Nelson Virreira, Vicente Choque e Feliciano Vegamonte.
A denúncia, protocolada em 9 de junho, acusa o governador e seus aliados de orquestrar os bloqueios no departamento de Cochabamba, configurando cinco crimes distintos contra a segurança dos meios de transporte e serviços públicos.
A pressão também vem da sociedade civil organizada. O Comitê Pró Santa Cruz apresentou a denúncia mais recente, em 1º de julho, acusando Morales por nove crimes diferentes. Os cívicos o apontam como o principal articulador intelectual das mobilizações que tentaram derrubar Rodrigo Paz.
"Não é perseguição, não é revanchismo, é justiça. Queremos que acabe a cultura de destruir a Bolívia e sair impune. Isso é apenas o começo."
A judicialização da guerra política boliviana
O que está em jogo nos tribunais bolivianos transcende a legalidade dos protestos. Trata-se de uma batalha existencial pelo controle da narrativa e da máquina de mobilização social. O evismo utilizou os sindicatos e as juntas de vizinhos como um exército informal para testar os limites da democracia e a resistência do governo de Paz.
Ao responder com a força total do aparato judiciário e tipificações penais graves, o governo envia um recado claro: o custo de paralisar o país será a perda da liberdade individual dos líderes. É a tentativa de romper o ciclo histórico em que os bloqueios eram usados como moeda de troca política sem consequências penais.
No entanto, a estratégia carrega riscos imensos. A prisão de figuras sindicais e a perseguição a um ex-presidente, por mais graves que sejam suas pendências com a justiça comum, podem transformá-los em mártires perante as bases radicais do Chapare e de El Alto.
A Bolívia caminha para um ponto de ruptura onde a lei ou será o instrumento de pacificação, ou o estopim para um conflito civil que as instituições já não conseguirão conter. A justiça boliviana tem em mãos a tarefa impossível de usar a caneta para desarmar a rua, em um país onde a fronteira entre o protesto legítimo e o crime organizado é cada vez mais invisível.
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