FIDC Gold Style: a teia que liga PCC, Reag e bolsonarismo
Relatórios do Coaf revelam como fundo administrado pela Reag recebeu R$ 1 bilhão de empresas do PCC e repassou R$ 20 milhões para filme sobre Bolsonaro
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- O FIDC Gold Style, administrado pela Reag Trust, recebeu R$ 1 bilhão de empresas ligadas ao esquema de lavagem de dinheiro do PCC.
- O mesmo fundo realizou transações de R$ 20 milhões com a Entre Investimentos e Participações, usada para financiar o filme Dark Horse sobre Jair Bolsonaro.
- Relatórios do Coaf enviados à CPI do Crime Organizado apontam "camadas complexas" para ocultar beneficiários e dificultar o rastreamento.
- A Reag Trust é alvo de duas operações policiais e teve sua liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central em janeiro.
- Por que isso importa: O caso expõe a infiltração do crime organizado no sistema financeiro regulado e as falhas estruturais na fiscalização de fundos de investimento
O Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) Gold Style, administrado pela Reag Trust, recebeu R$ 1 bilhão de empresas identificadas pela Polícia Federal como integrantes do esquema de lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC). O mesmo fundo realizou transações de R$ 20 milhões com a Entre Investimentos e Participações, empresa utilizada por Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, para repassar recursos à produção do filme Dark Horse, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Os dados constam em relatórios de inteligência financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) enviados à CPI do Crime Organizado no Senado e foram apurados com base em comunicados bancários que apontam operações com "camadas complexas" para ocultar beneficiários e dificultar o rastreamento dos recursos. As informações foram divulgadas nesta sexta-feira (11) por Vinicius Sassine e Thaísa Oliveira na Folha de S.Paulo.
A estrutura do Gold Style e a opacidade dos beneficiários
O FIDC Gold Style foi constituído em abril de 2020 com um aporte inicial de R$ 480,1 milhões. Em maio de 2024, seu patrimônio líquido havia saltado para R$ 1,84 bilhão, conforme informações públicas da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). O fundo é administrado, gerido, custodiado e distribuído integralmente pela Reag Trust, gestora que concentra todas as funções operacionais do veículo.
Não é possível identificar quem são os donos e beneficiários finais do fundo, lacuna que, segundo investigadores, foi amplamente explorada pela Reag e pelo Banco Master para fraudes e expansão artificial de ativos. Os comunicados bancários enviados ao Coaf apontam que o Gold Style recebeu R$ 1 bilhão de empresas identificadas pela Polícia Federal como integrantes do esquema de lavagem de dinheiro do PCC.
Entre elas estão a Aster Petróleo, com repasses de R$ 759,5 milhões; a BK Bank, com R$ 158 milhões; e a Inovanti Instituição de Pagamento, com R$ 175 milhões. Todas são investigadas na Operação Carbono Oculto. As transações cobrem o período entre 2023 e 2025 e foram compartilhadas com a CPI do Crime Organizado no Senado.
"As operações ligadas ao Gold Style serviram para ocultar beneficiários, dificultar a identificação de pessoas envolvidas e atrapalhar o rastreamento, com o uso de camadas complexas." — Relatório do Coaf enviado à CPI do Crime Organizado.
A teia do PCC: lavagem de dinheiro e o sistema financeiro
A Aster Petróleo é apontada como peça central em um esquema de fraudes e sonegação no setor de combustíveis que operou em oito estados brasileiros. A distribuidora era usada como engrenagem de lavagem de dinheiro e evasão fiscal em larga escala, com o Banco do Brasil comunicando ao Coaf, em agosto de 2024, os repasses de R$ 759,5 milhões da empresa ao Gold Style, antes mesmo da deflagração da Operação Carbono Oculto.
A BK Bank, fintech que repassou R$ 158 milhões ao fundo, é uma das principais investigadas na operação. De acordo com apurações da Polícia Federal, da Receita Federal e do Ministério Público de São Paulo, a instituição atuou para a facção criminosa por meio de contas-bolsão em bancos que concentravam depósitos de clientes diversos, dificultando o rastreamento das transações. A estrutura oferecia às empresas de fachada controladas pelo grupo a aparência de operações financeiras regulares.
