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Naskar fintech: bastidores do colapso que abala investidores

Com sede inativa e sócios inalcançáveis, empresa que prometia retornos acima do mercado deixa milhares de brasileiros sem acesso a recursos investidos

Naskar fintech: bastidores do colapso que abala investidores
📷 Times Brasil
📋 Em resumo
  • Fintech Naskar interrompe operações e deixa R$ 900 milhões em risco
  • Empresa alega "perda de base de dados", mas investidores relatam app inativo e silêncio dos sócios
  • Caso envolve nome conhecido como Maurício Jahu e atinge perfis variados, de aposentados a empresários
  • Polícia Civil do DF investiga; sindicato cobra regulação mais rígida para fintechs
  • Por que isso importa: o episódio expõe lacunas na fiscalização de instituições financeiras não bancárias e reacende debate sobre proteção ao investidor
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A Naskar Gestão de Ativos Ltda., fintech que operava no Distrito Federal e em São Paulo, interrompeu repentinamente as atividades em maio de 2026, deixando cerca de 3 mil investidores sem acesso a recursos estimados em quase R$ 1 bilhão. Antes do colapso público, a empresa já apresentava sinais de esvaziamento: abandono da sede oficial, fechamento simultâneo de filiais e migração silenciosa de operações para outras razões sociais. Enquanto a Polícia Civil do DF investiga possível estelionato ou pirâmide financeira, o Banco Central e a CVM confirmam: a Naskar não possui registro para captar recursos do público.

"Minha mãe vendeu uma casa, e recomendei a ela que investisse lá. (...) Agora, com esse sumiço, minha mãe não tem reserva, não tem dinheiro mensal, não tem aposentadoria, não tem nada."

A promessa de 2% ao mês e o modelo que sustentou 13 anos de operação

Durante mais de uma década, a Naskar captou recursos com uma proposta que desafiava a lógica do mercado: retorno fixo de 2% ao mês. Na prática, um investidor que aplicasse R$ 1 milhão receberia R$ 20 mil mensais, enquanto a empresa administraria o patrimônio. O modelo, sustentado por anos sem interrupções aparentes, conquistou clientes de perfis variados — de aposentados a empresários — e estabeleceu representação em múltiplos estados.

A credibilidade construída ao longo do tempo foi um dos principais ativos da empresa para ampliar sua base. Muitos investidores entraram por indicação de conhecidos ou por atuação de captadores contratados, como o empresário Wesley Albuquerque, do DF, que indicou 135 clientes com montante total de R$ 47 milhões.

Sinais prévios: sede abandonada, filiais fechadas e CNPJs baixados sem aviso

A apuração revela que o colapso de maio de 2026 foi precedido por movimentos estratégicos de retração. Em dezembro de 2024, José Maurício Volpato (o ex-jogador de vôlei e apresentador Maurício Jahu) passou a figurar como diretor da 7trust Finance IP S/A, instituição de pagamento em processo de autorização no Banco Central. Rogério Vieira, outro sócio da Naskar, aparece como presidente da mesma empresa.

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Em 1º de abril de 2025, a Naskar encerrou simultaneamente as filiais em Brasília, Curitiba e Rio de Janeiro. Os CNPJs foram baixados na Receita Federal no mesmo dia, sem que nenhum cliente recebesse comunicado oficial sobre o fechamento ou sobre possíveis alterações internas.

Entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, a empresa deixou o endereço oficial na Vila Olímpia, em São Paulo, conforme constatado por reportagem do Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC. Funcionários do prédio confirmaram a saída, mas o CNPJ da Naskar permaneceu registrado no local — uma inconsistência que dificultou a localização da empresa pelos investidores após a crise.

O colapso público: app fora do ar, sócios inalcançáveis e nota genérica

Na segunda-feira, 4 de maio de 2026, os rendimentos mensais previstos não foram creditados. Investidores buscaram informações, mas não obtiveram resposta. Quatro dias depois, em nota emitida na manhã de sexta-feira (8/5), a Naskar alegou ter sofrido uma "perda na base de dados" e prometeu normalização a partir da semana seguinte.

