Metrópoles e Folha trocam acusações sobre influência de Vorcaro em reportagem de 2024
Metrópoles e Folha de S.Paulo divergem sobre o que mensagens vazadas entre Daniel Vorcaro e seu ex-assessor de imprensa revelam — se houve ou não interferência do banqueiro em reportagem publicada em 2024
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- O Metrópoles publicou reportagem afirmando que Daniel Vorcaro ofereceu R$ 1 milhão ao seu então gestor de crise, Guilherme Barros, para que a Folha de S.Paulo adiasse ou suavizasse uma reportagem sobre o banqueiro, publicada em agosto de 2024.
- A Folha nega a versão do Metrópoles, classifica a reportagem como uma "retaliação" à denúncia feita pelo UOL — e reproduzida pela própria Folha — de que o Metrópoles recebeu R$ 20 milhões do Banco Master e submetia textos a Vorcaro antes de publicá-los.
- As duas reportagens citam a mesma troca de mensagens de WhatsApp entre Vorcaro e Barros, mas discordam sobre o significado de trechos-chave — como se a publicação foi efetivamente "segurada" ou apenas teve prazo extra concedido para ouvir o banqueiro.
- Ambos os veículos confirmam que a Folha recebeu R$ 516.441,60 em publicidade de empresas ligadas a Vorcaro em cinco anos — valor que o Metrópoles usa para questionar a isenção da Folha, e que a própria Folha usa para dizer que é irrisório frente aos R$ 20 milhões recebidos pelo Metrópoles.
- Por que isso importa: é uma disputa pública entre dois dos maiores veículos de imprensa do país sobre a própria credibilidade jornalística de ambos, no contexto do colapso do Banco Master — mas, até aqui, cada lado conta uma versão diferente da mesma mensagem, e não há apuração independente de terceiros que resolva a divergência.
O portal Metrópoles e a Folha de S.Paulo divergem publicamente sobre o significado de uma série de mensagens de WhatsApp vazadas entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, e seu então assessor de gestão de crise, Guilherme Barros. As mensagens tratam da publicação, em agosto de 2024, de uma reportagem da Folha sobre a trajetória de Vorcaro — e cada veículo interpreta o mesmo material de forma oposta.
É importante que o leitor entenda, antes de mais nada, o contexto da disputa: a reportagem do Metrópoles chega depois de o UOL — e, na sequência, a própria Folha — ter revelado que o Metrópoles submetia textos ao próprio Vorcaro antes de publicá-los e recebeu R$ 20 milhões em contratos publicitários do Banco Master. A Folha classifica a reportagem do Metrópoles sobre o caso de 2024 como uma "retaliação" a essa denúncia anterior. O Metrópoles, por sua vez, não apresenta essa relação em sua reportagem — apenas a numeração das mensagens e sua interpretação delas.
O que dizem as mensagens, segundo o Metrópoles
Segundo a reportagem do Metrópoles, Vorcaro teria oferecido a Barros, em 7 de agosto de 2024, um "prêmio" de R$ 1 milhão caso ele conseguisse impedir a publicação de uma reportagem da Folha sobre o Banco Master:
"Gasta todos seus cartuchos aí, se voce conseguir segurar e nao sair nada vc tem um prêmio de R$ 1mm. [...] Se eles soltam isso agora eles vao quebrar o banco."
No dia seguinte, segundo a mesma reportagem, Barros teria informado a Vorcaro: "A Folha vai segurar a matéria. O Sérgio me respondeu agora" — referência a Sérgio Dávila, diretor de redação da Folha. O Metrópoles associa esse episódio à homologação, pelo Banco Central, do aumento de capital do BRB no mesmo dia 8 de agosto — operação que, segundo reportagens anteriores, deu sobrevida financeira ao Banco Master.
