O caminho para melhorar a vacinação
Por José Hiran da Silva Gallo*

O Brasil já foi exemplo para o mundo no assunto vacinação. As estratégias adotadas pelos sucessivos governos permitiram que doenças, como poliomielite, rubéola e sarampo,fossem consideradas eliminadas no País. Isso significa que osvírus causadores deixaram de circular no território nacional, apesar de ainda atacarem em outros países.
Para evitar que eles assombrem nossas crianças e adolescentes o caminho é a prevenção com o uso de imunizantes. Por isso, manter a carteira de vacinação em dia é um dever para os pais e responsáveis e criar condições para que isso se torne possível configura uma responsabilidade para o Governo. Não se pode deixar a porta aberta para que doenças evitáveis entrem nas nossas casas.
Essa ameaça existe. Por conta de problemas na produção e compra de vacinas e deficiências na distribuição das que estão disponíveis, essas doenças podem voltar a fazer vítimas no País. Essa preocupação aumentou com a divulgação de relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e da Organização Mundial de Saúde (OMS).
Pelos dados apresentados, o Brasil voltou a figurar entre as 20 nações com maior número de crianças não imunizadas em todo o mundo. Nesse grupo, ficou na 17ª posição, a frente apenas de Mianmar, Camarões e Costa do Marfim.
Os números dão a dimensão do agravamento do cenário nacional: em 2023, o total de meninos e meninas não imunizados chegava a 103 mil crianças; um ano depois, esse indicador mais que dobrou, passando a ser de 229 mil.
O levantamento do Unicef/OMS é apenas mais um sinal de que é preciso mais atenção à vacinação no País. Outro estudo – dessa vez da Confederação Nacional de Municípios (CNM) – reforça a necessidade de alternativas para superar esse desafio.
Pelo trabalho, produzido em maio de 2025, uma em cada três localidades do Brasil enfrenta o desabastecimento de vacinas. Entre os imunizantes mais afetados constam os que protegem contra sarampo, caxumba, rubéola e varicela.
Além da falta dos insumos em si, os gestores da saúde relatam dificuldades logísticas que complicam a vida de profissionais e famílias. Na lista, estão: o envio de doses com data de vencimento muito próxima; a entrega de frascos de vacina multidose que ultrapassam a validade após a abertura; e o descompasso entre volume de doses entregue e tamanho da população-alvo localmente.
A melhora dos indicadores de vacinação é uma questão que precisa estar no topo das prioridades do Governo – federal, estadual e municipal. O Conselho Federal de Medicina (CFM) já alertou os gestores sobre a necessidade de medidas urgentes para corrigir falhas identificadas e salvaguardar a saúde da população, em especial de crianças e adolescentes.
Sobre esse tema, não é possível adiar decisões sob pena de causar adoecimento, sequelas e mortes. Independentemente dos motivos que têm provocado a dificuldade de acesso da população aos imunizantes, é preciso entender que, mesmo pequenas, quedas na cobertura vacinal aumentam muito as chances de surtos de doenças evitáveis, lançando nuvens pesadas sobre o futuro da Nação.
É possível reverter esse quadro. Com conscientização, mobilização, recursos e vontade política, o Brasil pode fazer sua lição de casa e voltar a ser referência mundial no que se refere à prevenção de doenças por meio da vacinação.
José Hiran da Silva Gallo é Presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM)
