Gado em baixa nos EUA aperta John Deere no Brasil e abre porta à China
Rebanho bovino dos EUA no menor nível em 75 anos aperta frigoríficos e produtores; no Brasil, Deere reduz produção enquanto Zoomlion e XCMG avançam com crédito próprio
📋 Em resumo ▾
- • Rebanho bovino dos EUA caiu para 86,2 milhões de cabeças em jan/2026 — o menor nível desde 1951 — pressionando a margem de frigoríficos
- • A alavancagem da JBS subiu de 2,3x para 3,1x em um ano, superando o teto de 3,0x fixado pela própria empresa; a Tyson fechou ou vendeu três plantas de carne bovina em 2026 em meio a prejuízos no segmento
- • No Brasil, a John Deere projeta queda de até um dígito nas vendas em 2026 por juros altos e tarifas, e já ajusta a produção para não inflar o estoque das concessionárias
- • Fabricantes chinesas avançam: a Zoomlion mira R$ 500 milhões em vendas no Brasil em 2026 (ante R$ 100 milhões em 2025) e a XCMG opera banco próprio no país para financiar máquinas
- • Por que importa: a disputa expõe uma mudança estrutural no financiamento do maquinário agrícola brasileiro — fabricantes chinesas entram pela porta do crédito próprio, onde o banco tradicional e a própria Deere recuam
O rebanho bovino dos Estados Unidos caiu para 86,2 milhões de cabeças em janeiro de 2026, o menor nível em 75 anos, segundo o USDA (Departamento de Agricultura dos EUA). A escassez de gado aperta a margem dos frigoríficos JBS e Tyson Foods e reduz o fôlego do produtor americano para investir em máquinas novas — um aperto que, somado a juros altos e tarifas no Brasil, levou a John Deere a frear a produção por aqui, enquanto as chinesas Zoomlion e XCMG avançam oferecendo preço menor e crédito próprio.
O boi que sumiu dos Estados Unidos
O USDA divulgou em 30 de janeiro de 2026 o Relatório de Inventário de Gado, que mostrou 86,2 milhões de cabeças de bovinos no país em 1º de janeiro — queda de 0,35% em relação ao ano anterior e o menor total desde 1951. O rebanho de vacas para corte caiu 1%, para 27,6 milhões de cabeças, o menor nível desde 1961. A safra de bezerros de 2025 somou 32,9 milhões de cabeças, a menor desde 1941.
A redução vem de um ciclo que começou em 2019, puxado por anos de seca que destruíram pastagens nos estados do oeste americano e elevaram o custo da ração, levando pecuaristas a abater animais em vez de reconstruir o plantel. O resultado é um boi mais caro e mais escasso — o preço da carne bovina tipo Choice subiu cerca de 23% entre agosto de 2024 e julho de 2026, segundo dados do USDA.
Frigoríficos sob pressão
Com menos gado disponível, o custo da matéria-prima subiu mais rápido do que o preço que os frigoríficos conseguem repassar, e a margem apertou dos dois lados do Equador. Na JBS, a relação entre dívida líquida e Ebitda ajustado — a alavancagem — subiu de 2,3 vezes no segundo trimestre de 2025 para 2,7 vezes no primeiro trimestre de 2026 e chegou a 3,1 vezes no segundo trimestre de 2026, segundo relatório do BB Investimentos de 23 de setembro. O indicador superou o teto de 3,0 vezes que a própria companhia estabelece como limite de política financeira. A JBS registrou prejuízo líquido de US$ 102 milhões no segundo trimestre de 2026, revertendo o lucro do mesmo período de 2025, mesmo com receita recorde de US$ 23,9 bilhões — o braço de carne bovina nos EUA teve Ebitda ajustado negativo de US$ 100 milhões no período.
A Tyson Foods também sentiu o aperto: fechou as plantas de carne bovina de Joslin (Illinois) e Eagle Mountain (Utah) e colocou à venda a unidade de Pasco (Washington), concentrando a operação em três fábricas no centro dos Estados Unidos. A empresa cortou sua projeção de resultado para o ano fiscal de 2026 pela segunda vez em um mês, em setembro, citando o segmento de carne bovina — que a companhia agora projeta perder entre US$ 625 milhões e US$ 775 milhões no ano. Em agosto, a Tyson lançou ofertas para recomprar até US$ 1,2 bilhão em notas de dívida, movimento que o mercado interpretou como parte do mesmo esforço de reduzir a exposição enquanto o negócio de bovinos segue no vermelho.
