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"Narcogarimpo": o avanço do crime organizado no ouro ilegal da Amazônia

Estudo do instituto britânico IISS mapeia como facções como PCC e Comando Vermelho passaram a lucrar com o garimpo ilegal na Amazônia brasileira, e mostra os limites da resposta do Estado ao problema

"Narcogarimpo": o avanço do crime organizado no ouro ilegal da Amazônia
📷 Reprodução IISS
📋 Em resumo ▾
  • Um estudo do IISS (Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, de Londres) mapeia como o garimpo ilegal na Amazônia brasileira se tornou uma "policrise de segurança", envolvendo degradação ambiental, saúde indígena e crime organizado
  • O Brasil concentra mais de 60% da floresta amazônica e 85% do desmatamento total da região — e é onde a maior parte do garimpo acontece
  • Facções como o PCC e o Comando Vermelho passaram a controlar logística, combustível e pistas clandestinas em áreas de garimpo, um fenômeno que o estudo chama de "narcogarimpo"
  • Medidas recentes do governo — rastreabilidade do ouro, força-tarefa no território Yanomami, cooperação regional — reduziram a produção declarada de garimpo ilegal, mas o estudo mostra que parte da atividade só migrou para canais ainda mais informais
  • Por que isso importa: o estudo chega às vésperas da eleição presidencial, com o próprio texto apontando que o resultado de outubro de 2026 "pode afetar a durabilidade" dos avanços recentes
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Um estudo publicado em setembro pelo Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS), de Londres, descreve o garimpo ilegal na Amazônia brasileira como uma "policrise de segurança" — um problema que combina degradação ambiental, crise humanitária e, cada vez mais, crime organizado transnacional. Assinado pelas pesquisadoras Irene Mia e Fernanda Rios Herrera, o relatório baseia-se em entrevistas com Polícia Federal, Ministério Público, ONGs e órgãos ambientais, feitas durante viagem de campo ao Brasil em março deste ano.

Um problema concentrado — e em expansão

O Brasil contém mais de 60% da floresta amazônica e responde por 85% de todo o desmatamento já registrado na região, segundo o estudo. É também onde se concentra a maior parte da atividade garimpeira da bacia amazônica — com níveis de informalidade excepcionalmente altos: entre 75% e 85% do setor de ouro na região é informal, contra uma média global de 40% a 50%.

Os números de área afetada mostram a trajetória: o território brasileiro impactado por mineração (incluindo ouro) saltou de 98,8 mil hectares em 2018 para 223 mil hectares em 2025 — mais que o dobro em sete anos. Em 2022, cerca de 77% das áreas de garimpo apresentavam algum sinal de ilegalidade, seja por sobreposição a áreas protegidas (15%), seja pela ausência de licenças ambientais ou de mineração (58%). A ilegalidade também é concentrada: mais de 85% do garimpo dentro de unidades de conservação ocorre em apenas cinco delas, e 90% do garimpo em terras indígenas se concentra em três territórios — Kayapó, Munduruku e Yanomami.

A crise Yanomami como exemplo do problema

O episódio mais citado no estudo é a emergência sanitária declarada pelo governo federal em janeiro de 2023 no território Yanomami, após evidências de desnutrição grave, doenças generalizadas e centenas de mortes evitáveis — crise diretamente ligada à presença de um garimpo que, no auge, envolvia cerca de 20 mil pessoas na área indígena.

A resposta a essa crise é tratada pelo estudo como um ponto de virada: o governo criou uma força-tarefa interministerial e, em 2024, uma "Casa de Governo Yanomami" permanente em Boa Vista, para coordenar ações entre os níveis federal, estadual e municipal. Três anos depois da declaração de emergência, o relatório credita a essas medidas uma queda de 27,6% nas mortes registradas no território, além de mais de 9 mil operações realizadas e pelo menos US$ 112 milhões impedidos de entrar no mercado formal de ouro.

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"Narcogarimpo": quando o tráfico encontra o ouro

É aqui que o estudo chama mais atenção: o garimpo ilegal deixou de ser só um problema ambiental e virou, segundo os pesquisadores, um negócio disputado por facções criminosas organizadas — o que especialistas citados no relatório chamam de "narcoecologia" ou, especificamente quando envolve ouro, narcogarimpo.

