O casal brasileiro que matou os ex-namorados da noiva por ciúme
No Rio de Janeiro, em 1974, um engenheiro cartógrafo matou os dois ex-namorados da noiva, filha de um coronel do Exército, num pacto antes do casamento
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- No Rio de Janeiro, em 1974, o engenheiro Wanderley Gonçalves Quintão matou os dois ex-namorados de sua noiva, Maria de Lourdes Leite de Oliveira.
- O crime nasceu de um pacto: antes do casamento, Van exigiu a eliminação de todos os ex-amantes de Lou.
- O revólver usado pertencia ao coronel do Exército Lúcio de Oliveira, pai de Lou — e foi ela mesma quem o entregou à polícia.
- O júri, em 1979, condenou Lourdes a 20 anos e Wanderley a 18 anos de prisão, segundo a maioria das fontes levantadas.
- Por que isso importa: o Caso Van-Lou é um dos crimes mais notórios do noticiário policial brasileiro do século XX — e, apesar da ampla cobertura à época, o destino final do casal após a prisão quase não deixou rastro público.
Entre 20 de novembro e 3 de dezembro de 1974, no Rio de Janeiro, o engenheiro cartógrafo Wanderley Gonçalves Quintão, conhecido como “Van”, matou os dois ex-namorados de sua noiva, a estudante universitária Maria de Lourdes Leite de Oliveira, a “Lou”. O crime, batizado pela imprensa da época de Caso Van-Lou, aconteceu durante a ditadura militar e ganhou ainda mais repercussão por um detalhe: Lourdes era filha de um coronel do Exército.
Um pacto antes do casamento
Lou era moradora de Copacabana, de família de classe média, e tinha 24 anos quando conheceu Van, engenheiro cartográfico de 33 anos, funcionário do Observatório Nacional. Os dois pretendiam se casar, mas Wanderley estava atormentado com a “vida pregressa” de Lourdes — o fato de ela ter tido outros relacionamentos antes dele.
O crime nasceu de um pacto entre o casal: antes de se casar, todos os ex-amantes de Lou deveriam ser eliminados. O plano consistia em atrair os dois homens, com a ajuda de Lou, para um local isolado, onde Van, escondido, os mataria a tiros.
A primeira vítima foi Wantuil Mattos de Lima, técnico em conserto de televisores, assassinado na Barra da Tijuca em 20 de novembro de 1974. Segundo o relato da época, a mulher de Wantuil já suspeitava do caso com Lou e havia telefonado para ela exigindo explicações antes do crime.
Duas semanas depois, em 3 de dezembro, foi a vez de Almir da Silva Rodrigues. Ele foi encontrado à noite perto da Avenida Sernambetiba, atingido por cinco tiros, e passou nove dias no Hospital Miguel Couto, submetido a três cirurgias para retirada das balas das costas, da virilha e do pescoço — sem resistir aos ferimentos. Antes de perder a consciência, Almir afirmou à polícia que Lou havia disparado o primeiro tiro, e atribuiu os outros quatro a “um homem” que ele não conhecia; a polícia encontrou em sua mão direita fios de cabelo escuro, endurecidos por laquê.

Maria de Lourdes (Lou) no Tribunal - O Globo
Versões contraditórias e a arma do coronel
As duas versões apresentadas à polícia divergiam. Lou alegou que ela e Almir pararam num trecho escuro do Recreio dos Bandeirantes com um pneu furado, que Wanderley os seguiu, que Almir desceu do carro para confrontá-lo e que os tiros começaram; disse ainda que, depois, Wanderley a insultou e mandou que ficasse calada, usando dois revólveres para simular um assalto. Wanderley, por sua vez, negou ter armas e disse não saber atirar — muito menos com as duas mãos — e acusou o advogado Mário de Figueiredo de subornar pessoas para montar um álibi contra ele; seu próprio advogado, Laércio Pelegrino, afirmou que Lou havia inventado “uma história sem sentido”.
O ponto que fechou o cerco contra o casal foi a arma. Durante as investigações, Lou entregou à polícia um revólver que pertencia a seu pai, o coronel do Exército Lúcio de Oliveira, dizendo tê-lo emprestado a Wanderley; o exame de balística, feito pelo Instituto de Investigações Científicas e Criminais, confirmou que a arma havia sido usada nos crimes.
O julgamento: 20 anos para Lourdes, 18 para Wanderley
O casal foi a júri em 1979, num julgamento que durou quatro dias. As fontes levantadas convergem, em sua maioria, para o mesmo resultado: Lourdes foi condenada a 20 anos de prisão pelos dois crimes, e Wanderley a 18 anos, apenas pela morte de Wantuil — é o que registram o acervo fotográfico do jornal Última Hora (via leiloeiro Casa do Velho), o blog Crimes de Amor e o levantamento do Brasilbook, este com créditos de imagem atribuídos ao O Globo. A Wikipédia em português é a única fonte, entre as consultadas, que registra uma pena diferente para Wanderley — 15 anos, sem especificar se cobriria um ou os dois homicídios.
Wanderley obteve liberdade condicional em 1982.
O que se sabe depois da prisão
O rastro público do casal praticamente se perde depois da condicional. O único dado concreto é que, segundo o Brasilbook, Lourdes chegou a se formar em Direito, mas nunca atuou como advogada. Sobre Wanderley, a única referência que aparece — sem confirmação por segunda fonte — é a de que ele teria tentado retomar seu posto no Observatório Nacional após cumprir parte da pena.
Repercussão cultural
O caso ultrapassou as páginas policiais e entrou na cultura popular. Inspirou o filme “Beijo na Boca”, dirigido por Paulo Sérgio Almeida e lançado em 1982 — embora a sinopse oficial do filme descreva uma moça de classe média envolvida com um traficante de drogas ciumento que quer matar todos os seus ex-namorados, uma adaptação livre que trocou a profissão do personagem central e não corresponde literalmente aos fatos reais. Lou também foi capa da revista O Cruzeiro em 1975, ainda sob investigação. O caso foi tema do episódio de abertura do programa “Linha Direta Justiça”, exibido pela TV Globo em 8 de maio de 2003, e, mais recentemente, de episódios de podcasts de true crime, como o “Muitopior” (ep. 88, de 19 de janeiro de 2021).
Mais de cinco décadas depois, o Caso Van-Lou permanece como um retrato de uma época em que crimes passionais dominavam o noticiário policial carioca — e como um exemplo de como, mesmo em casos de ampla cobertura da imprensa à época, detalhes do desfecho pessoal dos envolvidos podem se perder quando a história sai das páginas dos jornais e não é mais atualizada por ninguém.
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