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Minerais críticos podem injetar R$ 192 bi no PIB e criar 750 mil empregos até 2050

Pesquisa inédita da Amcham Brasil, elaborada por UFMG e UFJF, compara exportação de commodities com adensamento produtivo e mostra que processar cobre, lítio e terras raras no país multiplica em 2,5 vezes a geração de empregos

Minerais críticos podem injetar R$ 192 bi no PIB e criar 750 mil empregos até 2050
📷 Divulgação
📋 Em resumo
  • Estudo inédito da Amcham Brasil projeta que a cadeia de minerais críticos e terras raras pode adicionar R$ 192,1 bilhões ao PIB brasileiro e gerar 750 mil empregos até 2050, caso o país adote estratégia de adensamento produtivo
  • No cenário de mera exportação de commodities, o impacto cai para R$ 128,7 bilhões no PIB e 304 mil empregos — a diferença de R$ 63,4 bilhões e 446 mil vagas representa o "efeito adensamento"
  • O Brasil detém as maiores reservas de nióbio, a 2ª maior de grafite e a 3ª de níquel e terras raras do mundo, mas hoje processa internamente apenas 5% do lítio extraído e menos de 40% do níquel refinado
  • Investimentos previstos para 2026-2030 somam US$ 20,5 bilhões, concentrados em Pará, Bahia, Goiás, Minas Gerais e Piauí; o setor mineral já responde por 47% do superávit comercial brasileiro
  • Por que isso importa: O estudo coloca em números a escolha estratégica do Brasil entre repetir o modelo primário-exportador ou se tornar hub industrial da transição energética global
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Um estudo inédito elaborado por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), com apoio da U.S. Chamber of Commerce e de empresas do setor, e lançado nesta terça-feira (4) em Belo Horizonte pela Amcham Brasil, projeta que a expansão da cadeia de minerais críticos e terras raras pode adicionar R$ 192,1 bilhões ao PIB brasileiro e gerar 750 mil novos empregos até 2050. A condição, porém, é que o país deixe de ser apenas um exportador de minério em bruto e passe a processar industrialmente cobre, grafite, lítio, níquel e terras raras em território nacional. Caso permaneça no modelo atual de baixa agregação de valor, o ganho econômico cai para R$ 128,7 bilhões e a geração de empregos para 304 mil — menos da metade do potencial.

Os dois cenários: exportar minério ou transformá-lo em baterias e carros

O estudo utiliza um modelo de equilíbrio geral computável (EGC) interregional com dinâmica recursiva para comparar duas trajetórias entre 2026 e 2050. O Cenário 1 considera investimentos financiados majoritariamente por capital doméstico, com produção voltada predominantemente à exportação em estado bruto. O Cenário 2 incorpora maior participação de investimento estrangeiro direto (IED), expansão do processamento doméstico e utilização crescente dos minerais como insumos pela indústria nacional — especialmente em baterias, veículos elétricos, turbinas eólicas e motores elétricos.

A diferença entre os dois é o chamado "efeito de adensamento": quando o Brasil processa o minério em vez de apenas extraí-lo e embarcá-lo, o impacto acumulado sobre o PIB salta de R$ 128,7 bilhões para R$ 192,1 bilhões. O consumo das famílias cresce R$ 32,3 bilhões adicionais, os investimentos agregados recebem R$ 16,1 bilhões a mais, e o emprego ganha 446 mil ocupações que não existiriam no modelo exportador.

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"O Brasil reúne algumas das maiores reservas de minerais críticos do mundo e tem todas as condições para se tornar um protagonista global nesse mercado. Quanto maior a capacidade de atrair investimentos, maior será a transformação dessa riqueza mineral em valor, tecnologia, empregos e desenvolvimento industrial e econômico", afirma Abrão Neto, presidente da Amcham Brasil.

