Poder & Bastidores

Ministro boliviano acusa CV e PCC na fronteira e amplia estado de exceção

O ministro do Interior afirmou, sem apresentar provas, que o Comando Vermelho controla uma estrada em Pando — no mesmo dia em que o governo precisava dos votos para ampliar o estado de exceção

Ministro boliviano acusa CV e PCC na fronteira e amplia estado de exceção
📷 AGP
📋 Em resumo
  • O ministro do Interior da Bolívia, Marco Antonio Oviedo, afirmou que o Comando Vermelho controla uma estrada em Santa Rosa del Abuná, em Pando, e que CV e PCC recrutam bolivianos — sem apresentar provas públicas.
  • A declaração foi feita justamente na sessão em que a Assembleia aprovou a ampliação do estado de exceção por 90 dias.
  • O discurso coincide com o alinhamento do novo governo de Rodrigo Paz a Washington, que classificou PCC e CV como "organizações terroristas".
  • Correção geográfica importante: Pando faz fronteira com o Acre, não com Rondônia; a cidade citada nada tem a ver com o Cone Sul rondoniense.
  • Por que isso importa: separar a ameaça real do crime organizado do seu uso político é o que distingue política de segurança de retórica de ocasião
Compartilhar: WhatsApp X LinkedIn

O ministro do Interior da Bolívia, Marco Antonio Oviedo, afirmou que as facções brasileiras Comando Vermelho (CV) e PCC recrutam cidadãos bolivianos e que o CV chegou a "tomar" uma estrada na fronteira. A denúncia, porém, veio sem a apresentação de provas públicas — e num momento nada casual: a mesma sessão em que a Assembleia Legislativa aprovou, na madrugada desta quinta (17), a ampliação do estado de exceção por mais 90 dias.

Uma acusação grave — sem prova à mesa

Segundo Oviedo, uma estrada no município de Santa Rosa del Abuná, em Pando, estaria "tomada" pelo Comando Vermelho, com homens armados de fuzil cobrando pedágio pela passagem de mercadorias. Ele afirmou ainda que as facções começaram a recrutar jovens bolivianos.

Esta rota, de Santa Rosa até Montevidéu, na fronteira com o Brasil, está tomada pelo Comando Vermelho. Estão armados com fuzis e exigem pagamento pela passagem. — Marco Antonio Oviedo, ministro do Interior da Bolívia

O problema não é a existência de facções brasileiras na fronteira — isso é documentado há anos, por fontes independentes do atual governo. O problema é o quadro específico que o ministro pintou: controle territorial de uma cidade, estrada "tomada", pedágio armado. Afirmar isso é fácil; comprovar é outra coisa — e nenhuma prova foi apresentada ao plenário. Numa região de fronteira amazônica, de população rarefeita e estradas precárias, quem conhece o terreno recebe a descrição de "cidade tomada" com ceticismo.

O timing e o alinhamento com Washington

O contexto ajuda a entender a fala. A denúncia foi feita no exato momento em que o governo precisava dos votos para prorrogar o estado de exceçãomedida que restringe manifestações e autoriza o uso de militares. Inflar uma ameaça externa é o combustível clássico para justificar poderes de exceção: quanto maior o inimigo pintado, mais legítima parece a mão pesada.

Há ainda a camada geopolítica. O governo de Rodrigo Paz, de centro-direita e no poder desde novembro de 2025, tem buscado alinhamento com os Estados Unidos, que recentemente classificaram PCC e Comando Vermelho como "organizações terroristas". Abraçar o enquadramento do "narcoterrorismo" na fronteira rende a Paz cooperação, recursos e simpatia de Washington — mesmo que a categoria "terrorista" diga mais sobre a retórica de segurança norte-americana do que sobre a realidade de quadrilhas que, no fundo, disputam rota de cocaína. A ameaça, assim, serve a dois senhores ao mesmo tempo: o estado de exceção em casa e o alinhamento lá fora.

Apoie o jornalismo independente
Leia o Painel Político por inteiro
Assine e tenha acesso ao arquivo completo e a tudo que publicamos. Você sustenta um jornalismo que não se dobra ao poder.
Assinar por R$ 19/mês
ou acompanhe de graça
São canais, não grupos: só o Painel publica, ninguém comenta, seu número fica oculto. Saia quando quiser.

A geografia real (e por que ela importa)

Vale corrigir um ponto que a cobertura apressada costuma errar. Santa Rosa del Abuná fica em Pando, o extremo norte boliviano, que faz fronteira com o Acre — e não com Rondônia. A capital de Pando, Cobija, é vizinha de Brasiléia e Epitaciolândia, no Acre. Rondônia faz fronteira com o Beni, do outro lado do rio Mamoré, na altura de Guajará-Mirim e Guayaramerín.

Isso não anula o interesse brasileiro — a disputa entre CV e PCC por rotas do tráfico atravessa toda a faixa de fronteira Brasil-Bolívia, do Acre ao Mato Grosso, e a Polícia Federal já articula cooperação e um escritório permanente em território boliviano. Mas precisão geográfica é o que separa a análise séria do pânico importado: quem lê da fronteira percebe na hora quando a descrição não bate com o mapa.

O estado de exceção e a crise por trás dele

A prorrogação foi aprovada por maioria absoluta (100 dos 158 parlamentares), após mais de oito horas de sessão. O ministro da Defesa, Ernesto Justiniano, afirmou que o país melhorou — "a Bolívia hoje está mais tranquila do que há três meses" — e admitiu que a medida "não garante" o fim dos bloqueios, apenas mais "capacidade de resposta". O estado de exceção vige desde 20 de junho, decretado por Paz após 53 dias de bloqueios que, em meio à pior crise econômica boliviana em quatro décadas, deixaram ao menos 16 mortos e prejuízos acima de US$ 3 bilhões.

A sessão, aliás, expôs o desgaste do próprio governo: houve cobrança de autocrítica e um embate direto entre Oviedo e o vice-presidente e presidente do Congresso, Edman Lara, que mandou o ministro guardar para si o "complexo de ditador".

O que fica

Facção na fronteira é problema real, velho e grave — nisso o ministro não inventa. Mas entre reconhecer o problema e aceitar que uma cidade inteira foi "tomada por homens de fuzil", sem que se mostre uma única prova, no dia exato da votação do estado de exceção, vai uma distância que o bom jornalismo não atravessa de olhos fechados. A pergunta que fica não é se o crime organizado existe na fronteira — existe. É quanto da descrição apresentada é diagnóstico e quanto é pretexto. E, enquanto a prova não chega, afirmar segue sendo mais barato do que comprovar.


Versão em áudio disponível no topo do post.


💬 Comentários

Carregando comentários…

#painelpolitico #CrimeOrganizado #PCC #Geopolitica #segurancapublica