Poder & Bastidores

Mensagens de Vorcaro citam Rondônia em articulação de Rueda e ACM Neto no Master

Mensagens do celular de Daniel Vorcaro mostram Antônio Rueda e ACM Neto articulando aportes de institutos de previdência estaduais no Master — e citam Rondônia como parte da mesma rede de influência do dirigente.

Mensagens de Vorcaro citam Rondônia em articulação de Rueda e ACM Neto no Master
📷 Reprodução
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  • Mensagens extraídas do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro (Banco Master) mostram o presidente do União Brasil, Antônio Rueda, e o vice-presidente da legenda, ACM Neto, articulando a entrada do Master em institutos de previdência de servidores estaduais — revelação do UOL.
  • Em proposta de delação premiada rejeitada pela Polícia Federal (PF) e pela Procuradoria-Geral da República (PGR), Vorcaro afirma que os dois atuaram em favor do banco em troca de 10% dos valores aplicados pelos institutos — uma acusação ainda não confirmada por investigação própria, e que as mensagens reveladas não comprovam diretamente.
  • Entre as mensagens, uma citação explícita a Rondônia: em julho de 2025, um lobista escreveu a Vorcaro que a captação no Amazonas "vai dar certo, porque Rondônia é o mesmo grupo de influência" de Rueda, com quem ele seria "sócio" no estado — frase que o Painel Político apura à parte, por envolver diretamente o cenário político local.
  • O Master repassou R$ 6,4 milhões a escritórios de advocacia ligados a Rueda e R$ 5,4 milhões a uma consultoria de ACM Neto; a PF pediu busca e apreensão contra os dois, mas a medida não foi autorizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
  • Por que isso importa: mesmo sem confirmação judicial da acusação central — o pagamento de comissão aos dois dirigentes —, as mensagens mostram, segundo o UOL, que Rueda e ACM Neto abriam portas do Master em institutos de previdência de ao menos cinco estados, incluindo tratativas que tocam Rondônia.
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Mensagens encontradas no celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, mostram os bastidores da atuação do presidente do União Brasil, Antônio Rueda, e do vice-presidente da legenda, ACM Neto, na captação de dinheiro de institutos de previdência de servidores estaduais para o banco. A revelação é do UOL, que teve acesso ao material apreendido pela Polícia Federal (PF).

Segundo o UOL, Vorcaro afirmou, em proposta de delação premiada, que os dois políticos atuaram em favor do Master em troca de 10% dos valores aplicados por fundos de aposentadoria estaduais na instituição. A proposta de colaboração foi rejeitada pela PF e pela Procuradoria-Geral da República (PGR) — ou seja, trata-se de uma alegação do próprio delator em potencial, não de uma conclusão das autoridades, e as mensagens reveladas, segundo a reportagem, não mostram pagamento de comissão diretamente aos dois dirigentes do União Brasil.

O que os documentos mostram, de forma mais concreta, é outra coisa: que o Master repassou R$ 6,4 milhões a escritórios de advocacia ligados a Rueda e R$ 5,4 milhões a uma empresa de consultoria de ACM Neto, e que as mensagens extraídas pela PF indicam que os dois dirigentes abriram portas do banco nos estados, com o sucesso das captações sendo atribuído a eles internamente no Master. Com base nesse material, a PF pediu busca e apreensão em endereços ligados aos dois políticos — pedido que não chegou a ser autorizado pelo STF.

Procurado pelo UOL, ACM Neto classificou os vazamentos como "seletivos, manipulados e fora de contexto" e disse haver uma tentativa do governo federal de provocar desgaste político contra ele. Rueda afirmou que sua relação com o Master era "eminentemente profissional" e que os serviços advocatícios foram prestados com emissão de notas fiscais e recolhimento de impostos.

A escala em Rondônia

Entre as viagens que compõem o painel de mensagens reveladas pelo UOL, uma passagem cita diretamente Rondônia. Em 14 de novembro de 2023, Fernando Mascarenhas, diretor comercial do Master, pediu autorização a Vorcaro para uma viagem a estados onde o banco pretendia captar recursos com institutos de previdência: "Aquele nosso amigo marcou de irmos segunda final da tarde em Porto Alegre e terça em Rondônia e Amazonas! Posso confirmar?". Mensagens do dia seguinte, registradas em print que circula com a reportagem, detalham a logística da viagem — "Brasília para Rondônia terça às 8, reunião lá as 11 hrs! Depois iremos pra Manaus pra reunião às 14 hrs" — e trazem metas numéricas por estado: "Rondônia 320 / Amazonas 500".

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A viagem foi feita no jato do próprio Vorcaro, com uma lista de passageiros que incluía Mascarenhas, Rueda e dois intermediários identificados como Ricardo e Raphael. Na noite de 21 de novembro de 2023, Mascarenhas comemorou com Vorcaro: "Irmao, o negócio vai ficar gigante, nosso amigo até final do ano resolve 1,2 b". Vorcaro respondeu: "Showww" e, em seguida, "Foguete".

