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Mensagens de Vorcaro citam STF, Bolsonaro e Ibaneis no caso Master

Mensagens do celular do dono do Banco Master citam contrato de R$ 427 milhões ligado a ministro do STF, jantar com os Bolsonaro e leis enviadas por Ibaneis.

Mensagens de Vorcaro citam STF, Bolsonaro e Ibaneis no caso Master
📷 Cristiano Mariz/Agência O Globo
📋 Em resumo
  • A Polícia Federal (PF) extraiu do celular do banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master e preso desde novembro de 2025, mensagens que expõem uma teia de contatos com integrantes dos três Poderes.
  • Documentos enviados pela PF ao STF apontam um contrato de honorários de até R$ 427 milhões, condicionado a êxito em ações de precatórios de interesse de Vorcaro, ligado a um escritório que assessores chamavam de "turma do KN" — referência, segundo a investigação, ao ministro Kássio Nunes Marques, que nega irregularidade.
  • Mensagens de dezembro de 2024 indicam que Vorcaro temia o vazamento de um suposto jantar com Jair Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro; não há confirmação de que o encontro ocorreu.
  • Prints mostram que o ex-governador do DF Ibaneis Rocha encaminhou a Vorcaro uma decisão judicial e a lei que autorizava a compra do Master pelo BRB; Ibaneis afirma que nunca tratou da operação com o banqueiro.
  • Por que isso importa: o material do "caso Master" atinge, ao mesmo tempo, o Judiciário, a família Bolsonaro e um pré-candidato ao Senado, em ano eleitoral — e divide o próprio STF sobre quem terá acesso ao arquivo.
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As mensagens que a Polícia Federal (PF) extraiu do celular do banqueiro Daniel Vorcaro — ex-dono do Banco Master, preso desde novembro de 2025 e acusado de comandar uma fraude financeira bilionária — vieram à tona nesta segunda-feira (21) e revelam uma ampla teia de contatos do empresário com integrantes dos três Poderes. Num mesmo dia, surgiram um contrato de honorários de até R$ 427 milhões ligado a um ministro do STF, o temor de Vorcaro com um suposto jantar com os Bolsonaro e o envio, pelo ex-governador Ibaneis Rocha, de documentos sobre a compra do banco.

O contrato de R$ 427 milhões e a "turma do KN"

Segundo a coluna de Andreza Matais, no Metrópoles, documentos enviados pela PF ao STF revelam um contrato de honorários que poderia chegar a R$ 427 milhões. O valor corresponderia a 5% líquidos sobre o que o Banco Master recebesse em 12 processos de precatórios — ações de indenização ligadas ao antigo Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA), nas quais o banco aparece como credor ou cessionário. Os pagamentos só ocorreriam em caso de êxito, e o conjunto das causas poderia liberar até R$ 8,5 bilhões.

O contrato envolve o escritório Queiroga, Vieira, Queiroz & Ramos Advocacia, ligado à advogada Camilla Ramos, mulher do desembargador Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1). Nas mensagens, assessores de Vorcaro se referem a Newton e Camilla como a "turma do KN" — sigla que, de acordo com a investigação, remete ao ministro Kássio Nunes Marques, do STF, indicado por Bolsonaro em 2020.

Registre-se a distinção: Nunes Marques não é réu nem foi formalmente acusado nesses fatos. Ele é citado nas mensagens e nos documentos, e nega irregularidade.

O que dizem as mensagens sobre Nunes Marques — e a resposta do ministro

De acordo com o Metrópoles, uma das mensagens mostra Camilla Ramos comemorando um voto de Nunes Marques em julgamento sobre o tema dos precatórios de usinas. Na ocasião, o ministro — que antes constava como impedido — votou pelo reconhecimento do débito, ao lado de Dias Toffoli e Edson Fachin; Gilmar Mendes e André Mendonça ficaram vencidos. A coluna também relata pedidos de hospedagens e benefícios atribuídos a Newton Ramos "para o ministro", como diárias no hotel Fasano, e menciona o aluguel de uma mansão em Joá (RJ) no Carnaval de 2025 para receber a pessoa identificada nas mensagens como "KN".

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Em nota, o ministro rejeita a leitura.

"O ministro nunca votou a favor do Banco Master, e o filho nunca recebeu dinheiro de Daniel Vorcaro." — Kássio Nunes Marques, em nota

Nunes Marques afirma ainda que constava como impedido apenas por uma anotação da Secretaria — porque havia decidido o caso quando era vice-presidente do TRF-1 —, que depois entendeu não haver impedimento técnico por se tratar de "tese ampla" aplicável a diversas empresas, e que votou no mesmo sentido diversas vezes ainda no TRF-1. Segundo ele, a comemoração nas mensagens não se referia a uma ação sobre o Master.

