JBS troca comando: Wesley Batista Filho assume, em 2027, lugar de Tomazoni
Gilberto Tomazoni permanece no cargo até janeiro de 2027, encerrando ciclo de sete anos como primeiro CEO não-família. Nomeação marca retorno dos Batista ao topo da maior processadora de proteína do mundo
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- A JBS anunciou nesta segunda-feira (10) que Wesley Batista Filho, 34 anos, assumirá o comando global da companhia em janeiro de 2027
- Gilberto Tomazoni permanece como CEO Global até a posse do sucessor, encerrando ciclo iniciado em dezembro de 2018 como primeiro CEO fora da família Batista
- Wesley Filho ingressou na JBS em 2011 como trainee na operação de carne bovina em Greeley, Colorado, e hoje é CEO da JBS USA
- Tomazoni conduziu a companhia durante o período em que a JBS concluiu com sucesso sua listagem na Bolsa de Valores de Nova York (NYSE), em junho de 2025
- Por que isso importa: a transição programada para janeiro de 2027 dá à JBS seis meses para consolidar a passagem de bastão e acalmar investidores que associam o sobrenome Batista ao escândalo da Lava Jato
A JBS, maior processadora de proteína animal do mundo, anunciou nesta segunda-feira (10) uma troca no seu comando global. Wesley Batista Filho, de 34 anos, foi nomeado para assumir o posto de CEO Global em janeiro de 2027, quando Gilberto Tomazoni deixará o cargo que ocupa desde dezembro de 2018. Até lá, Tomazoni permanece à frente da companhia e Wesley Filho continua como CEO da JBS USA, a maior unidade de receita do grupo.
A transição programada para janeiro de 2027
A nomeação de Wesley Batista Filho não é imediata. A posse está marcada para janeiro de 2027, o que dá à JBS um semestre de transição para consolidar a passagem de bastão. A estratégia de anunciar com antecedência serve a dois propósitos: preparar internamente a sucessão e acalmar investidores que ainda associam o sobrenome Batista ao escândalo de corrupção de 2017.
Gilberto Tomazoni, 67 anos, permanece no cargo até a posse do sucessor. Foi sob sua gestão que a JBS concluiu com sucesso sua listagem na Bolsa de Valores de Nova York (NYSE), em 13 de junho de 2025 — um marco que a companhia buscava há anos e que colocou suas ações diretamente no maior mercado de capitais do mundo.
"A entrada na NYSE é um reconhecimento da nossa trajetória empreendedora de sucesso, construída com resiliência, superação e compromisso, da nossa solidez financeira e da nossa visão de futuro."
— Gilberto Tomazoni, CEO Global da JBS, em junho de 2025
Quem é Wesley Batista Filho
Wesley Batista Filho é o neto de José Batista Sobrinho — cujas iniciais dão nome à empresa — e filho de Wesley Batista, ex-presidente do grupo. Ele ingressou na JBS em 2011 como trainee na operação de carne bovina em Greeley, Colorado, onde trabalhou na linha de produção.
Desde então, passou por praticamente todas as divisões e regiões da empresa: liderou operações de carne bovina no Uruguai e no Paraguai (2012-2013), foi presidente da JBS Canadá (2014-2015), presidente da divisão Fed Beef nos EUA (2016-2017), CEO da JBS Brasil (2018-2019), CEO da Seara (2020) e, em 2022, foi nomeado presidente de operações globais. Em 2023, assumiu como CEO da JBS USA, a maior unidade de receita da companhia.
A trajetória de Tomazoni: do estágio na Sadia à NYSE
Gilberto Tomazoni, engenheiro mecânico de Santa Catarina, ingressou na JBS em 2013 como presidente global do negócio de aves. Antes, passou 27 anos na Sadia, onde começou como estagiário e chegou ao cargo de CEO. Em 2015, foi nomeado Presidente Global de Operações da JBS. Em 2017, tornou-se COO Global — o primeiro não-Batista a ocupar um posto tão alto na empresa. Em dezembro de 2018, assumiu como CEO Global.
Sob sua gestão, a JBS manteve a expansão global, diversificou para áreas como aquicultura de salmão e alimentos à base de plantas, e conduziu a companhia até a dupla listagem na NYSE. A transição anunciada nesta segunda-feira encerra o ciclo do primeiro CEO da empresa que não pertencia à família fundadora.
O fantasma da Lava Jato e o desafio da governança
O maior desafio de Wesley Batista Filho pode não ser operacional — é o sobrenome que carrega. Em 2017, seu pai Wesley e seu tio Joesley confessaram à Polícia Federal que haviam pago propinas a centenas de políticos ao longo de 12 anos. Os irmãos passaram seis meses presos, foram afastados da gestão diária e firmaram um acordo de leniência que previa o pagamento de US$ 3,2 bilhões em multas.
Wesley Filho não esteve envolvido nas investigações, mas o peso do sobrenome é inegável. Como notou o analista da XP Investimentos Leonardo Alencar, "para quem lê apenas que Wesley Filho pertence à família fundadora, nomeá-lo CEO pode trazer um peso extra de governança às ações da JBS".
Ao mesmo tempo, o executivo construiu uma trajetória que raramente se vê no mundo corporativo: começou na linha de produção, passou por lideranças em cinco continentes e chegou ao topo da maior empresa do setor. Como disse Alencar, "isso é único no mundo corporativo".
O que está em jogo para a JBS
A troca de comando ocorre em um momento estratégico para a JBS. A companhia enfrenta margens comprimidas no mercado de carne bovina dos EUA, pressionada pela inflação e pela desaceleração do consumo. No primeiro trimestre de 2026, a empresa reportou um EPS de US$ 0,20, bem abaixo dos US$ 1,13 esperados pelo mercado — uma queda de 82%.
O veículo de investimentos da família, a J&F Investimentos, ainda detém 42% das ações da JBS, avaliada em cerca de US$ 39 bilhões na bolsa de Nova York.
A pergunta que o mercado faz é se Wesley Batista Filho conseguirá manter a JBS no caminho de profissionalização iniciado por Tomazoni, ou se a empresa voltará a ser vista como uma extensão dos interesses familiares. A nomeação com seis meses de antecedência sugere que a JBS quer dar tempo ao mercado para digerir a notícia — e a Wesley Filho para provar que a história dos Batista pode ter um novo capítulo.
A história da JBS é, em grande parte, a história dos Batista. A questão agora é se essa história ainda tem espaço em uma empresa que processa 75 mil cabeças de gado por dia e vende em mais de 190 países.
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