Procurado pelo UOL, Rueda negou ter participado da viagem e disse que estava em São Paulo naquele dia — uma contradição direta com o fato de seu nome constar da lista de passageiros enviada a Vorcaro, que nenhuma das partes esclareceu publicamente até a publicação desta matéria.

Rondônia volta a aparecer quase dois anos depois, já em outro contexto. Em julho de 2025, o lobista Julio Cezar Avelino, que buscava aplicações de fundos de previdência para o Master, escreveu a Vorcaro sobre a captação no Amazonas: "No Amazonas vai dar certo, porque Rondônia é o mesmo grupo de influência", completando: "Lá é sócio do Rueda."

A frase associa Rondônia à rede de influência do presidente do União Brasil em termos que o UOL não detalha e que não têm, nas mensagens reveladas até aqui, qualquer desdobramento público conhecido envolvendo institutos de previdência do estado — diferentemente do que ocorreu no Rio de Janeiro, no Amapá e no Amazonas, onde há desdobramentos formais de investigação, como mostra a seção abaixo. O Painel Político apura separadamente se há, de fato, algum instituto de previdência rondoniense entre os alvos de aportes do Master.

"Apaga essas mensagens"

Em abril de 2024, a captação no instituto de servidores do Amapá avançou. "Amapá, confirmado 400", escreveu Mascarenhas a Vorcaro, referindo-se a R$ 400 milhões. "Quero ver nosso amigo apertar o enter", respondeu o banqueiro.

A aprovação saiu em 12 de julho de 2024. No mesmo dia, porém, uma reportagem revelou uma crise na Caixa Asset envolvendo títulos do Master. O tesoureiro do banco, Alberto Felix, avisou Vorcaro que a operação não sairia naquele dia "por causa da notícia da CEF", acrescentando: "A reunião lá do Amapá está acontecendo. Mas o Rueda que disse que ia segurar as operações". Às 11h45, Rueda — que apagou dez mensagens seguidas na conversa, segundo o UOL — escreveu a Vorcaro: "Apaga essas mensagens". Uma hora depois, Mascarenhas avisou: "Aprovado 200 M agora no Amapá. Nesse minuto".

No mesmo dia, Mascarenhas enviou a Vorcaro uma lista das maiores captações em andamento: 400 milhões no Amapá, 350 milhões no Rio de Janeiro, 250 milhões no Amazonas, 160 milhões em Campos dos Goytacazes, 500 milhões em Maricá, 100 milhões em Belo Horizonte e 200 milhões em Alagoas.

Ainda em julho, Alberto Felix perguntou sobre a comissão da "consultoria do Ricardo/Raphael" pela operação do Amapá: "Deu 8,9 mm. Já pediram para pagar". No dia seguinte, Vorcaro autorizou uma nota de R$ 8 milhões. A consultoria é atribuída a Ricardo Siqueira Rodrigues, o "Ricardo Gordo", apontado pela PF como lobista de Vorcaro no Rioprevidência; Raphael é o intermediário que relatou a Felix que Rueda "ia segurar as operações". Rueda nega ter participado dessas negociações. Em 1º de agosto de 2024, a tesouraria do Master registrou: "Pagamos 11 mm contas a pagar, comissão Amapá" — àquela altura, a Amapá Previdência já havia transferido R$ 300 milhões ao Master.

Comissão de 10%: o que as mensagens provam e o que não provam

As mensagens mostram que a consultoria de Ricardo Gordo praticava comissão de 10% com o Banco Master — o mesmo percentual que Vorcaro, na proposta de delação rejeitada, diz ter acertado com Rueda e ACM Neto sobre os aportes dos institutos de previdência. É importante registrar o limite dessa coincidência: as mensagens reveladas pelo UOL não mostram pagamento de comissão diretamente aos dois dirigentes do União Brasil. A semelhança de percentual é um indício levantado pela reportagem, não uma prova de que o mesmo esquema de comissionamento tenha sido aplicado a Rueda e ACM Neto.

Em junho de 2024, Mascarenhas avisou Vorcaro que "Amazonprev 50 M líquida amanhã", referindo-se a uma captação de R$ 50 milhões. Já em relação ao Rio de Janeiro, o executivo Luiz Rennó escreveu a Vorcaro sobre tratar do "assunto RJ, caixa Rueda", afirmando: "Rueda seria nosso cara! Precisaria ter entrado no banco mais cedo! Ele tem alguns estados".

Jatos, apartamento e escritório de advocacia

As mensagens mostram Vorcaro oferecendo favores pessoais a Rueda. Em dezembro de 2023, o banqueiro colocou seus jatos executivos à disposição do político: "Usa como seu". Em maio de 2024, enviou um avião para levar a família de Rueda à Fórmula 1, em Miami. Em março de 2024, quando Rueda pediu "cuida de mim", Vorcaro respondeu: "Arrumei o apto? arrumei o Rosewood" — referência a um dos hotéis mais luxuosos de São Paulo.

Em agosto de 2024, o jurídico do Master apresentou a Vorcaro a contratação do escritório Rueda & Rueda Advogados em quatro ações, no total de R$ 15,4 milhões. Rueda também teria aberto as portas de Vorcaro no Banco de Brasília (BRB): em julho de 2024, o banqueiro foi à casa de Rueda, em Brasília, e, na sequência, enviou sua primeira mensagem ao então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa. Dois dias depois, Rueda escreveu a Vorcaro: "PH precisando falar c vc".