Segundo o estudo, pelo menos 17 grupos criminosos atuam na Amazônia brasileira, com destaque para o Comando Vermelho (CV), historicamente mais forte nos corredores fluviais do Amazonas e do Pará, e o PCC, que vem expandindo rapidamente seu alcance para o norte — com presença reportada em Roraima, inclusive em áreas que se sobrepõem a terras Yanomami.

A atuação dessas facções, segundo o relatório, é menos sobre extrair ouro diretamente e mais sobre controlar a logística ao redor do garimpo: combustível (item estratégico numa região sem rede elétrica consolidada, onde diesel move geradores, barcos e aviões), transporte, pistas de pouso clandestinas e até o comércio de mercúrio. O ouro ilegal, por sua vez, funciona como mecanismo eficiente para lavar dinheiro do tráfico de drogas — o fechamento perfeito de um ciclo.

"O garimpo ilegal está na interseção de múltiplas ameaças de segurança que se reforçam mutuamente" — do estudo do IISS

Mercúrio: a rota internacional por trás da poluição

Um dos achados mais específicos do estudo é o mapeamento das rotas de tráfico de mercúrio — insumo usado para separar o ouro do sedimento, e um dos maiores problemas de saúde pública ligados ao garimpo, por contaminar rios, peixes e, consequentemente, comunidades indígenas inteiras. Apesar de o Brasil ter banido a importação de mercúrio desde 2016, o estudo mapeia rotas de contrabando vindas da Índia, do México, da Rússia, do Tadjiquistão e dos Emirados Árabes Unidos, com a Bolívia e a Guiana funcionando como pontos cegos regionais.

A resposta do Estado — e seus limites

O relatório reconhece avanços reais na resposta brasileira: o programa Ouro Alvo, da Polícia Federal, que já reúne mais de 2 mil amostras de ouro para rastrear a origem geológica do metal por análise isotópica; o fim do princípio de "boa-fé" sobre a origem do ouro, invalidado pelo STF em 2023; e a criação, em 2025, do Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia, com apoio da Interpol.

Mas o estudo é igualmente claro sobre as limitações estruturais. Alguns números ilustram isso: a Unidade Marítima da PF que patrulha os rios amazônicos onde o garimpo aluvial é mais comum opera com apenas cinco embarcações partindo de Manaus. O Ibama tem só três caminhões disponíveis para desmontar garimpos ilegais em toda a Amazônia. E um único juiz, em Manaus, é responsável por julgar crimes ambientais de toda a Amazônia brasileira — o que gera um acúmulo processual tão grande que processos frequentemente prescrevem antes de qualquer veredito.

Há também um efeito colateral que preocupa os pesquisadores: a nova exigência de nota fiscal eletrônica para rastrear o ouro reduziu a produção declarada de garimpo — de 30.761 kg (34% da produção total) em 2021-22 para 5.808 kg (8%) em 2025 —, mas dados de satélite mostram que a atividade de mineração em si não diminuiu na mesma proporção, e em algumas áreas até se intensificou. A leitura do estudo: parte do garimpo simplesmente deixou de ser declarada, migrando para canais ainda mais informais. O comércio internacional reflete esse deslocamento — países com regras mais rígidas de rastreabilidade, como Reino Unido (-40%), Emirados Árabes (-63%) e Índia (-90%), reduziram suas compras de ouro brasileiro entre 2022 e 2025, enquanto o ouro ilegal passou a ser cada vez mais escoado por rotas terrestres até a Venezuela, onde a fiscalização é mais fraca.

O que o estudo recomenda

Entre as prioridades apontadas para os próximos anos, destacam-se:

  1. Formalização via cooperativas de garimpeiros, com acesso a crédito e tecnologia — o estudo cita o exemplo peruano do REINFO (2016), que atraiu mais de 51 mil operações a se registrarem como "em processo de formalização", ainda que com resultados finais limitados
  2. Maior integração entre agências (PF, Ibama, ANM, Receita, Banco Central), com proposta de adaptar o modelo da ENCCLA (estratégia nacional contra corrupção, que embasou a Lava Jato) especificamente para o garimpo ilegal
  3. Harmonização regulatória regional, para evitar que o ouro ilegal simplesmente migre para o país vizinho com fiscalização mais fraca

O estudo termina com uma ressalva que, lido hoje, ganha peso adicional: aponta que o resultado da eleição presidencial de outubro de 2026 "pode afetar a durabilidade dos esforços atuais", já que administrações anteriores mostraram maior tolerância a atividades extrativas em terras indígenas e unidades de conservação.

Versão em áudio disponível no topo do post.

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