Ibaneis Rocha desiste da candidatura ao Senado em meio à crise do Master
Ex-governador do DF encerra pré-campanha citando desgaste pessoal, mas decisão ocorre sob o peso das investigações sobre o rombo bilionário do BRB
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- Ibaneis Rocha (MDB) anunciou desistência da disputa ao Senado pelo Distrito Federal nas eleições de outubro de 2026.
- Ex-governador deixou o Palácio do Buriti em março, após dois mandatos completos, para se desincompatibilizar e concorrer.
- Recuo acontece em meio ao avanço das investigações da Polícia Federal sobre a tentativa frustrada de compra do Banco Master pelo BRB.
- Saída reabre disputa entre aliados de centro-direita por vagas ao Senado e reconfigura o tabuleiro eleitoral do DF.
- Por que isso importa: o caso expõe os limites políticos de lideranças estaduais atingidas por escândalos financeiros de repercussão nacional, com efeitos sobre o Banco Central e o sistema de garantia de crédito.
O ex-governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha (MDB) desistiu de disputar uma vaga ao Senado nas eleições gerais de outubro de 2026. "Quero descansar. Já cuidei de Brasília e agora quero cuidar de mim", resumiu o ex-chefe do Executivo local, que comandou o Governo do Distrito Federal (GDF) por dois mandatos, entre 2019 e março deste ano. A decisão encerra, pelo menos por ora, a trajetória de um dos políticos mais votados da história recente da capital federal e reabre a disputa por uma cadeira que era tida como favorita para o campo de centro-direita.
O anúncio chega poucos meses depois de o próprio Ibaneis ter deixado o Palácio do Buriti justamente para viabilizar essa candidatura. Ele renunciou ao cargo a 190 dias das eleições gerais, em 4 de outubro, formalizando sua saída para se desincompatibilizar e concorrer a uma vaga ao Senado, passando o comando à então vice-governadora Celina Leão (PP).
Da vitrine do Buriti ao recuo eleitoral
A saída, em março, foi cercada de simbolismo. Em despedida no sábado, dia 28, Ibaneis destacou o legado de sete anos e três meses à frente do governo, criticou ex-governadores de esquerda e anunciou pré-candidatura ao Senado. Na ocasião, chegou a afirmar que não deixaria a vida pública. Ao final do discurso, anunciou sua pré-candidatura ao Senado, declarando: "Eu deixo o GDF, mas não deixo a vida pública e nem vocês, porque amo cada um e cada uma. Que Deus abençoe a nossa caminhada e vamos em frente". Meses antes, ele já vinha resistindo publicamente a pressões para abandonar o projeto. Em entrevista ao SBT News, afirmou que não desistiria da candidatura ao Senado mesmo após ter o nome citado pelo dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, em depoimento à Polícia Federal, chegando a declarar: "Estou candidato e serei o senador mais votado da história do DF". A guinada recente mostra o quanto o cenário se deteriorou desde então.
O escândalo do Banco Master como pano de fundo
A crise que corroeu a pré-campanha de Ibaneis tem origem na tentativa, sob sua gestão, de o Banco de Brasília (BRB) — controlado pelo governo distrital — adquirir participação relevante no Banco Master, de Daniel Vorcaro. A instituição pública acumulou um prejuízo bilionário na operação: na gestão Ibaneis, o BRB colocou R$ 16,7 bilhões no Master, comprando papéis que, como se sabe agora, não tinham valor algum. O desfecho foi dramático para o mercado financeiro: sob suspeitas de fraudes e irregularidades, o Master foi liquidado em 18 de novembro pelo Banco Central, afetando mais de 1,6 milhão de clientes, com acionamento do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) na maior operação de ressarcimento de sua história, estimada em R$ 41 bilhões. O nome do ex-governador passou a aparecer diretamente nas apurações. Mensagens analisadas pela Polícia Federal indicaram que Ibaneis cobrava do BRB um desfecho para a tentativa de aquisição do Master, em meio a indícios de fraude na negociação. Depoimentos posteriores agravaram o quadro: o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, afirmou à Polícia Federal que reportou ao então governador as tratativas envolvendo o Master, sugerindo que Ibaneis estava a par dos detalhes da operação.