O jantar que Vorcaro temia ver vazado — com Jair e Flávio Bolsonaro

Em paralelo, a CartaCapital revelou, e a CNN confirmou, uma troca de mensagens de dezembro de 2024 entre Vorcaro e o empresário mineiro Flávio Carneiro. Foi Carneiro quem puxou o assunto, em 8 de dezembro.

"Thiago está cobrando se você vai num jantar com meu xará e com o pai dele, pelo que entendi, você está ciente disso?" — mensagem de Flávio Carneiro a Vorcaro, segundo a CartaCapital

Segundo fontes ligadas à investigação, "xará" seria uma referência ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o "pai dele", ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL); o "Thiago" seria o publicitário e lobista Thiago Miranda, à época sócio do Grupo Léo Dias e hoje investigado por um suposto projeto para contratar influenciadores contra a atuação do Banco Central na liquidação do Master. Vorcaro, que a princípio disse não entender do que se tratava, pediu sigilo no dia seguinte.

Dois pontos precisam ficar claros: não há confirmação de que o jantar ocorreu, nem de quem teria participado; e, à época, Jair Bolsonaro cumpria medidas cautelares — ligadas à investigação da tentativa de golpe após 2022 — que limitavam seus contatos, o que explica a relevância do episódio.

O que Flávio Bolsonaro diz sobre a relação com o banqueiro

O senador nega vínculo pessoal com Vorcaro. Em declarações anteriores, após a divulgação de outras mensagens pelo site Intercept, Flávio afirmou que a relação era comercial — ligada à busca de patrocínio para "Dark Horse", cinebiografia de seu pai — e que o jantar proposto para apresentar o elenco do filme jamais aconteceu. Ele atribuiu o tom de intimidade das conversas ao "jeito carioca". A defesa dos Bolsonaro, portanto, é de que se tratava de negociação de patrocínio privado, e não de tráfico de influência.

Ibaneis, o BRB e as leis enviadas direto ao banqueiro

O terceiro fio, revelado pela coluna Grande Angular, do Metrópoles (a partir de prints do site Fatos Online), mostra que o ex-governador do DF Ibaneis Rocha (MDB) trocou mensagens com Vorcaro entre 2024 e 2025. Em 10 de maio de 2025, Ibaneis encaminhou ao banqueiro uma decisão judicial que derrubava uma liminar que proibia a assinatura do contrato de aquisição do Master pelo Banco de Brasília (BRB). Em agosto, enviou a edição extra do Diário Oficial do DF com a Lei nº 7.739, que autorizou o BRB a comprar 49% das ações ordinárias e 100% das preferenciais do Master.

É preciso soletrar o que isso é e o que não é: encaminhar decisões e leis públicas não configura, por si só, crime. O que a revelação acende é a proximidade entre o chefe do Executivo do DF — cujo governo controla o BRB — e o banqueiro do outro lado do negócio. Ibaneis afirma que almoçou uma vez com Vorcaro, que o encontro já era público e que nunca tratou da operação BRB-Master com ele, atribuindo a condução ao então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa — hoje preso sob suspeita de receber propina para favorecer o Master. Ibaneis deixou o governo em março de 2026 para disputar o Senado.

O pano de fundo: o rombo do Master e a disputa dentro do STF

O Banco Master foi liquidado pelo Banco Central, e o BRB, que comprou carteiras da instituição, pode ter exposição de vários bilhões de reais. Vorcaro foi preso em 17 de novembro de 2025, no aeroporto de Guarulhos. Os dados de seu celular foram enviados pela PF, em julho, ao gabinete do ministro André Mendonça, relator do caso no STF — que nega ter direcionado a apuração, após os ministros Cristiano Zanin, Flávio Dino e Gilmar Mendes cobrarem acesso integral ao arquivo.

Vale o contexto de equilíbrio: o material do Master não atinge um só campo. Nos mesmos dias, reportagens citaram relógios de luxo apreendidos com o senador Ciro Nogueira (PP), um vídeo que mostraria o ministro Alexandre de Moraes em um jato ligado a Vorcaro e um avião do banqueiro que teria pousado em Angra no dia de uma festa de Flávio Bolsonaro. Ou seja: o telefone do banqueiro toca em nomes de diferentes partidos e dos três Poderes.

O celular de Daniel Vorcaro está se tornando uma espécie de radiografia do poder no Brasil — e o fato de o próprio STF disputar quem pode abri-lo sugere que o desconforto é profundo. A pergunta que fica não é apenas o que um banqueiro hoje preso teria comprado, mas quantas portas, nos três Poderes, estavam abertas para ele. À medida que o arquivo for liberado, o país saberá se o que apareceu até aqui é a exceção — ou o retrato de como o dinheiro privado circula perto das instituições que deveriam fiscalizá-lo.

Versão em áudio disponível no topo do post.

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