Keiko ou Sánchez: Peru escolhe rumo entre EUA e China
Apuração chega a 93,9% das urnas com vantagem mínima de 2,9 mil votos para o esquerdista. Resultado definirá alinhamento geopolítico de país com 9 presidentes em 10 anos
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- Roberto Sánchez Palomino lidera apuração presidencial no Peru com 50,008% dos votos contra 49,992% de Keiko Fujimori, após 93,9% das urnas apuradas.
- Diferença de apenas 2.942 votos em universo de 27 milhões de eleitores mantém resultado indefinido; faltam cerca de 4,6 mil urnas, majoritariamente do exterior e da serra andina.
- Keiko Fujimori defende aproximação com os EUA e combate a crimes transnacionais; Sánchez é aliado do ex-presidente Pedro Castillo e mantém proposta de Assembleia Constituinte.
- Peru elege seu nono presidente em dez anos de crise política que já derrubou dois presidentes por renúncia e quatro por destituição parlamentar.
- Por que isso importa: Resultado define alinhamento geopolítico de país do Pacífico disputado por investimentos chineses e influência americana na América do Sul.
A eleição presidencial do Peru caminha para um desfecho histórico em margem, não em clareza. Com 93,9% das urnas apuradas, o esquerdista Roberto Sánchez Palomino lidera com 50,008% dos votos válidos — apenas 2.942 sufrágios à frente da direitista Keiko Fujimori, que soma 49,992%. Sánchez contabiliza 8.790.560 votos contra 8.787.618 da adversária, em um universo de 27 milhões de eleitores aptos. A Oficina Nacional de Processos Eleitorais (ONPE) ainda precisa processar cerca de 4,6 mil das 92 mil urnas existentes.
O resultado, tecnicamente indefinido, carrega implicações que transcendem as fronteiras peruanas. O vencedor governará o país entre 2026 e 2031 e será o nono presidente em uma década marcada por instabilidade institucional sem paralelo na região.
As urnas que faltam e o mapa eleitoral que decide o pleito
A dinâmica da apuração revela um pleito de virada lenta. Sánchez começou atrás de Keiko nos primeiros boletins e reduziu a vantagem adversária progressivamente até assumir uma liderança mínima — insuficiente, contudo, para decretar vitória. A definição depende diretamente do perfil das urnas restantes.
O professor Gustavo Menon, de pós-graduação em Integração da América Latina da Universidade de São Paulo (USP), explicou à Agência Brasil que o resultado segue incerto porque as atas pendentes concentram-se em regiões com inclinações opostas.
"Faltam-se processar as atas vinculadas mais à região serrana, na região dos Andes, onde Roberto Sánchez tem uma larga vantagem em termos de votação, especialmente nessa região da Serra Sul peruana."
As urnas do exterior, por sua vez, tendem a ser mais favoráveis a Keiko — o que mantém a disputa aberta até a última ata processada. A geografia eleitoral peruana, dividida entre litoral urbano, serra andina e diáspora, funciona como um espelho das clivagens históricas do país.
Disputa geopolítica: o Pacífico Sul-Americano no radar de Washington e Pequim
Mais do que uma escolha entre esquerda e direita, a eleição peruana define o alinhamento de um país estratégico no tabuleiro sul-americano. Menon destaca que a vitória de Keiko representaria uma aproximação mais estreita do Peru com o governo de Donald Trump nos Estados Unidos.
"Inclusive, ela já se colocou à disposição dos EUA para fortalecer as políticas de combate aos crimes transnacionais e classificar os grupos peruanos como grupos terroristas. O Peru passa por essas disputas geopolíticas em torno dos seus recursos, pleiteados pelos EUA, e como um país do Pacífico que cada vez mais se conectou com investimentos chineses."
A leitura do especialista aponta para uma encruzilhada: o Peru é simultaneamente alvo de pressão americana por alinhamento hemisférico e polo de atração de capital chinês em infraestrutura e mineração. O próximo presidente terá que navegar essa tensão sem o luxo de um mandato estável.
