Flávio Bolsonaro era 'usuário master' em holding de investigado por fraudes no INSS
E-mails obtidos pela Polícia Federal mostram o nome do senador associado ao "usuário master" da conta da Alcazar Holdings, do advogado Willer Tomaz; os dois negam qualquer vínculo financeiro
📋 Em resumo ▾
- • E-mails encontrados pela Polícia Federal no iCloud do advogado Willer Tomaz mostram o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) associado, até maio de 2025, ao "usuário master" da conta bancária da Alcazar Holdings, empresa do advogado.
- • A PF trata o achado como indício de uma possível participação econômica ou societária de Flávio na empresa — não como fato provado.
- • Flávio e Willer Tomaz negam qualquer vínculo financeiro ou societário entre eles.
- • Documentos também mostram voos internacionais pagos por empresas de Willer para Flávio e familiares, e conversas entre os dois por um aplicativo de mensagens que se autodestroem.
- • Por que isso importa: Willer Tomaz é alvo da Operação Sem Desconto, que apura fraudes em descontos de aposentadorias e pensões do INSS, e o caso ganha novo capítulo a 11 dias do segundo turno da eleição presidencial.
Um relatório da Polícia Federal na Operação Sem Desconto — que investiga descontos indevidos em aposentadorias e pensões do INSS — identificou e-mails que associam o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, a uma conta bancária no Santander administrada pelo advogado Willer Tomaz, um dos alvos da investigação. Segundo a PF, Flávio aparecia como "usuário master" de uma conta vinculada à Alcazar Holdings, empresa de Tomaz sediada em Portugal, até ser desvinculado em maio de 2025. Flávio e Willer negam, em notas reproduzidas na íntegra mais abaixo, qualquer vínculo financeiro ou societário entre eles.
O que mostram os e-mails obtidos pela PF
Segundo o relatório policial, a Alcazar Holdings — sediada na Ilha da Madeira, em Portugal, e tendo Willer Tomaz como único sócio — mantinha uma conta empresarial no Santander. Nesse tipo de conta, um "usuário master" tem acesso administrativo mais amplo, podendo gerenciar outros usuários vinculados. Um e-mail enviado às 8h05 de 22 de maio de 2025 pela secretária de Tomaz, Fayla Menezes, a gestores do banco pediu a desassociação de duas contas do usuário master de Tomaz: uma identificada com o nome de Flávio Bolsonaro e outra como "conta PF Willer". O Santander confirmou a exclusão às 10h21 do mesmo dia.
A PF registrou que, segundo a documentação de abertura da conta da Alcazar, "Flávio Bolsonaro figurava com perfil de usuário master, condição que, em princípio, lhe conferia nível elevado de acesso e gerenciamento" e acesso operacional relevante à conta — o que, para a corporação, "sustenta a hipótese de sua eventual participação econômica ou societária de fato na empresa". É importante marcar o que isso é e o que não é: trata-se de uma hipótese levantada pela PF a partir de um indício documental, não de uma conclusão definitiva, de uma acusação formal ou de uma condenação. Flávio Bolsonaro não é apontado como investigado na Operação Sem Desconto; seu nome aparece citado em um relatório da apuração voltada a Willer Tomaz.

A PF também observou que a Alcazar Holdings detinha 33,33% da Fraction 024, empresa dona do jato executivo Legacy 650 de prefixo PP-NLR — o que, segundo o relatório, pode dar relevância ao vínculo com a Alcazar para entender as relações indiretas de Flávio com a aeronave.
Os voos internacionais entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz
Foi nesse mesmo Legacy 650 que Flávio Bolsonaro, a mulher Fernanda Bolsonaro, as duas filhas do casal e Willer Tomaz viajaram de Fort Lauderdale, na Flórida, a Brasília, em 19 de janeiro de 2025 — voo revelado pela revista piauí em setembro deste ano. Os outros dois cotistas da aeronave eram, à época, o empresário Laerte Cosentino, dono da Totvs, e a empresa Prime You, que teve Daniel Vorcaro, do Banco Master, como sócio entre setembro de 2021 e setembro de 2025. Questionado pela piauí sobre o voo, Flávio disse ter viajado de carona a convite de Tomaz, por amizade; depois que a conexão com Vorcaro veio à público, o senador escreveu nas redes: "Ainda bem que na época o avião era de Willer".
