GDF paga R$ 5,5 milhões em evento de sócio de Ibaneis
CGDF alerta para direcionamento e falta de licitação. Ingressos custam até R$ 4 mil e organização tem vínculos com o ex-governador
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- A CGDF identificou irregularidades graves no repasse de R$ 5,5 milhões do GDF para a ExpoDireito 2026.
- A Secretaria de Turismo contratou a empresa organizadora sem licitação, ignorando pareceres técnicos contrários.
- O evento é privado, cobra ingressos de até R$ 4 mil e tem como coordenador acadêmico Valdetário Monteiro, sócio de Ibaneis Rocha.
- Há indícios claros de conflito de interesses e direcionamento, com participação de aliados do antigo governo distrital.
- Por que isso importa: O caso expõe como o discurso de "fomento ao turismo" está sendo usado para blindar contratações diretas de eventos privados ligados a elites políticas.
O Governo do Distrito Federal (GDF) está prestes a desembolsar R$ 5,5 milhões em recursos públicos para bancar a estrutura do ExpoDireito 2026, um evento jurídico privado que cobra ingressos de até R$ 4 mil dos participantes. A Controladoria-Geral do Distrito Federal (CGDF) identificou fragilidades graves e riscos de direcionamento no processo conduzido pela Secretaria de Turismo (Setur), que autorizou a despesa sem licitação.
A manifestação do órgão de controle revela que a Setur acolheu praticamente sem alterações um pedido da empresa organizadora, a Notorium, ignorando alertas da Procuradoria do DF sobre a ilegalidade da contratação direta. O caso ganha contornos políticos mais densos ao se revelar que a coordenação acadêmica do evento está a cargo de Valdetário Monteiro, sócio do ex-governador Ibaneis Rocha (MDB).
Dinheiro público para evento privado
A justificativa apresentada pela Setur para dispensar a licitação foi a suposta "relevância turística" do evento. No entanto, a CGDF apontou que a pasta não apresentou estudos técnicos independentes que comprovassem esse interesse público ou a inexigibilidade de competição.
"A pasta praticamente reproduziu uma demanda privada sem demonstrar construção própria do interesse público nem justificativa técnica independente."
Para a Controladoria, o processo configura risco claro de direcionamento. A empresa organizadora já indicou o local — o Centro Internacional de Convenções do Brasil (CICB) — e solicitou o valor exato do repasse, sem que houvesse uma análise de mercado que atestasse a compatibilidade dos preços. A Procuradoria do DF já havia advertido anteriormente que não estavam preenchidos os requisitos legais para a dispensa, destacando a existência de concorrência viável no setor de eventos.
Em nota, a Setur afirmou que "todas as propostas passam por análise técnica" e que vínculos pessoais não influenciam as aprovações. Contudo, a manutenção da decisão, apesar dos pareceres negativos dos órgãos de controle jurídico e fiscal, levanta questões sobre a blindagem política do processo.
A sombra de Ibaneis Rocha e o conflito de interesses
O cerne da polêmica não está apenas na falha procedural, mas nos protagonistas envolvidos. Valdetário Monteiro, advogado e sócio de Ibaneis Rocha, atua como coordenador acadêmico do ExpoDireito. Embora declare não ter ingerência administrativa, sua presença é central na divulgação e no prestígio do evento.
Em publicações nas redes sociais, Allan Christyan, CEO da Notorium, refere-se a Valdetário como "nosso presidente" em edições anteriores. Na atual, a proximidade permanece. Valdetário defende sua atuação:
— Todos os convites que assinei convidando (alguém) foram como coordenador acadêmico. Eu mesmo tive o cuidado de ser coordenador acadêmico, mas não me meter na direção do evento — disse ele, enfatizando que Ibaneis Rocha não faz parte da empresa.
A trama se complica com a presença de Celivaldo Elói, ex-conselheiro do BRB e vice-presidente do evento. Elói deixou o banco após suspeitas ligarem sua indicação a fundos investigados por operações irregulares. Sua integração à diretoria do ExpoDireito ilustra a circulação de uma elite política e empresarial que se beneficia de contratos estatais.
Com a palavra, o Grupo Notorium
O Grupo Notorium, empresa organizadora e detentora da marca ExpoDireito Brasil, recebe com serenidade e respeito democrático os questionamentos apresentados em matéria publicada pelo portal PainelPolítico acerca de procedimentos administrativos relacionados ao evento, previsto para ocorrer esta semana em Brasília.
A empresa esclarece que não possui qualquer ingerência sobre decisões orçamentárias, financeiras ou administrativas eventualmente adotadas, cabendo exclusivamente ao Poder Público a análise de legalidade, conveniência e interesse público dos atos praticados.
A ExpoDireito Brasil consolidou-se como um dos maiores encontros jurídicos e acadêmicos do país, reunindo magistrados, ministros, conselheiros, advogados, professores, estudantes, empresários e representantes institucionais de diversas regiões do Brasil.
A expectativa deste ano é de mais de 8.000 inscritos, 30 coordenadores e, em eventos dessa magnitude, há reconhecido potencial de impacto positivo sobre a economia local, movimentando setores como hotelaria, turismo, alimentação, transporte, comércio e serviços, além de contribuírem para a projeção de Brasília como centro nacional de grandes debates institucionais, acadêmicos e profissionais.
O Grupo Notorium reafirma seu absoluto compromisso com a legalidade, a transparência, a ética institucional e o respeito aos órgãos de controle, permanecendo à disposição das autoridades competentes para quaisquer esclarecimentos que se façam necessários.
ALLAN CHRISTYAN
CEO do Grupo Notorium e Coord. Geral da ExpoDireito Brasil
Indignação com os custos
Enquanto o contribuinte arca com a locação do espaço e a estrutura básica, os participantes pagam valores elevados para assistir às palestras. Os ingressos variam de R$ 489 a R$ 4 mil. A governadora Celina Leão (PP) teve sua imagem usada em peças de divulgação, embora não esteja confirmada como palestrante, numa tentativa de associar o evento à atual gestão.
Já a ex-primeira-dama Mayara Rocha consta entre os 600 palestrantes, reforçando o caráter de reunião de cúpula do grupo ligado ao ex-governador.
O episódio do ExpoDireito serve como um teste de fogo para a transparência no DF. Se a justificativa de "turismo de eventos" permite que o Estado subsidie negócios privados de aliados políticos, sem licitação e com preços opacos, o princípio da impessoalidade administrativa deixa de existir na prática. Resta saber se o Ministério Público ou o Tribunal de Contas irão aprofundar a investigação antes que o dinheiro seja efetivamente transferido.
Versão em áudio disponível no topo do post.
NR* Editada às 13h38min de 28/05/2026 para inclusão da nota oficial do Grupo Notorium