Magalu na Amazon: varejo brasileiro abandona estratégia de canais próprios
Parceria com marketplace americano busca consumidores fora do ecossistema da varejista. Movimentação sinaliza mudança estrutural no e-commerce nacional
📋 Em resumo ▾
- Magazine Luiza fechou parceria com a Amazon para vender produtos dentro do marketplace americano, com entregas realizadas pela Magalog, transportadora do grupo.
- Estimativa aponta que 75% das vendas na Amazon virão de consumidores que não compram nos canais próprios da Magalu — público totalmente novo.
- Amazon detém cerca de 20% do mercado de e-commerce brasileiro, empatada com a própria Magalu quando plataformas asiáticas são excluídas.
- Casas Bahia já segue mesma estratégia: 45,5% das vendas no quarto trimestre de 2025 vieram de marketplaces de terceiros, incluindo parcerias com Mercado Livre e Amazon.
- Por que isso importa: Grandes varejistas brasileiras abandonam anos de investimento em canais próprios para buscar alcance em plataformas consolidadas — trade-off entre crescimento e controle da experiência do cliente.
A Magazine Luiza anunciou parceria com a Amazon para vender seus produtos dentro do e-commerce da multinacional americana. As entregas ficarão por conta da Magalog, transportadora do próprio grupo, que em um segundo momento também passará a realizar entregas de pedidos da Amazon. A movimentação representa uma guinada estratégica no varejo brasileiro: após anos investindo em canais próprios, as grandes redes agora buscam presença em marketplaces de terceiros.
Segundo o BTG Pactual, a Amazon detém cerca de 20% do mercado de e-commerce brasileiro, empatada com a própria Magalu quando as plataformas asiáticas são excluídas da comparação. A estimativa é que três quartos das vendas realizadas pela varejista dentro da Amazon venham de consumidores que não costumam comprar nos canais da empresa — ou seja, de um público novo.
A estratégia de parcerias que já começou
A Amazon é o capítulo mais recente de uma sequência de parcerias que já incluiu AliExpress, Livelo e Itaú Shop. A Magalu não está sozinha nessa tendência. A Casas Bahia anunciou no ano passado uma parceria com o Mercado Livre e fechou outro acordo com a Amazon em março deste ano.
Os números indicam que esse tipo de estratégia está moldando o setor: no quarto trimestre de 2025, as vendas em marketplaces de terceiros respondiam por 45,5% do total do grupo Casas Bahia. As grandes redes apostam cada vez mais em ampliar sua presença nos canais em que o consumidor já está presente.
Por que a mudança de estratégia agora
Essas movimentações indicam uma mudança relevante na estratégia do varejo brasileiro. Em vez de depender exclusivamente de canais próprios, grandes redes passaram a ampliar sua presença em plataformas já consolidadas, buscando alcançar consumidores onde eles já realizam suas compras.
Por anos, Magalu e Casas Bahia investiram pesado em seus próprios aplicativos, marketplaces e programas de fidelidade justamente para não depender de terceiros. A decisão de incluir presença em plataformas como Amazon e Mercado Livre sugere que as empresas enxergam valor em combinar canais próprios com marketplaces de terceiros para ampliar seu alcance.
"Para o consumidor, a tendência pode ser positiva, com mais opções de compra e aumento da concorrência entre os vendedores."
No entanto, ao distribuir sua presença em plataformas de terceiros, essas varejistas passam a compartilhar parte da experiência de compra e da relação com o cliente com os operadores dos marketplaces, além de absorver os custos de comissão cobrados sobre as vendas realizadas.
O trade-off entre alcance e controle
A questão que permanece em aberto é como o equilíbrio entre canais próprios e marketplaces de terceiros afetará a competitividade das varejistas brasileiras no longo prazo e qual será o impacto dessa estratégia sobre sua capacidade de fidelizar clientes e preservar margens de rentabilidade.
"Quando você vende dentro da Amazon, você não está apenas alcançando novos clientes — está cedendo parte do relacionamento com eles para a Amazon."
A Magalog, ao realizar entregas tanto para a Magalu quanto para a Amazon, transforma-se em infraestrutura logística compartilhada — um ativo que pode gerar receita adicional, mas que também cria dependência mútua. A transportadora do grupo torna-se, simultaneamente, concorrente e parceira da Amazon no Brasil.
O que isso significa para o futuro do e-commerce brasileiro
O movimento das grandes varejistas brasileiras reflete uma tendência global: a convergência entre canais próprios e marketplaces de terceiros. Nos Estados Unidos, marcas como Nike e Walmart já navegaram esse caminho — algumas voltando atrás, outras consolidando a estratégia híbrida.
O que diferencia o caso brasileiro é a velocidade da transformação. Em menos de dois anos, Magalu e Casas Bahia passaram de defensoras ferrenhas de ecossistemas próprios para participantes ativas em marketplaces concorrentes. A pergunta não é mais se essa estratégia funciona — os números já mostram que funciona no curto prazo. A questão é se o ganho de alcance compensará, no longo prazo, a perda de controle sobre a experiência do cliente e a erosão das margens.
Resta saber se, ao abrir suas portas para a Amazon, as varejistas brasileiras estão construindo pontes ou cavando suas próprias covas competitivas. A resposta virá quando os consumidores precisarem decidir entre comprar diretamente da Magalu ou através da Amazon — e qual das duas experiências será considerada superior.
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