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O mapa dos R$ 20,5 bilhões em investimentos previstos até 2030

Os projetos de expansão da oferta estão distribuídos por cinco estados e cinco cadeias minerais principais. Para o período 2026-2030, o planejamento de investimentos totaliza US$ 20,5 bilhões, segundo dados do estudo da CEBRI, IBRAM e CETEM (2025) compilados na pesquisa. A distribuição regional é desigual e concentrada:

  1. Cobre: US$ 8,62 bilhões (foco no Pará e Bahia) — operações da Vale S.A., Ero Copper, Lundin Mining e BHP
  2. Níquel: US$ 4,74 bilhões (Pará e Goiás) — Vale Base Metals, MMG Limited, Atlantic Nickel
  3. Terras Raras: US$ 2,39 bilhões (Goiás e Minas Gerais) — Serra Verde (já em operação desde 2024 em Minaçu), Meteoric Resources, Viridis Mining
  4. Bauxita: US$ 1,22 bilhão (Pará) — MRN, Alcoa, Norsk Hydro, CBA
  5. Lítio: US$ 1,17 bilhão (Minas Gerais) — Sigma Lithium, AMG, Companhia Brasileira de Lítio, Lithium Ionic


A concentração é tão acentuada que o Pará sozinho concentra a maior fatia dos investimentos, impulsionado pela Província Mineral de Carajás, que detém os maiores depósitos de ferro e cobre de classe mundial do país. Em Goiás, a CMOC opera carbonatitos com recursos estimados em mais de 140 milhões de toneladas de nióbio. Em Minas Gerais, a CBMM é responsável por 80% da produção mundial de nióbio.

O paradoxo das reservas gigantes e da industrialização minúscula

O Brasil ostenta posições de liderança global em reservas minerais: é o detentor da maior reserva de nióbio, da segunda maior de grafite (25,5% do total mundial) e da terceira maior de níquel e terras raras. Em termos de suficiência para a transição energética doméstica até 2050, as reservas brasileiras superam em múltiplos a demanda projetada: o níquel disponível é 128 vezes superior à necessidade, o cobre 19 vezes, a grafite 43 vezes, e o lítio cerca de 10 vezes.

Apesar dessa abundância geológica, o país mantém um padrão de produção concentrado nos estágios iniciais da cadeia — extração e beneficiamento simples —, com baixíssima verticalização para o downstream de alto valor agregado. Em 2023, apenas 5% do lítio extraído no Brasil foi processado internamente. O níquel refinado representou menos de 40% da produção total. O resultado é um perfil primário-exportador: o país embarca minério e importa baterias, componentes eletrônicos e veículos elétricos fabricados com o próprio insumo.

"A maior atração de investimentos e a agregação de valor no Brasil ampliam os benefícios econômicos da cadeia de minerais críticos para além dos estados produtores, impulsionando também as regiões industriais e fortalecendo a inserção do país nas cadeias globais de tecnologia e da transição energética", afirma Abrão Neto.

Por que o adensamento multiplica o emprego em 2,5 vezes

A explicação para o salto de 304 mil para 750 mil empregos está na arquitetura dos encadeamentos produtivos. A fase de construção das minas e usinas já gera demanda intensiva por obras civis, máquinas, equipamentos e serviços especializados. Mas é na fase de operação, quando os minerais se tornam insumos de baterias, turbinas eólicas e automóveis elétricos, que os efeitos se espalham pela economia.

No Cenário 2, o setor que mais cresce é o de máquinas e equipamentos elétricos, com expansão acumulada de 16,7% até 2050 — quase 17 vezes o crescimento observado no Cenário 1. Em seguida vêm máquinas de extração mineral (+9,8%), automóveis (+5,5%) e máquinas e equipamentos mecânicos (+2,9%). A indústria de transformação como um todo cresce 1,82%, quase o triplo do cenário exportador. A construção civil também se beneficia, com alta de 4,54%.