A Inovanti Instituição de Pagamento, por sua vez, movimentou mais de R$ 778 milhões de pessoas físicas e jurídicas investigadas pela Operação Carbono Oculto, segundo comunicados bancários ao Coaf. A operação investiga justamente a infiltração do PCC no mercado financeiro, com o uso do sistema para dar aparência lícita a recursos de origem ilegal.
Investigadores suspeitam que a facção utilizou a estrutura de fundos da Reag, incluindo o Gold Style, para lavar dinheiro por meio de um mecanismo com único cotista, artifício que dificulta ainda mais a identificação dos beneficiários finais e torna o rastreamento dos recursos praticamente inviável sem acesso a documentos sigilosos.
O filme Dark Horse e os repasses sob investigação
A conexão entre o Gold Style e o universo político bolsonarista passa pela Entre Investimentos e Participações. A empresa, que transacionou R$ 20 milhões com o fundo, teria sido utilizada por Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, para repassar dinheiro à produção de Dark Horse, documentário sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
O filme conta com a participação direta do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro e do senador Flávio Bolsonaro, que cobrou Vorcaro para garantir repasses ao filme no valor de R$ 134 milhões. A convergência entre lavagem de dinheiro do PCC e o financiamento de um filme com participação direta de filhos do ex-presidente Bolsonaro, mediada por um fundo administrado por uma gestora já liquidada pelo Banco Central, é um nó que as investigações ainda estão desatando.
A Reag, quando procurada pela reportagem da Folha de S.Paulo, disse que não comentaria o assunto.
O papel da Reag e o escândalo do Banco Master
A Reag Trust não é uma coadjuvante nas investigações: é o centro operacional de toda a estrutura do Gold Style e figura em duas operações policiais de grande porte. A gestora foi alvo da Operação Compliance Zero, a mesma que apura fraudes no âmbito do Banco Master e que levou Daniel Vorcaro de volta à prisão em 4 de março.
A suspeita dos investigadores é que a Reag atuou na estruturação e administração de uma "ciranda" de fundos suspeitos de movimentar recursos de forma atípica, inflar resultados e ocultar riscos, com indícios de fraude e lavagem de dinheiro. O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da Reag Investimentos em janeiro, dois meses após a solvência do Banco Master.
A Reag também foi alvo da Operação Carbono Oculto, que investiga o esquema bilionário de fraudes e lavagem de dinheiro no setor de combustíveis atribuído a integrantes do PCC. A dupla exposição da gestora, em operações que investigam tanto fraudes no mercado de capitais quanto lavagem de dinheiro do crime organizado, coloca a Reag no centro de uma teia que conecta o sistema financeiro regulado a práticas ilícitas de grande escala.
O fundo Gold Style, com ativo de R$ 2 bilhões segundo dados da CVM, permanecia "em funcionamento normal" conforme os registros públicos mais recentes.
As falhas regulatórias e o ponto cego dos fundos com único cotista
As revelações sobre o Gold Style aprofundam um quadro que a revista Fórum tem acompanhado: a relação entre a Faria Lima e o crime organizado, agravada pelo escândalo do Banco Master. A complexidade das estruturas de fundos como o Gold Style, com beneficiários ocultos e camadas sucessivas de transações, levanta questões concretas sobre a eficácia da fiscalização exercida pelo Banco Central e pela CVM.
O mecanismo do fundo com único cotista, em especial, é um ponto cego regulatório que as investigações em curso colocam em evidência. A CPI do Crime Organizado no Senado já recebeu os dados do Coaf sobre as movimentações do Gold Style, o que indica que as apurações parlamentares devem avançar sobre essas conexões.
A chegada desse material à comissão abre espaço para convocações, requerimentos de documentos e eventuais encaminhamentos ao Ministério Público Federal, ampliando o alcance político e judicial do caso. A liquidação da Reag e do Banco Master, somada às duas operações policiais em curso, sinaliza que o período de maior escrutínio sobre fundos de investimento e gestoras no Brasil está apenas começando.
O que os documentos do Coaf já mostram é suficiente para colocar em xeque a narrativa de que essas estruturas operam à margem do crime organizado por mero descuido regulatório.
A pergunta que resta é inevitável: quantos fundos com beneficiários ocultos ainda operam no sistema financeiro brasileiro, e qual é o tamanho real da infiltração do crime organizado no mercado de capitais que a fiscalização ainda não conseguiu detectar?
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