Em nota ao UOL, além de reafirmar que sua relação com o Master era "eminentemente profissional", Rueda — hoje deputado federal eleito — disse lamentar "o uso político de trechos isolados de informações que deveriam estar sob sigilo, mas que foram retirados de contexto com o propósito de criar suspeitas infundadas e atingir sua reputação", e informou que "adotará as medidas cabíveis para resguardar sua honra e sua imagem diante da divulgação de acusações falsas e distorções dos fatos".

"Saiu tudo como desejávamos"

ACM Neto aparece nas mensagens ao lado de Rueda em diversos momentos. Em setembro de 2024, os dois passaram um fim de semana na casa de Vorcaro em Trancoso (BA), com o deputado Elmar Nascimento (União Brasil-BA). Em outubro, ACM pediu a Vorcaro uma conversa "eu, você e Rueda" — encontro que ocorreu numa sala privada de uma charutaria em São Paulo. Nove dias depois, ACM escreveu ao banqueiro: "As coisas em Brasília estão consolidadas e, felizmente, saiu tudo como desejávamos na política".

Na semana seguinte, o cunhado e operador financeiro de Vorcaro, Fabiano Zettel, avisou que estava sendo procurado: "Marcos Moura (ACM) me chamando. O que eu faço?". Vorcaro respondeu: "Pega com Gustavo / E Minas". Marcos Moura é o empresário conhecido como "rei do lixo", investigado por suspeita de desvio em licitações controladas por políticos do União Brasil e integrante da Executiva do partido; "Minas" é o apelido de Antônio Carlos Freixo Júnior, apontado — também na proposta de delação rejeitada — como gerador de dinheiro em espécie. Nessa mesma proposta, Vorcaro diz que ACM Neto recebia em espécie com recursos gerados por Freixo, uma alegação que, como as demais da delação não homologada, segue sem confirmação independente. Nos dias seguintes, Zettel escreveu: "Cara do ACM está aqui em SP na minha cola" e "Gustavo me encontrou. Minas tenho que buscar também?" — as mensagens não dizem o que foi entregue nem o valor envolvido.

O UOL também mostrou que ACM Neto atuou para destravar o acesso do Master a institutos de previdência: o próprio banco atribui ao dirigente a inclusão do Master em uma lista do Ministério da Previdência que habilita instituições a receber recursos de Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS).

Em nota, o ex-prefeito de Salvador afirmou que "nunca teve qualquer tipo de participação no governo federal, o que afasta a possibilidade de interferência em decisões administrativas do Ministério da Previdência e da inclusão do Banco Master na lista exaustiva de instituições elegíveis para receber recursos de RPPS". Disse ainda que jamais atuou para que institutos de previdência aplicassem recursos no Master — citando nominalmente o Amapá Previdência — e que "sequer conhece Fabiano Zettel, razão pela qual considera absurda e criminosa qualquer ilação feita na tentativa de associar seu nome a supostos diálogos dos quais não participou e com alguém que jamais teve contato". ACM Neto afirmou que todos os valores recebidos do Master decorreram de "serviços de consultoria efetivamente prestados, por meio de contrato mensal iniciado em janeiro de 2023, com a devida emissão de notas fiscais e recolhimento de impostos", e que, desde março de 2026, "se colocou à disposição das autoridades para prestar todas as informações necessárias sobre o caso Master".

O que já virou investigação formal

A proposta de delação de Vorcaro aponta a atuação de Rueda para abrir as portas do Master nos institutos de previdência do Rio de Janeiro, do Amapá e do Amazonas, além da Cedae (Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro). Diferentemente da alegação sobre comissões — ainda não confirmada —, esses três estados já tiveram seus órgãos de previdência como alvo de desdobramentos concretos da Operação Compliance Zero, que investiga as fraudes do Master:

  1. O ex-presidente do Rioprevidência, Deivis Marcon Antunes, foi preso pela PF em fevereiro deste ano. Segundo a investigação, ele foi indicado ao cargo por Rueda, em articulação com o governador Cláudio Castro (PL). O órgão destinou cerca de R$ 2 bilhões ao Master, segundo a PF.
  2. No Amapá, o aporte de R$ 400 milhões foi aprovado por um comitê presidido por Jocildo Silva Lemos, ex-tesoureiro de campanha do senador Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) e indicado ao cargo por ele.
  3. No Amazonas, a autorização de R$ 50 milhões foi assinada por um presidente do instituto empossado 28 dias antes, ex-contador da campanha de reeleição do governador Wilson Lima (União Brasil).

Até a publicação desta matéria, nenhuma das pessoas citadas neste texto foi condenada pelos fatos aqui descritos, que seguem sob investigação; a proposta de delação de Vorcaro que sustenta a acusação central contra Rueda e ACM Neto foi rejeitada pela PF e pela PGR, e o próprio pedido de busca e apreensão contra os dois não foi autorizado pelo STF.


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