Eleições 2026

Governo Trump destinou US$ 1 milhão para campanha contra o STF, revela Guardian

Investigação do jornal britânico The Guardian revela que o governo Trump redirecionou mais de US$ 175 milhões de um fundo de direitos humanos para causas conservadoras — incluindo US$ 1 milhão contra o STF no Brasil

Governo Trump destinou US$ 1 milhão para campanha contra o STF, revela Guardian
📷 Reprodução ICL
📋 Em resumo ▾
  • O governo Trump destinou US$ 1 milhão a um projeto batizado "Combate ao Lawfare e à Censura no Brasil", voltado a grupos que criticam o STF
  • A verba integra um redirecionamento de mais de US$ 175 milhões do Fundo de Direitos Humanos e Democracia do Departamento de Estado para causas conservadoras em diversos países
  • Uma senadora democrata tentou bloquear parte dos repasses; o secretário de Estado Marco Rubio assinou memorando para liberá-los mesmo assim
  • Por que isso importa: o caso se soma a outras ações do governo Trump contra o ministro Alexandre de Moraes e amplia a tensão diplomática entre Brasil e Estados Unidos
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O governo de Donald Trump destinou US$ 1 milhão para financiar uma campanha contra o Supremo Tribunal Federal (STF) no Brasil. A revelação foi publicada em 30 de setembro pelo jornal britânico The Guardian e repercutida no Brasil pelo ICL Notícias, em coluna assinada pelo jornalista Jamil Chade. Segundo o Guardian, o subsídio batizado "Combate ao Lawfare e à Censura no Brasil" é parte de um redirecionamento muito maior: mais de US$ 175 milhões do Fundo de Direitos Humanos e Democracia do Departamento de Estado americano foram destinados a dezenas de programas ligados a pautas conservadoras ao redor do mundo.

O projeto contra o STF

De acordo com a reportagem, o subsídio de US$ 1 milhão financiaria grupos da sociedade civil que se opõem ao que descrevem como excesso de atuação judicial e censura por parte do STF. O Guardian lembra que o governo Trump já havia imposto sanções ao ministro Alexandre de Moraes no ano passado, depois de pressão de Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro — uma relação de causa e efeito apontada pela reportagem, que o Painel Político reproduz aqui atribuída à fonte original.

Um fundo de US$ 205 milhões com nova prioridade

O Congresso americano destinou cerca de US$ 205 milhões ao Fundo de Direitos Humanos e Democracia para 2026. Segundo o Guardian, 43 concessões somando US$ 176,9 milhões chamaram atenção por fugirem do foco tradicional do fundo — apoio a dissidentes políticos e defensores de direitos humanos sob regimes autoritários — para financiar projetos sobre cristianismo, anticomunismo, imigração, regulação de negócios e oposição ao que autoridades do governo chamam de "ideologia de gênero".

Fontes ouvidas pelo Guardian afirmaram que autoridades seniores do governo, incluindo nomes ligados ao vice-presidente JD Vance e ao vice-chefe de gabinete da Casa Branca Stephen Miller, tiveram interesse direto nos programas. Uma pessoa familiarizada com as discussões descreveu o nível de atenção da Casa Branca como incomum.

"Essas concessões foram apresentadas aos escalões mais altos do departamento e têm o aval da Casa Branca."
— fonte não identificada ouvida pelo Guardian

O maior projeto: US$ 40 milhões contra o 'comunismo'

O maior repasse individual, de US$ 40 milhões, foi destinado a um consórcio liderado pela Victims of Communism Memorial Foundation, fundação criada por lei assinada pelo então presidente Bill Clinton. Segundo registros do Departamento de Estado consultados pelo Guardian, a entidade havia recebido menos de US$ 100 mil em contratos com o órgão nos cinco anos anteriores — valor muito inferior ao da nova concessão. Andrew Bremberg, ex-assessor da Casa Branca no primeiro governo Trump e ex-embaixador dos EUA junto à ONU em Genebra, preside a fundação.

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Europa, África do Sul e Reino Unido também entram na lista

O Guardian descreve um projeto de US$ 2 milhões chamado "Promoting Western Civilization Allies", destinado a organizações na Polônia, Eslováquia, República Tcheca, Hungria e nos Bálcãs que rejeitem o que os documentos de concessão chamam de "relatos ideologicamente armados de direitos humanos, como a ideologia de gênero". Um funcionário do Departamento de Estado, não identificado, disse ao jornal que a programação na Europa visa apoiar aliados na defesa de sua "autoconfiança civilizacional" e soberania.

A África do Sul também aparece entre os países contemplados, com programas ligados a interesses de afrikâners brancos — autoridades de Trump têm acusado reiteradamente o país de discriminar sua minoria branca, acusação rejeitada pelo governo sul-africano. No Reino Unido, uma concessão sem licitação de US$ 3 milhões foi destinada à Jobs Foundation, dirigida por Matthew Elliott, ex-líder da campanha Vote Leave; duas outras propostas britânicas — ligadas à Free Speech Union, de Toby Young, e ao think tank 882, fundado pelo ex-ministro conservador Jacob Rees-Mogg — foram retiradas da lista antes da confirmação final, segundo o Guardian.

A reação no Congresso americano

Segundo um assessor parlamentar democrata ouvido pelo Guardian, a senadora Jeanne Shaheen, principal democrata no Comitê de Relações Exteriores do Senado, havia bloqueado dez repasses — incluindo o voltado ao Brasil —, totalizando cerca de US$ 22 milhões. Shaheen argumentou que o Congresso criou o fundo de forma bipartidária para apoiar defensores de direitos humanos e instituições democráticas. "As propostas do governo Trump usariam recursos públicos para promover organizações e programas de extrema direita em democracias já consolidadas", afirmou a senadora, segundo a reportagem.

De acordo com o mesmo assessor, o secretário de Estado Marco Rubio assinou pessoalmente um memorando para ignorar os bloqueios de Shaheen e autorizar o empenho dos recursos — uma decisão administrativa relatada pela fonte ao Guardian, sem desmentido do Departamento de Estado localizado até a publicação desta matéria. A coluna do ICL registra ainda que, nesta semana, Shaheen enviou carta ao governo Trump para denunciar o que classificou como ingerência na eleição brasileira e cobrar da Casa Branca o reconhecimento do resultado das urnas no Brasil.

Contexto e antecedentes

O episódio se soma a uma sequência de ações do governo Trump contra o STF e, especificamente, contra o ministro Alexandre de Moraes — que vão de sanções sob a lei Global Magnitsky a ações judiciais movidas por empresas ligadas ao próprio Trump, passando por tarifas comerciais de 50% impostas ao Brasil. O novo subsídio revelado pelo Guardian é o primeiro caso conhecido de financiamento direto, via fundo federal americano, a uma campanha voltada especificamente contra a Corte brasileira.

Com o Congresso americano dividido sobre o uso do fundo e a Casa Branca disposta a ignorar bloqueios parlamentares, o episódio deve alimentar tanto o debate em Washington sobre os limites da política externa de Trump quanto a já tensa relação entre o governo americano e o Judiciário brasileiro.

Versão em áudio disponível no topo do post.

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