No sábado (9/5), a empresa enviou e-mail solicitando que clientes reenviassem documentos como contratos e comprovantes de aporte para "reconstrução das informações". A mensagem enfatizou que a medida tem caráter cadastral e de auditoria, sem reconhecimento automático dos valores. Enquanto isso, o aplicativo usado para acompanhamento de investimentos permanece inoperante e os sócios — Marcelo Liranco Arantes, Rogério Vieira e Maurício Jahu — não respondem a contatos.

"Sem regulação forte, fiscalização rigorosa e proteção ao trabalho, seguiremos repetindo crises que penalizam trabalhadores, clientes e a sociedade como um todo."

Rastros em Alphaville: novas empresas, mesmos sócios

Com a saída da sede oficial, investidores passaram a relatar que a Naskar teria migrado operações para Alphaville, em Barueri (SP). Na região, aparecem duas empresas ligadas aos sócios: Next Gestão de Ativos Ltda. e Nextgen Gestão Financeira Ltda., ambas vinculadas a Maurício Jahu e Marcelo Arantes.

Não há confirmação oficial de que essas empresas assumiram as operações da Naskar, nem comunicação formal aos clientes sobre eventuais transferências. A ausência de transparência reforça a desconfiança de que houve planejamento prévio para dissolver a estrutura original enquanto se mantinha a captação ativa.

O vácuo regulatório: Naskar não tinha autorização do BC ou CVM

Um dos pontos mais graves do caso é a constatação de que a Naskar não possuía registro no Banco Central nem na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) como instituição autorizada a captar recursos do público. Isso significa que, do ponto de vista regulatório, a empresa operava à margem do sistema financeiro nacional

A Polícia Civil do Distrito Federal investiga o caso sob suspeita de estelionato ou pirâmide financeira. A ausência de autorização prévia para captação, somada à promessa de retornos fixos acima do mercado e ao esvaziamento operacional prévio, compõe um quadro que exige apuração rigorosa.

Impactos humanos: de aposentados a captadores, todos sem resposta

Os impactos do colapso atingem realidades distintas. Um empresário do DF tinha R$ 3,9 milhões aplicados; um bancário, R$ 2,3 milhões; um aposentado, R$ 1 milhão. Todos aguardam respostas.

O caso de Wesley Albuquerque ilustra a dimensão do prejuízo. Além de ter recursos próprios na Naskar, ele atuava como captador por contrato de prestação de serviços. Ao todo, indicou 135 clientes. "Seis anos atrás, a Naskar apresentou a empresa e foi provando que era digna de confiança", relembra. "A nossa confiança foi aumentando a ponto de eu deixar todo o meu dinheiro lá."

Wesley chegou a recomendar o investimento à própria mãe, que vendeu um imóvel para aplicar na fintech. "Falei: 'Olha, mãe, meu dinheiro está todo lá, vai ser bom para você investir e ficar usando o retorno como aposentadoria'." Hoje, ele relata: "Estou me mantendo à base de medicamentos desde segunda-feira. Já chorei. Minha mulher não dorme. Estou quebrado, minha vida acabou."

O debate regulatório: fintechs na zona cinzenta do sistema financeiro

O caso reacende o debate sobre a regulação de instituições financeiras não bancárias. Neiva Ribeiro, presidenta do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, avalia que o episódio da Naskar reforça a urgência de um novo marco regulatório.

"São diversos os casos que demonstram a fragilidade regulatória em relação às fintechs e outras instituições financeiras não bancárias", afirma. "Além da insegurança gerada aos clientes — que ficam desesperados com a falta de informações confiáveis sobre seus investimentos, muitas vezes economias de uma vida inteira —, não faltam exemplos do uso de fintechs por organizações criminosas para lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio."

A dirigente defende que fintechs e similares sejam submetidas às mesmas normas de transparência, fiscalização e direitos trabalhistas aplicadas aos bancos tradicionais. "É preciso fazer justiça aos trabalhadores dessas empresas, que, na prática, atuam como bancários, mas sem os mesmos direitos e remuneração."

O episódio da Naskar não é um fato isolado, mas um sintoma de um sistema que permite a operação de instituições financeiras com margens regulatórias amplas. Enquanto a auditoria prometida pela empresa não avança, resta aos investidores a incerteza — e ao Poder Público, a pergunta que não cala: até quando a inovação financeira poderá caminhar à frente da proteção ao cidadão?


Versão em áudio disponível no topo do post.

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