Deere freia produção no Brasil
A pressão não vem só do boi americano. No Brasil, a John Deere enfrenta juros domésticos de até 18% ao ano e o custo das tarifas impostas pelo governo americano sobre importações, que elevaram a conta de aço e alumínio da empresa. Em setembro de 2025, Antonio Carrere, vice-presidente de vendas e marketing da John Deere no Brasil, disse à agência Reuters que um cenário positivo para 2026 seria repetir 2025, mas que uma queda de 5% a 6% nas vendas era provável:
"Hoje um cenário positivo seria igual ao 2025, mas é provável que tenha uma queda."
A companhia confirmou a tendência ao longo de 2026: em fevereiro, a Deere já havia reduzido sua previsão para a América do Sul, e em março Rodrigo Bonato, vice-presidente de Vendas e Marketing da empresa para a América Latina, afirmou em coletiva em Campinas (SP) que a fábrica está ajustando a produção para não deixar a rede de concessionárias com estoque parado:
"Com as taxas de juros que nós temos hoje, não podemos ter a nossa rede de concessionários estocada. Isso não é saudável para o nosso negócio."
Em maio, a Deere revisou a perspectiva de vendas para a América do Sul, citando a guerra no Irã, a alta de custos agrícolas e a queda na renda do produtor. O CEO da companhia, John May, chegou a dizer que 2026 marcará o ponto mais baixo do atual ciclo agrícola global.
A fatia chinesa
Enquanto a Deere recua, fabricantes chinesas avançam sobre o mesmo mercado. A Zoomlion, gigante global de máquinas pesadas com faturamento de US$ 10 bilhões, faturou R$ 100 milhões no Brasil em seu primeiro ano de operação com tratores agrícolas e já havia alcançado R$ 300 milhões até maio de 2026, com perspectiva de fechar o ano em pelo menos R$ 500 milhões em vendas — um salto de cinco vezes em relação ao primeiro ano. A empresa tinha dez distribuidores no país em maio, mira uma rede de 50 até o fim de 2026, apresentou um trator híbrido na Agrishow e negocia com governos estaduais a instalação de uma fábrica no Brasil nos próximos quatro anos.
A XCMG segue caminho parecido, mas pela porta do crédito: a companhia mantém desde 2020 o Banco XCMG, primeira instituição financeira 100% controlada por capital chinês autorizada a operar no Brasil, dedicada a financiar a venda de suas próprias máquinas. O banco encerrou 2025 com uma carteira de crédito de R$ 667 milhões, sendo R$ 469,2 milhões vinculados a serviços, segundo o balanço mais recente da instituição. É uma estrutura que a Deere não tem no Brasil: aqui, a venda das máquinas americanas depende do financiamento bancário tradicional — hoje mais caro e mais seletivo — ou de linhas públicas como o Finame, do BNDES.
As duas marcas fazem parte de uma leva maior: segundo dados citados pela reportagem especializada AgFeed, a China respondeu por cerca de 3,9 mil máquinas agrícolas vendidas no Brasil em um levantamento recente, crescimento de quase 86% ante o período anterior, com marcas como Lovol e YTO também ganhando espaço ao lado de Zoomlion e XCMG.
No fim das contas, o movimento é uma mudança de forma mais do que de fundo. A dependência da agricultura brasileira em relação a insumos e crédito externos não desaparece com o aperto americano — ela migra. Onde antes a John Deere precisava de peça chinesa para fechar a conta, hoje o produtor pode comprar a máquina chinesa inteira, financiada por um banco chinês instalado em Minas Gerais. A Deere segue sendo, de longe, a maior fabricante no país, com pelo menos 34 concessionárias oficiais e décadas de rede construída; o espaço que abre para Zoomlion e XCMG é real, mas ainda pequeno diante desse tamanho.
A pergunta que fica para os próximos meses é se o movimento chinês — fábrica local, banco próprio, rede de distribuidores em expansão — é um ajuste de ciclo ou o início de uma disputa estrutural pelo financiamento do campo brasileiro.
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