Nove presidentes em dez anos: o contexto de uma crise sem fim
O vencedor do segundo turno de 2026 assumirá um palácio presidencial que se tornou porta giratória. Desde 2016, o Peru viu dois presidentes renunciarem e quatro serem destituídos pelo Parlamento — um Legislativo que, na prática, opera como poder moderador e destabilizador do sistema político.
A crise institucional peruana tem raízes na Constituição de 1993, herança do governo de Alberto Fujimori (1990-2000), e na fragmentação partidária que impede a formação de maiorias governáveis. O resultado é um presidencialismo sem base parlamentar, onde cada chefe de Estado governa sob ameaça permanente de vacância.
Os perfis de uma disputa carregada de história
Keiko Fujimori chega ao seu quarto segundo turno consecutivo — perdeu em 2011, 2016 e 2021. Filha do ex-ditador Alberto Fujimori, condenado por violações de direitos humanos que incluem esterilização forçada de mulheres indígenas, ela carrega o sobrenome mais polarizador da política peruana contemporânea. Sua candidatura mobiliza tanto o eleitorado conservador quanto o rejeição histórica de amplos setores da esquerda e dos direitos humanos.
Roberto Sánchez Palomino, psicólogo de formação e deputado pelo partido Todos pelo Peru, foi ministro no governo de Pedro Castillo — destituído, preso e condenado por tentativa de golpe de Estado ao tentar dissolver o Parlamento em dezembro de 2022. Para seus apoiadores, Castillo foi vítima de um golpe legislativo por representar o voto rural e indígena do país.
Sánchez votou no dia 7 em Lima e seguiu diretamente para o presídio de Barbadillo, onde Castillo está detido, permanecendo no local até a divulgação dos primeiros resultados parciais. O gesto não foi apenas simbólico: sinalizou fidelidade a uma base eleitoral que vê no ex-presidente um mártir do interior andino.
A moderação tática de Sánchez após o primeiro turno
Sánchez chegou ao segundo turno com 12% dos votos, contra 17% de Keiko. A desvantagem numérica no primeiro turno impôs uma reconfiguração estratégica. O candidato esquerdista moderou o discurso e ajustou sua plataforma para incorporar propostas das legendas que lhe prestaram apoio no intervalo entre os turnos.
Nesse movimento, renunciou à proposta de nacionalizar empresas de setores estratégicos da economia — um recuo significativo para um candidato que emergiu de uma tradição de esquerda mais radical. Ao mesmo tempo, manteve a promessa de convocar uma Assembleia Constituinte para redigir nova Constituição, uma vez que a atual é herança direta do período fujimorista.
A reforma trabalhista, por sua vez, permaneceu no programa: ampliação de direitos e formalização de trabalhadores hoje na informalidade. A combinação — pragmatismo econômico e ambição constituinte — define o perfil de um candidato que tenta governar para o centro sem abandonar sua base original.
O que está em jogo além do Palácio de Pizarro
A eleição peruana de 2026 não se resume a uma disputa interna. Ela ocorre em um momento de reconfiguração das alianças sul-americanas, com a América Latina dividida entre governos de esquerda consolidados no Brasil, Colômbia e México, e guinadas à direita na Argentina e no Equador.
O Peru, pela sua posição geográfica no Pacífico e pela sua riqueza mineral, é peça-chave nessa disputa. A definição entre Sánchez e Keiko enviará sinais distintos a Washington, Pequim e às capitais sul-americanas sobre o rumo do país nos próximos cinco anos.
Resta saber se o vencedor terá condições de governar — ou se se juntará à galeria de presidentes peruanos que não completaram seus mandatos. A história recente do país sugere que vencer a eleição é apenas o primeiro ato de um drama institucional que raramente termina bem para quem chega ao palácio.
A pergunta que o Peru não consegue responder há uma década é a mesma que se impõe novamente: existe governabilidade possível sob uma Constituição que coloca o Legislativo contra o Executivo desde o primeiro dia? A resposta, como sempre, dependerá menos das urnas e mais da capacidade das instituições de sobreviverem a si mesmas.
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