Poder e Bastidores

Ibaneis Rocha, J&F e R$ 25 milhões: o que o Coaf encontrou no escritório do governador

Documentos do órgão de inteligência financeira apontam transferências atípicas da holding dos irmãos Batista à banca do governador — no mesmo período em que J&F firmou contratos com o GDF

Compartilhar: WhatsApp X LinkedIn

Leitura: 6–8 min

Em resumo

  • O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou R$ 25 milhões transferidos pela J&F ao escritório de advocacia do governador Ibaneis Rocha (MDB) em dez operações entre fevereiro e outubro de 2025.

  • No mesmo período, o grupo J&F — por meio do PicPay — mantinha parceria formal com o governo do DF para oferecer antecipação salarial a 200 mil servidores distritais.

  • O filho do governador, Caio Carvalho Barros, adquiriu em março de 2025 um duplex de R$ 9,2 milhões que havia pertencido ao presidente do Conselho de Administração do PicPay — sobrinho dos irmãos Joesley e Wesley Batista.

  • O BRB, banco público controlado pelo governo do DF, injetou R$ 16,7 bilhões no Banco Master — instituição ligada à Reag, que também movimentou dezenas de milhões com o mesmo escritório.

  • Por que isso importa: O caso conecta, pela primeira vez de forma documental, o grupo J&F, o BRB, o escândalo do INSS e o escritório de advocacia do governador numa única teia financeira que já tem endereço: o Palácio do Buriti.


Crédito: Ed Alves CB/DA Press

O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou dez transferências da J&F Participações — holding dos irmãos Joesley e Wesley Batista — ao escritório de advocacia do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), totalizando R$ 25.057.735,00. As movimentações ocorreram entre fevereiro e outubro de 2025, foram classificadas como “atípicas” pelo órgão e chegaram ao conhecimento público por meio de documentos obtidos pelo Estadão. À época dos repasses, Ibaneis estava no pleno exercício do cargo.

O caso insere-se num contexto mais amplo de crise que já dura meses em torno do Buriti: o escritório Ibaneis Advocacia e Consultoria vendeu pelo menos R$ 85,5 milhões em honorários para fundos ligados ao Banco Master e à Reag Investimentos, com negócios fechados entre 2019 e 2024 — desde o início do primeiro mandato do governador até o começo das negociações do Banco de Brasília (BRB) com o Master. Os R$ 25 milhões da J&F, agora revelados pelo Coaf, adicionam uma nova e distinta frente a esse universo.

Como o Coaf enquadrou as movimentações como atípicas

As dez transferências da J&F ao escritório do governador foram registradas automaticamente pelo sistema do Coaf por envolverem operações de valor superior a R$ 50 mil — patamar que, por lei, exige comunicação obrigatória ao órgão. A classificação como “atípicas” indica que o perfil dos pagamentos não condizia com o padrão esperado para aquele tipo de relacionamento entre as partes.

O escritório Ibaneis Advocacia e Consultoria confirmou a relação comercial com o grupo. Em nota, afirmou que “prestou e presta serviços advocatícios para o referido grupo em centenas de ações judiciais em múltiplas esforas”, mas não detalhou a natureza específica dos pagamentos identificados pelo Coaf. A banca repudiou o que chamou de “tentativa de criminalizar a advocacia, sem a qual não há de se falar em Estado Democrático de Direito”.

A J&F, por sua vez, afirmou que todos os seus pagamentos se referem “a produtos ou serviços comprovadamente prestados, mediante emissão de nota fiscal e recolhimento de todos os tributos devidos”, destacando que mantém auditorias independentes que certificam seus processos internos.

Ibaneis não respondeu ao Estadão. Sua assessoria redirecionou as perguntas ao escritório. Os advogados da banca reiteraram que o governador está “afastado do escritório desde 2018, de modo que desconhece tais informações”. A afirmação, no entanto, encontra resistência nos próprios documentos do caso.

Sócio sem gestão — mas com lucros

A narrativa do “afastamento desde 2018” é o argumento central da defesa de Ibaneis. Mas há uma distinção jurídica e financeira relevante: afastar-se da gestão operacional não equivale a abrir mão dos benefícios econômicos da sociedade.

