Grupo Estrela propõe deságio de 90% e prazo de 15 anos a credores
Fabricante do Banco Imobiliário protocola plano de recuperação judicial em Três Pontas (MG) para reestruturar dívida de R$ 109,3 milhões e evitar a falência.
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- Plano de recuperação judicial foi protocolado nesta sexta-feira (14) na 1ª Vara Cível de Três Pontas (MG), com deságio de até 90% e prazo de pagamento de até 15 anos para parte dos credores.
- Créditos sujeitos ao processo somam R$ 109,3 milhões, entre dívidas trabalhistas, quirografárias e de micro e pequenas empresas, dos quais 92,47% não têm garantia real (Bloomberg Línea).
- É a terceira recuperação judicial da Estrela em pouco mais de duas décadas, após processos em 2004 e 2008, e vem sete meses depois de um pedido de falência protocolado por uma factoring credora.
- Concorrência chinesa, pirataria e migração do consumo infantil para o digital são apontadas pela própria empresa como causas da crise, num momento de recorde de recuperações judiciais no país (Serasa Experian).
- Por que isso importa: o desfecho definirá se uma marca com quase 90 anos e presente na memória afetiva de gerações de brasileiros sobrevive à terceira tentativa de reestruturação ou caminha para a falência.
O Grupo Estrela apresentou nesta sexta-feira (14) o plano de recuperação judicial que vai definir o destino de uma das marcas mais tradicionais da indústria brasileira de brinquedos. O documento propõe deságio de até 90% para parte dos credores e prazo de pagamento que pode se estender por 15 anos. Foi protocolado na 1ª Vara Cível da Comarca de Três Pontas, em Minas Gerais, onde tramita a recuperação conjunta de oito empresas do grupo.
Segundo a relação apresentada no processo, os créditos sujeitos à recuperação judicial somam R$ 109,3 milhões, reunindo obrigações trabalhistas, dívidas quirografárias e créditos de micro e pequenas empresas. A proposta agora segue para análise dos credores, que deverão votar o plano em assembleia geral.
Uma crise que se arrasta desde maio
O pedido de recuperação judicial foi protocolado em 20 de maio de 2026, na mesma 1ª Vara Cível de Três Pontas, envolvendo a Manufatura de Brinquedos Estrela S.A. (ESTR4) e outras sete sociedades do grupo — entre elas Estrela Distribuidora de Brinquedos, Editora Estrela Cultural, Brinquemolde, JM Comércio e Indústria de Plásticos, Catu Cosméticos, Starcom e Starcom do Nordeste. A petição pediu que as oito empresas fossem tratadas como devedor único, argumentando que a estrutura corporativa foi montada para criar uma "sinergia administrativa" e que apenas uma solução global seria eficiente. A urgência do pedido tinha um motivo concreto: corria contra uma das empresas do grupo Estrela um pedido de falência protocolado em abril de 2026 pela Ipiranga Factoring. A Justiça só autorizou o processamento da recuperação em 15 de junho, quando o Juízo da 1ª Vara Cível da Comarca de Três Pontas reconheceu o cumprimento dos requisitos previstos na Lei de Recuperação Judicial e Falências (Lei nº 11.101/2005). Com a decisão, ficaram suspensas por 180 dias as ações e execuções sujeitas aos efeitos da recuperação judicial, o chamado stay period, durante o qual os credores ficam impedidos de cobrar judicialmente os débitos incluídos no processo. O tribunal também autorizou o processamento em regime de consolidação processual e substancial, mecanismo que permite o tratamento conjunto dos ativos e passivos das empresas do grupo em razão da integração operacional, financeira, administrativa e societária entre elas. A partir do deferimento, começou a contar o prazo legal para a apresentação do plano — cumprido agora, quase dois meses depois, com a entrega protocolada em 14 de agosto.Dívida pulverizada e quase toda sem garantia
O retrato do endividamento revelado na petição inicial mostra uma estrutura de credores fragmentada entre bancos, fornecedores, fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs) e empresas de factoring. Do total do passivo sujeito à recuperação, quase a totalidade dele (92,47%) é quirografária, ou seja, sem garantia real — um dado que ajuda a explicar por que o plano recorreu a um deságio tão agressivo para viabilizar o pagamento. A situação patrimonial do grupo já era considerada crítica meses antes do protocolo do plano. Em maio, o valor de mercado da companhia estava ao redor de R$ 42,7 milhões, menos da metade do total da dívida. No último balanço divulgado pela empresa, referente a 2024, a Estrela registrou prejuízo líquido de R$ 24,3 milhões."Dívidas da Estrela se aproximam de R$ 110 milhões e empresa corre contra o tempo para barrar pedido de falência" — síntese do quadro que levou ao pedido, segundo levantamento do Capital Aberto.Pela Lei 11.101/2005, o deságio proposto no plano não pode ser aplicado de forma arbitrária: o artigo 61, §1º proíbe tratamento diferenciado entre credores da mesma classe, salvo consentimento expresso dos prejudicados. Isso significa que trabalhistas, quirografários e micro e pequenas empresas — as três categorias citadas na relação de créditos protocolada em Três Pontas — precisarão ser tratados de forma uniforme dentro de cada grupo para que o plano seja validado pela assembleia e homologado pela Justiça.