O efeito se propaga para estados que não produzem minério. Santa Catarina é o maior beneficiário do adensamento, com ganho adicional de 1,23% no PIB regional, seguido por Minas Gerais (+0,75%), São Paulo (+0,70%) e Paraná (+0,61%). Esses estados abrigam a indústria de transformação que processaria os minerais em bens de consumo e capital.

A agenda que separa o potencial da realidade

Para que o Cenário 2 se concretize, o estudo aponta cinco frentes de atuação prioritárias:

  1. Aprovação da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos — projeto que tramita no Congresso e ainda não foi sancionado;
  2. Fortalecimento de instrumentos de financiamento e mitigação de riscos — o BNDES e a FINEP já selecionaram 56 projetos que somam R$ 45,8 bilhões em investimentos, mas a demanda reprimida supera a oferta de crédito;
  3. Ampliação da atração de investimentos externos — o IED atual no setor de minerais metálicos oscila entre 3,5% e 5% do estoque total de capital estrangeiro no Brasil. O estudo projeta elevar essa participação para 15%, nível similar ao da indústria extrativa como um todo;
  4. Incentivo ao processamento e à industrialização doméstica — incluindo a produção de baterias, motores elétricos e turbinas eólicas com insumos nacionais;
  5. Aperfeiçoamento do ambiente regulatório — para estimular investimentos de longo prazo em um setor onde o retorno só se materializa após décadas.


Há sinais favoráveis. O Fundo de Investimento em Participações (FIP) em Minerais Estratégicos, parceria entre BNDES e Ministério de Minas e Energia, funciona como mecanismo de "de-risking" para o setor privado. O prêmio de risco do Brasil, medido pelo CDS, caiu de 521 pontos-base para 138 pontos-base ao final de 2025, reduzindo o custo do capital de longo prazo.

Contexto: quando a transição energética encontra a geologia brasileira

A demanda por minerais críticos não é uma aposta — é uma necessidade imposta pela transição energética global. Dados da Agência Internacional de Energia (IEA, 2025) indicam que tecnologias de baixo carbono foram responsáveis por 65% a 90% do crescimento da demanda por cobalto, grafite, lítio, manganês e níquel nos últimos anos. Um parque eólico terrestre requer nove vezes mais recursos minerais do que uma usina a gás. Um veículo elétrico utiliza seis vezes mais insumos minerais do que um automóvel convencional.

O Brasil, que já contribui com aproximadamente 4% do PIB através da indústria extrativa mineral e cuja balança comercial depende do setor — o saldo mineral representou 47% do superávit comercial total em 2024 —, tem a geologia a seu favor. O setor mineral faturou R$ 270,8 bilhões em 2024. No primeiro trimestre de 2026, o faturamento alcançou R$ 77,9 bilhões, com o minério de ferro respondendo por 48%, o ouro por 17% e o cobre por 13%.

O risco está em repetir a história do petróleo e do minério de ferro: décadas de exportação de commodities com baixo valor agregado, enquanto o valor real da cadeia — baterias, componentes, veículos elétricos — é capturado por Estados Unidos, China e União Europeia.

O estudo da Amcham Brasil não é um exercício acadêmico distante. É um mapa de custo de oportunidade. Cada tonelada de lítio exportada em estado bruto representa uma bateria que poderia ser montada em Minas Gerais. Cada carregamento de cobre enviado ao exterior representa um cabo elétrico, um motor, um carro elétrico que poderia ter sido produzido em Santa Catarina ou São Paulo. A diferença entre R$ 128 bilhões e R$ 192 bilhões no PIB não é uma abstração econômica — são 446 mil famílias com ou sem renda, 446 mil postos de trabalho que existirão ou não.

O Brasil já provou que sabe extrair minério. A questão que o estudo coloca, com a dureza dos números, é se o país sabe — ou quer — fazer algo mais valioso com ele. A transição energética global não espera. Se o Brasil não industrializar sua própria riqueza mineral, outro país o fará. E o lucro, como sempre, ficará com quem transforma o minério em tecnologia, não com quem apenas o tira da terra.


Versão em áudio disponível no topo do post.

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