"Vamos falar a realidade: tiramos o BRB da Polícia Federal, como estava no governo anterior, e levamos para a Faria Lima" — frase do próprio Ibaneis Rocha, em entrevista de 2025, hoje usada por críticos como símbolo da confiança excessiva depositada na operação com o Master.O episódio também gerou consequências institucionais. Na Câmara Legislativa do Distrito Federal, a oposição protocolou, em 23 de janeiro de 2026, três pedidos de impeachment contra Ibaneis, assinados por PSB, Cidadania e PSOL, e uma nova representação foi apresentada em fevereiro, quando a deputada distrital Paula Belmonte (PSDB) protocolou pedido de impeachment por crimes de responsabilidade cometidos nas negociações entre o BRB e o Banco Master, acusando o governador de participação direta na aquisição.
Um mandato marcado por contrastes
Antes da crise do Master, a trajetória de Ibaneis já havia enfrentado outro momento de forte turbulência: os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023. Os episódios resultaram em seu afastamento temporário do cargo, e pela primeira vez na história do DF um interventor federal foi nomeado para a segurança pública; apesar de ter sido reconduzido, o episódio gerou desgaste político e questionamentos sobre a gestão de segurança. O inquérito que investigava sua conduta no episódio foi arquivado em 2025, mas o desgaste de imagem permaneceu. Do lado positivo do balanço, aliados destacam a recuperação fiscal do governo e a entrega de obras. Ibaneis afirmou que recebeu o governo com dificuldades financeiras e mais de R$ 8 bilhões em dívidas, e que o primeiro passo foi reorganizar as contas para viabilizar investimentos. O saldo da gestão inclui cerca de 7,3 mil obras realizadas, entre elas o túnel de Taguatinga e o programa de drenagem urbana Drenar-DF, além de reajustes salariais para categorias como a polícia — que teve aumento aprovado pelo Congresso Nacional e sancionado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Tabuleiro eleitoral do DF fica mais aberto
Com a saída de Ibaneis da disputa, o campo de centro-direita no Distrito Federal perde o nome que era considerado o mais competitivo para o Senado — ele havia se reeleito governador no primeiro turno em 2022 e acumulava capital eleitoral expressivo. A vaga aberta reacende a disputa entre outros postulantes que já estavam no radar da corrida, entre eles a deputada federal Bia Kicis (PL), a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL), o senador Izalci Lucas (PSDB), que buscaria reeleição, o empresário Paulo Octávio (PSD) e o deputado federal Rafael Prudente, do próprio MDB de Ibaneis. A movimentação também impacta a candidatura de Celina Leão (PP) ao governo do DF. Sem o padrinho político na disputa ao Senado, a atual governadora — que assumiu o comando do Buriti em 30 de março — precisará recalibrar alianças em uma base que inclui PP, Republicanos, PL, MDB e PSD, historicamente unida em torno do nome de Ibaneis.
O que vem pela frente
A pergunta que fica em aberto é se o recuo de Ibaneis Rocha representa mesmo uma pausa definitiva na vida pública ou apenas um recuo tático diante do avanço das investigações sobre o caso BRB-Master — um escândalo que, segundo apuração da Polícia Federal, ainda pode reservar novos capítulos, com depoimentos de figuras centrais como Daniel Vorcaro e Paulo Henrique Costa. Para um político que chegou a governar a capital federal sem nenhuma experiência prévia em cargos eletivos, a saída da cena eleitoral em 2026 pode ser apenas um intervalo — ou o fim de um ciclo que começou com recordes de votos e terminou sob escrutínio judicial.
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