Itália abre apuração sobre cidadania dos irmãos Bolsonaro
Parlamentar questiona rapidez na concessão dos documentos a Flávio, Eduardo e Carlos, enquanto descendentes aguardam anos; governo italiano defende legalidade do processo
📋 Em resumo ▾
- O deputado italiano Angelo Bonelli protocolou uma interrogazione parlamentare (pedido de esclarecimento) sobre a concessão de cidadania aos filhos de Jair Bolsonaro.
- A medida reacendeu o debate após relatos de que Flávio Bolsonaro utilizou o passaporte italiano para viajar aos Estados Unidos após a derrota eleitoral de 2026.
- O governo italiano defende que os processos seguiram as normas vigentes à época, sem restrições judiciais registradas no momento da emissão.
- Por que isso importa: O caso coloca a diplomacia italiana sob escrutínio por suposto tratamento preferencial, em um momento de crescente tensão entre as justiças brasileira e europeia sobre figuras políticas investigadas.
O governo da Itália enfrenta pressão parlamentar para esclarecer a rapidez na concessão de cidadania e passaportes a Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro. A questão ganhou urgência após relatos de que o senador Flávio utilizou o documento europeu para viajar aos Estados Unidos após a derrota eleitoral de outubro de 2026, reacendendo o debate sobre o uso da cidadania como eventual escudo jurídico.
A pressão parlamentar e a suspeita de via preferencial
O deputado Angelo Bonelli, da aliança Verde e Esquerda (AVS), protocolou uma interrogazione parlamentare dirigida aos ministros das Relações Exteriores e do Interior. Bonelli questiona se os irmãos Bolsonaro receberam uma "corsia preferenziale" (via preferencial) no processo, enquanto centenas de milhares de descendentes de italianos aguardam até uma década na fila de espera.
O parlamentar destaca a cronologia: os pedidos de inclusão na lista de espera foram feitos em 2020 e 2021, mas a convocação e a concessão ocorreram de forma acelerada em 2022 e 2023, pouco após a derrota eleitoral de Jair Bolsonaro .
“É absolutamente inaceitável. São pessoas que usam o passaporte italiano para fugir da Justiça”, afirmou Bonelli, ao destacar a coincidência temporal entre a aceleração dos processos e a mudança de governo no Brasil .
A defesa do governo italiano e o contexto legal
Em resposta às indagações, o governo italiano, por meio da subsecretária Matilde Siracusano, sustentou que o reconhecimento da cidadania iure sanguinis (por direito de sangue) foi realizado em estrita conformidade com as normas vigentes à época.
Segundo a versão oficial, a Embaixada da Itália em Brasília não dispunha, no momento da emissão dos passaportes, de registros sobre procedimentos judiciais pendentes que impedissem o ato contra os três irmãos. O governo também ressaltou que a prática de processar em conjunto os requerimentos de indivíduos do mesmo ancestral é um procedimento padrão.
O chanceler italiano, Antonio Tajani, chegou a defender o processo comparando-o a casos de outras figuras públicas brasileiras, citando que a falecida primeira-dama Marisa Letícia também possuía passaporte italiano.
O cenário jurídico brasileiro e a nova lei italiana
A apuração na Itália ocorre em um momento de alta sensibilidade jurídica para a família Bolsonaro no Brasil. Flávio é alvo de inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF) que apuram suposta lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
Eduardo Bolsonaro, por sua vez, teve a prisão determinada e os passaportes brasileiros cancelados pelo ministro Alexandre de Moraes em outubro de 2026, após condenação transitada em julgado por coação no curso de processo judicial
Paralelamente, o governo de Giorgia Meloni aprovou, em março de 2025, o Decreto-Lei nº 36, que introduziu critérios mais rigorosos para o reconhecimento da cidadania, exigindo vínculos mais diretos e substanciais com a Itália. Na prática, a nova regra inviabiliza pedidos futuros baseados apenas em linhagens distantes, como o que poderia ser pleiteado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.
Análise do Painel
A convergência entre a restrição legislativa na Itália e a concessão acelerada aos filhos de Bolsonaro cria um ruído diplomático que Roma tenta gerenciar com tecnicismo. Ao afirmar que "não havia registros judiciais" no momento da emissão, o governo italiano se protege formalmente, transferindo a responsabilidade da verificação para o sistema de consultas da época.
No entanto, a percepção de impunidade transnacional é um ativo político poderoso. Se a investigação parlamentar confirmar que houve desvio da ordem cronológica ou tratamento excepcional, o caso deixará de ser uma curiosidade burocrática para se tornar um precedente perigoso sobre como a cidadania europeia pode ser instrumentalizada por elites políticas sob investigação em seus países de origem.
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