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Niall Ferguson: disputa tecnológica EUA e China é a nova Guerra Fria

Historiador alerta que inteligência artificial e soberania digital ditarão os próximos 50 anos de hegemonia global e riscos em Taiwan

Niall Ferguson: disputa tecnológica EUA e China é a nova Guerra Fria
📷 Paulo Bareta/Expert XP
📋 Em resumo ▾
  • Rivalidade entre Estados Unidos e China migrou do comércio para a inteligência artificial e a soberania digital.
  • Taiwan emerge como o ponto de maior tensão geopolítica devido ao monopólio de semicondutores avançados.
  • Regimes autoritários como China e Rússia enfrentam fragilidades estruturais, como declínio demográfico.
  • Por que isso importa: Empresas e nações serão forçadas a escolher entre os ecossistemas tecnológicos americano ou chinês.
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A rivalidade entre Estados Unidos e China transcendeu o campo comercial e se consolidou como uma disputa por inteligência artificial e soberania digital. Segundo o historiador Niall Ferguson, essa "Segunda Guerra Fria" definirá a ordem global nas próximas cinco décadas, exigindo que nações e empresas escolham um ecossistema tecnológico.

O fim da regulação zero na inteligência artificial

A inteligência artificial deixou de ser apenas um tema tecnológico para se tornar um ativo estratégico de segurança nacional. Os Estados Unidos abandonaram a ideia de regulação mínima, passando a enxergar os modelos mais avançados como questão de Estado.

"Os dias da regulação zero para a inteligência artificial acabaram", afirmou Ferguson.

O historiador alertou para a aceleração da competição com os modelos chineses de código aberto. Segundo ele, governos e corporações terão de decidir qual ecossistema adotar. "Toda empresa, inclusive no Brasil, terá de decidir como incorporar IA ao seu negócio e se seguirá o caminho americano ou o chinês."

Soberania digital e o gargalo de Taiwan

A soberania digital, na visão do especialista, dependerá cada vez mais da capacidade de desenvolver infraestrutura própria. Isso inclui provedores de nuvem, fabricantes de semicondutores e modelos próprios de linguagem.

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Nesse contexto, Taiwan concentra o principal risco geopolítico. A ilha detém a produção da maior parte dos semicondutores mais avançados do mundo. Qualquer interrupção nesse fluxo teria impactos imediatos na economia global.

Para Ferguson, o maior perigo não é uma invasão militar em larga escala, mas uma tentativa gradual de Pequim de assumir o controle sobre o comércio e as exportações da ilha. "Esse pode ser o momento mais perigoso da Segunda Guerra Fria", avaliou.

A fragilidade estrutural dos regimes autoritários

Ao analisar o cenário global, o historiador afirmou que a força da China costuma ser superestimada. O país enfrenta desafios estruturais semelhantes aos de outros regimes autoritários do século XX, como o declínio demográfico e a concentração excessiva de poder político.

"Esses sistemas não são fortes. Na verdade, são bastante frágeis", disse.

Sobre a Rússia, Ferguson classificou a guerra na Ucrânia como um sinal de enfraquecimento, e não de renascimento. "O que estamos testemunhando não é o renascimento da Rússia imaginado por Vladimir Putin, mas os estertores finais do Império Russo", afirmou.

O peso da complexidade histórica

A análise foi apresentada durante painel na Expert XP 2026, ao lado de Artur Wichmann, CIO da XP Inc. O evento reuniu especialistas para discutir tendências globais e perspectivas para os mercados financeiros.

Ferguson destacou que a história não segue ciclos previsíveis, mas se comporta como um sistema complexo. Esse sistema está sujeito a choques inesperados, como crises financeiras, pandemias e conflitos, que podem redefinir o equilíbrio de poder da noite para o dia.

O dilema da escolha binária

A nova ordem global não oferece neutralidade. A bifurcação tecnológica entre Washington e Pequim força países do Sul Global a um dilema estratégico: alinhar-se a um dos polos ou tentar, arriscadamente, navegar na zona cinzenta entre eles.

A fragilidade interna dos regimes autoritários não os torna menos perigosos; pelo contrário, a história demonstra que sistemas frágeis tendem a externalizar suas crises por meio de agressividade geopolítica.

Resta uma reflexão socrática para os formuladores de política no Brasil: é possível manter a soberania nacional quando a infraestrutura digital que sustenta a economia depende de fornecedores estrangeiros? Enquanto não desenvolvermos nossa própria capacidade tecnológica, seremos apenas espectadores, ou talvez dados, na nova Guerra Fria.


Versão em áudio disponível no topo do post.

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