Livro de Xico Sá narra a saga de PC Farias
Trinta anos após os assassinatos na praia de Guaxuma, cronista alagoano revisita o maior vilão da Nova República em obra que mistura jornalismo, fuga cinematográfica e mistério não resolvido
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- Xico Sá lança livro sobre PC Farias, tesoureiro da campanha de Fernando Collor.
- Obra revisita a fuga cinematográfica do personagem, que passou por Paraguai, Argentina, Caribe e Europa.
- Jornalista narra os bastidores da cobertura que transformou o fugitivo em sua principal fonte.
- Por que isso importa: Três décadas depois, o mistério da praia de Guaxuma permanece sem culpados, e o livro reabre uma das páginas mais sombrias da Nova República
"Na longa noite em que seria morta, Suzana Marcolino foi ao salão de beleza Liu's, no centro de Maceió, pintou as unhas na cor renda — discreta variação do branco — e pediu um leve corte nos cabelos." É com tintas de García Márquez que o jornalista Xico Sá inicia a crônica de uma morte anunciada: a de Paulo César Farias, o PC.
O fim trágico do maior vilão da Nova República
Na manhã de 23 de junho de 1996, PC Farias e sua namorada Suzana foram encontrados com balas no peito. Era o desfecho sangrento da trajetória do tesoureiro responsável pela ascensão e queda do presidente Fernando Collor.
O mistério da praia de Guaxuma nunca foi elucidado. A Justiça descartou a versão de crime passional seguido de suicídio, mas não apontou culpados pelo duplo assassinato. Trinta anos depois, Xico Sá volta à cena do crime para narrar a saga do homem mais investigado do país na década de 90.
"Por acaso, também era minha principal fonte jornalística", confidencia o autor de "O tesoureiro: o esquema de corrupção, a fuga espetacular e a morte de PC Farias".
A fuga cinematográfica e o furo jornalístico
Anos antes de se consagrar como cronista, Xico cobriu as bandalheiras da República de Alagoas como repórter da Folha de S.Paulo. Em junho de 1993, aproveitava uma folga no Recife quando ouviu no rádio a notícia de que um juiz havia decretado a prisão de PC por sonegação fiscal.
"Só sonegação?", perguntou-se o jornalista, que abandonou o amigo Chico Science na mesa do bar e pegou a estrada para Maceió.
Em vez de se entregar à polícia, PC contratou uma quadrilha chilena para organizar uma fuga cinematográfica. De peruca e sem o famoso bigode, embarcou num bimotor no sertão alagoano e fez escalas em Bom Jesus da Lapa (BA), Dourados (MS) e Assunção, no Paraguai, até pousar num pequeno aeroporto nos arredores de Buenos Aires, na Argentina. Depois de alguns dias incógnito, o tesoureiro voou rumo ao Caribe, de onde decolou para a Europa.
O detetive-jornalista e a fonte que ligou de Londres
"Cadê o PC Farias?", cobravam chefes, leitores e até a mãe do repórter. A resposta seria dada pelo próprio fugitivo. Descoberto por Xico, ele ligou para a redação e confirmou um dos maiores furos daquela cobertura: estava escondido em Londres.
No rápido diálogo, o tesoureiro ainda encontrou tempo para se gabar: agora era vizinho de Diana, a recém-separada princesa de Gales.
Para localizar PC, Xico gastou sola de sapato e recorreu a métodos que não se aprendem nas faculdades de jornalismo. Fez valer o diploma de detetive particular, tirado por correspondência, e a leitura de romances policiais. Em Maceió, seguiu a receita de Hunter Thompson e investiu na ronda de bares e inferninhos, transformando seguranças e trabalhadoras da noite em informantes. Uma das espiãs, de codinome Brigitte Montfort, daria a pista definitiva do esconderijo na Inglaterra.
O personagem que desafiou a história
O PC que emerge do livro é um personagem e tanto. Ex-seminarista, leitor ávido de Nelson Rodrigues, despejava citações em latim ao dissertar sobre o esquema de corrupção que montou, com a colaboração de figurões do empresariado nacional.
Numa das conversas, revelou a Xico ter subornado o então chefe da Interpol no Brasil, Edson Antônio de Oliveira. Depois de facilitar a fuga, o delegado posou como o responsável pela prisão de PC na Tailândia. Tentou usar os 15 minutos de fama para virar deputado, mas não se elegeu.
A reflexão sobre jornalismo e memória
O livro de Xico Sá não é apenas uma biografia; é um documento sobre uma era em que o jornalismo brasileiro produzia suas melhores páginas sob pressão, perigo e criatividade. A narrativa de PC Farias é a narrativa de um país que ainda não tinha aprendido a lidar com a corrupção em escala industrial.
Resta uma reflexão socrática para o leitor contemporâneo: se três décadas se passaram e o mistério da praia de Guaxuma permanece sem culpados, o que isso diz sobre a capacidade do Estado brasileiro de enfrentar os crimes de seus próprios poderosos? O livro de Xico Sá é um convite para revisitar não apenas a história de um tesoureiro, mas a história de um país que ainda não conseguiu fechar suas próprias feridas.
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