Exportações brasileiras para países islâmicos batem US$ 33 bi
Com US$ 33,3 bilhões em 2024, o Brasil supera potências globais e consolida o agronegócio halal como pilar estratégico de soberania alimentar e diplomacia econômica
📋 Em resumo ▾
- Brasil registrou US$ 33,3 bilhões em exportações para a Organização para a Cooperação Islâmica em 2024.
- País ocupa a segunda posição global, superando Índia, Estados Unidos e Turquia, ficando atrás apenas da China.
- Joint ventures bilionárias da BRF e JBS na Arábia Saudita redefinem a cadeia global de abastecimento.
- Por que isso importa: A certificação halal deixou de ser um nicho religioso para se tornar atestado global de segurança e rastreabilidade alimentar
O Brasil consolidou sua posição como potência no comércio com o mundo islâmico, registrando US$ 33,3 bilhões em exportações para os países da Organização para a Cooperação Islâmica (OIC) em 2024. O resultado coloca o país na segunda posição global, atrás apenas da China, e evidencia uma mudança estrutural: o agronegócio nacional não apenas vende commodities, mas constrói infraestrutura de soberania alimentar no Oriente Médio.
A hegemonia do agronegócio no mercado de US$ 2,6 trilhões
Dados do relatório State of the Global Islamic Economy Report 2025/26 mostram que o mercado global da economia islâmica atingiu US$ 2,6 trilhões em gastos de consumo, com projeção de alcançar US$ 3,6 trilhões até 2029. Nesse ecossistema, o setor de alimentos halal atua como âncora principal, movimentando mais de US$ 1,5 trilhão.
O desempenho brasileiro superou concorrentes de peso. Enquanto a China registrou US$ 34,7 bilhões, o Brasil deixou para trás a Índia (US$ 28,7 bilhões), os Estados Unidos (US$ 21 bilhões) e a Turquia (US$ 18,7 bilhões). A supremacia nacional é sustentada, em grande parte, pelas exportações de proteína animal, com ênfase na carne de frango halal.
Joint ventures bilionárias e a nova soberania alimentar
O cenário aponta para uma transição estratégica. Governos e investidores do mundo islâmico não atuam mais apenas como compradores passivos, mas industrializam cadeias de valor inteiras. O Brasil emerge como o parceiro de confiança escolhido para assegurar essa infraestrutura de abastecimento.
Um marco dessa estratégia é a criação da Sadia Halal JV, uma joint venture avaliada em US$ 21 bilhões entre a brasileira BRF e o Fundo de Investimento Público da Arábia Saudita (PIF), que se tornou a maior empresa de frango halal do mundo.
A tendência se intensificou em janeiro de 2026, quando a JBS anunciou um investimento de US$ 85 bilhões para dobrar a capacidade da fábrica da Seara na Arábia Saudita. A expansão inclui parceria estratégica com a Arabian Company for Agricultural and Industrial Investment (Entaj) para lançar linhas de frangos inteiros e cortes de aves no país.
"A certificação Halal se tornou uma estratégia fundamental de competitividade e acesso ao comércio internacional, atestando rigorosos padrões de segurança alimentar e rastreabilidade", afirma Ali Zoghbi, vice-presidente da FAMBRAS Halal Certificadora.
O selo halal como ponte de confiança global
O executivo destaca que o selo deixou de ser um nicho restrito. Hoje, funciona como uma ponte de confiança que atesta o cumprimento de preceitos religiosos, mas também garante transparência na cadeia produtiva.
Esses atributos são cada vez mais valorizados inclusive por consumidores não muçulmanos, transformando a exigência religiosa em um diferencial competitivo de mercado. O mercado mundial de alimentos halal, que movimentou US$ 1,53 trilhão em 2024, tem projeção de alcançar US$ 2,06 trilhões até 2029.
A ascensão do Brasil no ranking de exportações para a OIC não é um acidente de percurso, mas o resultado de décadas de adaptação da indústria nacional a padrões rigorosos de certificação. Ao vender não apenas proteína, mas tecnologia e infraestrutura de abastecimento, o país blinda sua balança comercial contra volatilidades de outros mercados.
Resta saber se, ao transferir parte da industrialização para dentro dos países islâmicos por meio de joint ventures massivas, o agronegócio brasileiro conseguirá manter o controle estratégico da cadeia ou se estará, inevitavelmente, exportando sua própria soberania produtiva.
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