Ibaneis permanece como sócio da banca. A administração do escritório está formalmente a cargo de Luzineide Getro de Carvalho, ex-mulher do governador. O filho, Caio Carvalho Barros, de 27 anos, também integra a sociedade. Isso significa que Ibaneis tem direito aos lucros auferidos pelo escritório — o que torna relevante, do ponto de vista do conflito de interesses, qualquer grande contrato firmado pela banca durante seu mandato.

“Não se trata de um episódio isolado. Há uma engrenagem em funcionamento que precisa ser desvelada.” — Membro da CPI do Master, conforme relatado por Hora do Povo

Documentos registrados em cartório contradizem o afastamento: a assinatura de Ibaneis Rocha aparece não apenas como representante, mas como avalista e responsável solidário em negociações com fundos do grupo investigados pela Polícia Federal. A banca contestou esse dado, alegando tratar-se de “erro material” nos documentos.

O PicPay no governo do DF — e o caminho para o INSS

Os pagamentos da J&F ao escritório de Ibaneis coincidem temporalmente com a entrada do PicPay — banco digital do conglomerado J&F — no governo distrital.

Em 16 de setembro de 2024, o PicPay assinou um termo de compromisso com o governo de Ibaneis Rocha para oferecer um serviço de antecipação salarial a cerca de 200 mil servidores do Distrito Federal. A parceria foi possível graças a um decreto editado por Ibaneis em 7 de agosto de 2024 que autorizou o governo a firmar convênios relacionados a consignações.

Caro leitor: a partir daqui, o texto muda de natureza.

Saímos do relato verificável e entramos na análise — o que os documentos ainda não dizem, o que as fontes indicam nos bastidores e qual o cenário mais provável para os próximos capítulos desta crise.

Esse tipo de jornalismo tem custo. E tem endereço: Painel One, o plano de acesso completo ao Painel Político. Nós trabalhamos com visual limpo, sem ads irritantes ou propagandas online que cansam com aquelas janelas pulando.

Por menos de R$ 1 por dia, você acompanha cada dobra dessa história — Logo mais, no fim do dia, você vai conferir uma análise, áudio exclusivo.

👉 Quero assinar o Painel One Prefere conhecer todas as opções antes?

O que se seguiu abriu uma segunda frente de investigação. O banco digital utilizou o acordo com o governo do DF para apresentar ao Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) um serviço de crédito consignado. O programa, batizado de “Meu INSS Vale+”, acabou suspenso por descumprimento de normas que proíbem a cobrança de taxas não autorizadas.

O então presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, recebeu em novembro de 2024 um e-mail do PicPay relatando o “bem-sucedido credenciamento” junto ao governo de Brasília e convidando a autarquia federal a considerar parceria semelhante. Stefanutto foi preso pela Polícia Federal na Operação Sem Desconto, que apura uma série de fraudes em descontos associativos e consignados a beneficiários do INSS, com suspeita de que recebia propina mensal. A CPI do INSS investiga se a criação do programa envolveu pagamentos irregulares por meio de empresas de consultoria.

O duplex de R$ 9,2 milhões e a triangulação imobiliária

Em março de 2025 — mesmo período dos repasses da J&F ao escritório —, o filho do governador comprou um apartamento duplex de 467 metros quadrados no bairro Noroeste, uma das áreas mais valorizadas de Brasília, por R$ 9,2 milhões.

O imóvel pertencia a José Antônio Batista Costa, presidente da J&F Participações, presidente do Conselho de Administração do PicPay e sobrinho dos irmãos Wesley e Joesley Batista. A venda não foi direta: Costa vendeu o apartamento ao empresário Claudio Mohn França em julho de 2024, e França revendeu a Caio Barros oito meses depois.

Na escritura, ficou declarado que o filho de Ibaneis pagou R$ 3.346.000 diretamente a Claudio França. Os outros R$ 5.904.000 foram financiados pelo BRB, com parcelas de R$ 64.844,69 mensais — o mesmo banco público do DF que está no centro da crise com o Banco Master.

Caio Barros declarou ao Estadão que a compra não teve relação com contratos do escritório e que contou com doações do pai e da mãe para a entrada. “Minha mãe me deu um pedaço, meu pai me deu outro. Nenhum dos valores veio do escritório”, afirmou. Disse ainda que o apartamento foi o primeiro que visitou quando procurava residência, e que só soube depois da negociação que o imóvel havia pertencido ao executivo da J&F.