A reportagem do Metrópoles também afirma que, após um encontro entre Vorcaro e Dávila na sede da Folha em 12 de agosto — não registrado na coluna Painel, prática que o jornal costuma seguir —, a versão publicada em 30 de agosto teria incluído trechos favoráveis ao banco nos termos sugeridos por Barros, incluindo uma descrição elogiosa dos CDBs do Master como "os mais rentáveis do mercado". Segundo o Metrópoles, esse trecho e outras informações favoráveis foram removidos da versão digital da reportagem depois da prisão de Vorcaro, em 17 de novembro de 2025, sem aviso explícito ao leitor sobre a supressão.
A versão da Folha
A Folha nega essa leitura dos fatos. Segundo o próprio jornal, a reportagem de agosto de 2024 — assinada pelas repórteres Júlia Moura e Joana Cunha — "não foi segurada porque não estava pronta"; o que Vorcaro e Barros teriam pedido, segundo a Folha, foi apenas um prazo para que o banqueiro fosse ouvido antes da publicação, pedido que foi concedido, como é prática jornalística padrão de ouvir a parte envolvida antes de publicar.
Sobre o encontro na sede do jornal, a Folha afirma que o pedido para o café partiu de Barros, não de Dávila, com o objetivo de Vorcaro "dar o seu lado" para a reportagem — e que o pedido para não registrar a visita na coluna Painel também partiu de Barros, sendo atendido, segundo o jornal, por não se tratar de prática inusual.
Quanto ao conteúdo publicado, a Folha afirma que a reportagem "não foi amenizada", tendo saído "em sua versão original" dentro do prazo programado, e que as únicas alterações feitas posteriormente, em 2025, serviram para incluir a prisão de Vorcaro e a liquidação do banco — mudanças que, segundo o jornal, foram comunicadas ao leitor "por meio de aviso publicado abaixo da data original".
O diretor de redação, Sérgio Dávila, afirma, segundo a Folha, que só teve conhecimento de que Barros teria recebido R$ 1 milhão de Vorcaro depois de ler as mensagens vazadas recentemente — ou seja, nega ter tido conhecimento da oferta de pagamento na época dos fatos.
O ponto em que as duas versões coincidem: a publicidade
Ambas as reportagens — a do Metrópoles e a da própria Folha — citam o mesmo número: ao longo de cinco anos, a Folha recebeu R$ 516.441,60 em anúncios de empresas ligadas a Vorcaro, o equivalente, segundo as duas fontes, a cerca de 2,58% do valor de um único pagamento entre os R$ 20 milhões recebidos pelo Metrópoles do Banco Master. A diferença está no uso que cada veículo faz desse dado: o Metrópoles o apresenta como indício de que a Folha também tinha relação comercial com o universo Vorcaro; a própria Folha o usa para argumentar que o valor recebido foi comparativamente irrisório.
O que diz Guilherme Barros
Em nota, Guilherme Barros afirmou ter prestado "serviços de assessoria de imprensa ao Banco Master até 2025, quando encerrou o contrato com a instituição", incluindo "a organização de entrevistas e de reuniões com veículos de imprensa e a apresentação dos argumentos do cliente para as reportagens". Disse ainda que "sempre atuou de forma transparente, com correção, ética e respeito à atividade jornalística e à liberdade de expressão", e que, no caso da reportagem da Folha, a matéria "foi publicada [...] com absoluta independência editorial do jornal".
As mensagens atribuídas a Barros nas reportagens, nas quais ele cobra de Vorcaro um "success fee" pelo resultado da reportagem — dizendo que ela "saiu, porém muito mais branda" — e nas quais Vorcaro responde "amigo, vc merece muito, vamos ajustar", seguido de confirmação de que o Pix foi feito, não constam de forma contestada ou explicada ponto a ponto na nota de Barros reproduzida nas fontes consultadas por esta reportagem.
O que não está estabelecido
Até a publicação desta matéria, trata-se de uma disputa de interpretação sobre o mesmo conjunto de mensagens vazadas, sem apuração independente de terceiros — como a Polícia Federal ou outro órgão — que confirme qual das duas versões está correta. Nenhuma das pessoas ou instituições citadas foi condenada por qualquer conduta relacionada aos fatos aqui descritos, que seguem sendo contados de forma diferente por cada lado envolvido.
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