Grupo Mateus reduz quadro de pessoal em 14% como parte de reestruturação operacional
Com lucro em queda e cenário macro desfavorável, maior varejista alimentar do Nordeste inicia reestruturação para recuperar margens e alavancagem operacional
📋 Em resumo ▾
- Companhia reporta queda de 21,8% no lucro líquido do 1º trimestre de 2026
- Estratégia prioriza eficiência, controle de custos e redução de alavancagem financeira
- Contexto macroeconômico desfavorável pressiona consumo no Nordeste, região de atuação concentrada da rede
- Por que isso importa: Movimento reflete ajuste estrutural do varejo alimentar brasileiro diante de juros elevados e mudança no padrão de consumo das famílias
O Grupo Mateus (GMAT3) iniciou um movimento de reestruturação operacional que inclui redução de quadro de pessoal em múltiplos estados, como parte de um plano para equilibrar despesas e margens em um cenário macroeconômico desafiador. A medida, confirmada pela companhia em teleconferência de resultados, ocorre após o grupo reportar queda de 21,8% no lucro líquido do primeiro trimestre de 2026, na comparação anual.
"2026 é ano de ganhar eficiência com margem, despesa e ciclo de conversão de caixa, dado que o macro está mais difícil", afirma Tulio de Queiroz, vice-presidente financeiro do Grupo Mateus.
Resultado financeiro pressiona decisão estratégica
Entre janeiro e março, o grupo varejista registrou receita operacional líquida de R$ 9,4 bilhões, alta de 12,9% ante o mesmo período de 2025, impulsionada pela consolidação do Novo Atacarejo e pelo crescimento do segmento Atacado B2B. Contudo, o lucro líquido caiu para R$ 212,9 milhões, refletindo desalavancagem operacional e piora no resultado financeiro, que ficou negativo em R$ 222,1 milhões no trimestre.
O Ebitda atingiu R$ 543 milhões, recuo de 7,3% em base anual, com margem comprimida de 7% para 5,8%. O custo das mercadorias vendidas subiu 11,9%, enquanto despesas operacionais — excluindo depreciação e amortização — cresceram 26,9%, puxadas principalmente por um aumento de 27,9% nas despesas com vendas.
Foco em produtividade e racionalização de estruturas
A redução de pessoal integra um pacote mais amplo de iniciativas de produtividade iniciadas no final de 2025 e intensificadas em 2026. Segundo a companhia, os projetos envolvem análise histórica das operações e definição de padrões de referência entre lojas, formatos e contratos para identificar distorções e oportunidades de melhoria.
"O consumo das famílias tem perdido força, por pressão de juros e endividamento das famílias e a força desacelerou e isso ficou mais agudo na segunda metade do ano", diz Jesuíno Martins Borges Filho, diretor-presidente da companhia.
Em 2025, o grupo já havia fechado 28 lojas da rede Eletro Mateus e encerrado departamentos de eletrônicos em 20 unidades de varejo alimentar. A estratégia de otimização de portfólio segue ativa, com prioridade para a geração de caixa e redução da dívida líquida, que caiu para R$ 735,9 milhões ao fim de março — redução de R$ 323,5 milhões em relação ao encerramento de 2025.
Cenário macro e pressão sobre o consumo regional
O desempenho do Grupo Mateus é particularmente sensível ao cenário econômico do Nordeste, região onde concentra sua operação. A deflação de alimentos — com algumas cestas registrando quedas superiores a 35% —, combinada ao maior endividamento das famílias, impactou diretamente as vendas mesmas lojas, que recuaram 7,3% no trimestre.
A companhia projeta abertura de menos lojas em 2026 em comparação ao ano anterior, sinalizando uma mudança de ritmo após anos de expansão acelerada. O foco agora é alocar capital com maior critério, melhorar a produtividade por ponto de venda e fortalecer canais digitais como complemento à operação física.
O que observar nos próximos trimestres
A reestruturação do Grupo Mateus ilustra um movimento mais amplo no varejo alimentar brasileiro: a transição de um modelo baseado em crescimento de rede para um modelo centrado em eficiência operacional e rentabilidade por unidade. Em um ambiente de juros elevados e consumo fragilizado, a capacidade de ajustar custos sem comprometer a competitividade será determinante.
Para o investidor, os próximos resultados deverão mostrar se as medidas de racionalização conseguem recuperar margens sem sacrificar participação de mercado. Para o trabalhador, o ajuste reforça a necessidade de qualificação em um setor que passa por transformação estrutural. Para o analista de políticas públicas, o caso evidencia como choques macroeconômicos atingem de forma desigual regiões com menor diversificação econômica.
A pergunta que fica: em um cenário de recuperação gradual do consumo, o Grupo Mateus conseguirá transformar eficiência operacional em vantagem competitiva sustentável — ou o ajuste será apenas uma pausa defensiva antes de novos desafios?
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