Itaú acelera venda de dívidas para preservar balanço em 2025
Banco usa mercado secundário de crédito para gerenciar inadimplência corporativa enquanto mantém custo do crédito dentro do guidance oficial para 2025
📋 Em resumo ▾
- Itaú intensificou operações de cessão de carteiras de crédito no mercado secundário em 2025
- Mercado brasileiro de NPLs atingiu R$ 34 bilhões no ano, alta de 21,4% ante 2024
- Banco mantém inadimplência acima de 90 dias em 1,9%, estável na série trimestral
- Guidance de custo do crédito para 2025 permanece entre R$ 34,5 bi e R$ 38,5 bi
- Por que isso importa: a gestão proativa de ativos problemáticos afeta a percepção de risco do setor bancário e a alocação de crédito na economia real.
O Itaú Unibanco (banco privado) intensificou em 2025 a cessão de carteiras de crédito classificadas como de alto risco, movimentação que integra uma estratégia mais ampla de gestão de ativos não performantes no mercado brasileiro. A prática, comum no setor financeiro, ganhou escala diante do aumento de processos de recuperação judicial de grandes corporações nos últimos anos.
Como funciona a venda de carteiras de crédito no Brasil
Quando uma empresa entra em recuperação judicial, os valores devidos aos credores são incluídos em uma lista oficial e passam a compor a inadimplência do banco credor. Para gerenciar esse passivo, instituições financeiras podem optar por três caminhos: aguardar a reestruturação da devedora, reconhecer o prejuízo contábil (write-off) ou vender o direito de crédito a terceiros.
"O movimento de venda de carteiras inadimplentes ganhou tração na reta final do ano. No último bimestre, um grande banco realizou a venda de uma carteira no valor de R$ 8 bilhões."
A afirmação é de Plínio Ribeiro, Head Comercial e de Aquisição de Carteiras na Recovery (plataforma do grupo especializada em recuperação de crédito), em balanço divulgado sobre o mercado de NPLs (Non-Performing Loans). Segundo o levantamento, o volume total negociado no segmento atingiu R$ 34 bilhões em 2025, alta de 21,4% em relação ao ano anterior.
O que dizem os números oficiais do Itaú
Em seus comunicados ao mercado, o Itaú Unibanco reportou inadimplência acima de 90 dias consolidada em 1,9% no quarto trimestre de 2025, índice estável na base trimestral e 0,1 ponto percentual abaixo do registrado um ano antes. No segmento de grandes empresas no Brasil, a taxa foi de 0,11% no segundo trimestre de 2025.
O banco manteve, ao longo de 2025, o guidance de custo do crédito entre R$ 34,5 bilhões e R$ 38,5 bilhões, projeção que segue válida para o exercício. A carteira de crédito total encerrou o ano em R$ 1,49 trilhão, com crescimento puxado pelos segmentos imobiliário e de grandes corporações.
Contexto: o cenário de recuperações judiciais no Brasil
Nos últimos dez anos, o Brasil registrou um volume expressivo de pedidos de recuperação judicial por empresas de grande porte. Casos como os das Americanas e da Ambipar ilustram a complexidade do ambiente: a primeira teve seu processo homologado em 2023; a segunda protocolou pedido de recuperação judicial no Rio de Janeiro em outubro de 2025.
Para os bancos credores, cada processo gera exposição contábil que precisa ser gerenciada. A venda de carteiras a investidores especializados permite transferir o risco de recuperação, embora geralmente com deságio significativo em relação ao valor de face da dívida.
Por que a estratégia importa para o leitor
A decisão de um banco sistêmico como o Itaú de priorizar a cessão de ativos problemáticos em vez de aguardar desfechos judiciais tem implicações que vão além do balanço patrimonial. Em primeiro lugar, afeta a percepção de qualidade da carteira de crédito do setor. Em segundo, influencia a disponibilidade de novo crédito para empresas em reestruturação. Por fim, sinaliza ao mercado como as instituições estão precificando o risco corporativo em um ambiente de juros elevados e incerteza macroeconômica.
"A expectativa para 2026 é de um ano muito em linha com o visto em 2025, porém com viés de crescimento e diversificação no mercado de venda de NPL."
A projeção, também de Plínio Ribeiro, sugere que a tendência de cessão de carteiras deve se consolidar como ferramenta estrutural de gestão de risco, e não apenas como medida pontual.
O que observar nos próximos trimestres
Dois indicadores merecem atenção: a evolução da inadimplência no segmento de grandes empresas e o volume de novas operações de cessão de crédito divulgadas pelo banco. Qualquer alteração significativa no guidance de custo do crédito ou na política de provisões poderá sinalizar mudança na estratégia de gestão de ativos problemáticos.
Enquanto isso, o leitor deve se perguntar: em um cenário de maior estresse corporativo, a venda de carteiras representa eficiência na alocação de risco ou transferência de prejuízos para investidores menos informados? A resposta, como sempre no jornalismo analítico, depende de dados — e de transparência.
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