O BRB, o Master e a Reag: onde tudo se conecta

O escândalo em torno de Ibaneis não se resume aos R$ 25 milhões da J&F. Há uma segunda teia, mais antiga, envolvendo a gestora Reag Investimentos e o Banco Master, de Daniel Vorcaro.

O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) revelou, em 18 de março de 2026, que o escritório de Ibaneis movimentou quase R$ 43 milhões em operações com um fundo administrado pela Reag Investimentos. As transações ocorreram em novembro de 2023 e aparecem vinculadas ao Laguz I Fundo de Investimentos em Direitos Creditórios Não Padronizados.

“O que está emergindo é um padrão preocupante de interseção entre poder político e estruturas financeiras opacas, algo incompatível com a exigência republicana de transparência.” — Deputado distrital, conforme relatado por Hora do Povo

O BRB injetou R$ 16,7 bilhões no Banco Master e tentou comprar a instituição, mas a operação foi barrada pelo Banco Central. Em paralelo, relatórios do Coaf apontam que Vorcaro transferiu pelo menos R$ 700 milhões em ativos do Banco Master para uma holding sediada nas Ilhas Cayman entre janeiro e julho de 2025.

Segundo a Polícia Federal, a Reag tinha papel estratégico em inflar resultados e ocultar riscos bancários. Além das fraudes financeiras, o grupo é investigado na Operação Carbono Oculto por supostamente gerir recursos de uma facção criminosa para lavar dinheiro em postos de combustíveis.

A conexão entre todas as pontas é o que alimenta a pressão por investigações mais amplas. O Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e a Rede anunciaram a intenção de protocolar pedido de cassação do mandato de Ibaneis, baseando-se em crimes de improbidade administrativa e má gestão de dinheiro público.

O que vem a seguir — e o que ainda está em aberto

A crise tem múltiplos fronts simultâneos: a CPI do INSS no Congresso, a CPI do Master na Câmara Distrital, a Operação Compliance Zero da Polícia Federal e os relatórios do Coaf que continuam chegando às autoridades.

Ibaneis Rocha pretendia deixar o cargo em 28 de março de 2026 para disputar uma vaga no Senado. A acumulação de investigações sobre seu nome — e sobre o escritório que continua gerando renda à sua família — coloca em xeque não apenas a viabilidade eleitoral, mas a própria governabilidade do Buriti nos dias que restam de seu mandato.

O argumento do “afastamento desde 2018” — repetido em nota após nota — sustenta-se em distinguir gestão de propriedade. Mas é precisamente essa distinção que o Coaf, a Polícia Federal e as CPIs parecem estar questionando. Um governador pode não assinar contratos e ainda assim ser o beneficiário econômico de quem os assina.

A pergunta que o inquérito não respondeu ainda — e que as urnas de 2026 talvez precisem responder antes da Justiça — é se Brasília separa o que o direito societário permite do que a ética republicana exige.


Leia também: A teia Master-Buriti: como R$ 95 milhões em honorários ligam Ibaneis Rocha ao maior escândalo bancário do ano


SEO — Metadados

Palavras-chave (por prioridade):

  1. Ibaneis Rocha J&F escritório advocacia

  2. Coaf transferências atípicas Ibaneis Rocha 2025

  3. Ibaneis Rocha Banco Master BRB investigação

  4. PicPay governo Distrito Federal consignado INSS

  5. Caio Carvalho Barros duplex Noroeste Brasília

  6. Reag Investimentos Operação Compliance Zero

  7. J&F Participações Joesley Wesley Batista DF

  8. CPI INSS Meu INSS Vale PicPay

Meta description: O Coaf identificou R$ 25 mi da J&F ao escritório de Ibaneis Rocha enquanto o grupo operava contratos com o governo do DF. Análise completa da teia.


Participe

Receba análises como esta diretamente no seu e-mail. O Painel Político cobre os bastidores do poder no Brasil — com a visão de quem está no interior e vê o que Brasília não mostra. Assine grátis.


Hashtags

#PainelPolitico #IbaneisRocha #BancoMaster #CPINSS #PoderJudiciario