Concorrência chinesa, pirataria e a fuga para as telas
A própria empresa atribuiu o colapso financeiro a uma combinação de fatores estruturais. No Fato Relevante assinado pelo diretor de relações com investidores Carlos Antonio Tilkian, a companhia citou o aumento do custo de capital e a restrição de crédito; mudanças no comportamento de consumo, com maior competição de alternativas digitais; e impactos acumulados nos últimos anos sobre a estrutura financeira da companhia. A petição detalha ainda a pressão da concorrência externa: as importações formais de brinquedos mais que dobraram em poucos anos, saltando de US$ 53,3 milhões para US$ 102,5 milhões no primeiro quadrimestre entre 2020 e 2026, a maior parte vinda da China. A defesa da Estrela também menciona o problema da pirataria: uma operação da Polícia Federal e da Receita no Porto do Rio estimou um movimento bilionário de mercadorias irregulares, totalizando R$ 86,6 bilhões entre 2021 e 2026.Terceira recuperação em pouco mais de vinte anos
Fundada em 1937 por Siegfried Adler em São Paulo, a Estrela chegou a empregar mais de 10 mil funcionários em seu auge; hoje o grupo mantém cerca de 500 empregados, número que pode chegar a 1 mil no segundo semestre por conta do Dia das Crianças e do Natal. Em 1944, tornou-se uma das primeiras companhias brasileiras a abrir capital em bolsa. A marca é responsável por clássicos como Banco Imobiliário, Genius, Autorama, Jogo da Vida, Falcon e a boneca Susi, lançada após o fim da parceria de quase três décadas com a Mattel para produção da Barbie no Brasil. Este não é o primeiro tropeço financeiro da companhia: a empresa enfrentou duas recuperações judiciais anteriores, uma em 2004 e outra em 2008 — o pedido atual é o terceiro processo desse tipo em pouco mais de duas décadas. Para especialistas, o caso ilustra um desafio mais amplo do setor. "A recuperação judicial da Estrela possui um peso que vai além dos números. Estamos falando de uma empresa que atravessou gerações e faz parte da memória afetiva do brasileiro. Quando uma companhia com quase 90 anos chega a esse ponto, isso revela muito sobre o ambiente econômico atual", afirmou o advogado especialista em recuperação judicial Eliseu Silveira.Uma crise que não é só da Estrela
O pedido da fabricante de brinquedos se insere em um cenário nacional de deterioração do crédito corporativo. Levantamento da Serasa Experian mostrou que 2025 registrou recorde histórico de empresas em recuperação judicial, com 2.466 CNPJs envolvidos, alta de 13% em relação a 2024, o maior volume da série histórica da instituição. Em termos de processos, foram 977 pedidos de recuperação judicial, avanço de 5,5%, também no maior nível desde 2016. A Estrela integra uma lista que inclui outros nomes conhecidos do consumo brasileiro. Bombril, o Grupo Toky (controlador da Tok&Stok e Mobly), o Grupo CVLB Brasil (dono das varejistas Casa & Video e Le Biscuit) e até a SAF Botafogo recorreram recentemente à Justiça em meio a dificuldades financeiras — sinal de que o crédito caro e a pressão sobre o caixa corporativo atingem setores distintos da economia real.O que decide o destino da marca
Com o plano protocolado, o próximo passo é a convocação da assembleia geral de credores, etapa em que trabalhistas, quirografários e representantes de micro e pequenas empresas votarão separadamente as condições de deságio e prazo propostas. Especialistas em reestruturação apontam que, deferido o processamento, os próximos passos incluem a nomeação do administrador judicial, a publicação de editais para habilitação de créditos, a apresentação do plano e, por fim, a assembleia geral de credores para aprovação — fase que a Estrela agora enfrenta pela terceira vez em duas décadas. Se os credores rejeitarem o plano ou a companhia não conseguir executá-lo, a alternativa prevista em lei é a convolação em falência, com venda de ativos para quitação parcial das dívidas. Resta saber se o mercado brasileiro de brinquedos — pressionado por importações chinesas, pirataria e pela migração infantil para o entretenimento digital — ainda reserva espaço de sobrevivência para uma marca que soma quase 90 anos de história.Versão em áudio disponível no topo do post.
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