O mesmo avião foi usado, em agosto de 2025, pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e sua mulher, a advogada Viviane Barci de Moraes — episódio revelado pelo colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo. Outro relatório da PF, apresentado pelo ministro André Mendonça ao plenário do STF, indica que Vorcaro negociou com Viviane um contrato de R$ 50 milhões que previa a cessão da cota da Prime You e mais R$ 10 milhões para manutenção da aeronave, como pagamento por serviços não especificados — valor que se somaria a outro contrato, de R$ 131 milhões, já fechado entre o escritório da família Moraes e o Banco Master, do qual R$ 80 milhões já teriam sido pagos. Esses dois pontos dizem respeito a Moraes e Vorcaro, não a Flávio Bolsonaro, e são citados aqui apenas como contexto sobre a aeronave.
Documentos da PF apontam ao menos cinco voos internacionais feitos por Flávio e Willer Tomaz juntos no primeiro semestre de 2025, incluindo destinos nos Estados Unidos, na África do Sul, em Portugal e na França. Em março de 2025, os dois fizeram um safári na África do Sul com o senador Weverton Rocha (PDT-MA), também citado na Operação Sem Desconto. Documentos mostram ainda reservas em um jato Bombardier Challenger 350: uma para 11 de abril de 2025, entre Lisboa e Nice, com Flávio, Willer e as respectivas esposas; outra para 23 de maio de 2025, entre Cascais e Nice, com Flávio, a mulher, as filhas, Willer, a esposa dele e outros familiares — viagem que, segundo a apuração de O Globo, teria como destino final Mônaco, não a França. Essas viagens teriam sido pagas por outra empresa de Willer, a Cathedral Holding, usada, segundo a PF, não só em relações societárias mas também para "custear ou operacionalizar deslocamentos de caráter pessoal". Procurado, Willer Tomaz disse que os deslocamentos "foram viagens de lazer com as famílias, que embarcaram como convidadas, sem pagamento ou contrapartida de qualquer natureza".
Mensagens que se autodestroem
A PF identificou, no celular de Willer Tomaz, conversas com Flávio Bolsonaro pelo aplicativo Confide, serviço de mensagens criptografadas que impede capturas de tela e apaga as conversas automaticamente. Segundo a PF, o número de Flávio constava como contato favoritado do advogado no aplicativo. O uso do Confide, por si só, não é ilícito nem prova irregularidade — o relatório da PF não atribui às conversas apagadas nenhum conteúdo específico, já que elas não ficam registradas.
"Discuta assuntos delicados [...] sem temer o registro digital permanente da internet e sem deixar cópias", descreve o site do Confide sobre a proposta do aplicativo.
O que dizem Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz
Ambos negam qualquer vínculo financeiro ou societário. Em nota enviada à coluna de Lauro Jardim, a assessoria de Flávio Bolsonaro afirmou:
"O senador nunca manteve conta tendo como usuário master o Sr. Willer Tomaz ou qualquer de suas empresas. Toda e qualquer afirmação nesse sentido é falsa. O próprio e-mail apresentado comprova justamente que a vinculação era indevida, tanto que solicita a desvinculação. [...] Essas insinuações surgem em pleno período eleitoral e exigem responsabilidade. A divulgação de Fake News é crime eleitoral e os responsáveis deverão responder na forma da lei."
Willer Tomaz, por sua vez, respondeu:
"O advogado Willer Tomaz repudia as inverdades reiteradas na reportagem. Com o senador Flávio Bolsonaro mantém apenas amizade, sem nenhum vínculo financeiro ou societário. Os dois nunca dividiram conta bancária. O e-mail enviado ao Santander não demonstra o contrário. Extrair desse documento uma 'eventual participação econômica ou societária' é ilação. [...] Converter conjecturas em denúncias, em plena campanha eleitoral, tem o evidente propósito de interferir no pleito. A exposição de dados sigilosos de seu celular e iCloud integra o vazamento criminoso já investigado pela Polícia Federal, e os autores responderão na Justiça."
O que ainda falta confirmar
O episódio tem uma fonte primária forte — o relatório da PF e os e-mails trocados com o Santander, descritos por O Globo e corroborados de forma independente por outras reportagens revisadas nesta apuração. Mas a interpretação desses documentos segue em disputa: a PF fala em "hipótese" de participação econômica ou societária, não em conclusão; Flávio e Willer dizem que o próprio pedido de desvinculação prova que a associação era indevida e já foi corrigida. Não há, até agora, indiciamento, denúncia ou decisão judicial sobre esse ponto específico — apenas um relatório de investigação em andamento, cujo desfecho ainda não está definido. A Operação Sem Desconto segue em curso, e qualquer novo andamento processual deve ser verificado diretamente nos autos antes de ser apresentado como fato consumado.
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