Poder & Bastidores

Odebrecht e Vorcaro: seis empreendimentos unem escândalos

Sociedades entre braço imobiliário da ex-Odebrecht e fundos do banqueiro preso revelam conexões entre dois maiores casos de corrupção do país

Odebrecht e Vorcaro: seis empreendimentos unem escândalos
📷 Metropoles
📋 Em resumo
  • Seis empreendimentos imobiliários em São Paulo conectam Novonor e fundos atribuídos a Daniel Vorcaro
  • Justiça paulista bloqueou bens vinculados ao banqueiro, incluindo participações nas incorporadoras
  • OR afirma que due diligence em 2022 não identificou vínculo com Banco Master ou Vorcaro
  • Empreendimentos somam mais de 555 apartamentos e unidades de luxo no Itaim e Vila Nova Conceição
  • Por que isso importa: a trama expõe falhas na governança de grandes incorporadoras e a sofisticação de esquemas de ocultação de ativos
Compartilhar: WhatsApp X LinkedIn

Seis empreendimentos de alto padrão em São Paulo revelam uma sociedade pouco conhecida: de um lado, a OR (braço de incorporação imobiliária da ex-Odebrecht, hoje Novonor); do outro, fundos de investimento atribuídos ao banqueiro Daniel Vorcaro, preso na Operação Compliance Zero. A conexão, agora sob bloqueio judicial determinado pela 3ª Vara de Falências de São Paulo, expõe como esquemas de corrupção se reinventam no mercado imobiliário de luxo.

A estrutura societária que une dois escândalos nacionais

Os empreendimentos pertencem a cinco incorporadoras que, pelo lado da ex-Odebrecht, têm como sócia a Orion Empreendimentos — empresa que herdou o legado de ativos da antiga Odebrecht Realizações Imobiliárias. Pelo lado de Vorcaro, as sociedades anônimas têm como únicos sócios dois fundos de investimentos atribuídos ao banqueiro pelo liquidante do Banco Master.

Esses fundos, segundo o liquidante, foram utilizados como "instrumentos de aquisição e titularização formal de bens destinados ao uso e benefício pessoal de Daniel Vorcaro". Por isso, a Justiça paulista determinou a averbação de pendência judicial da Magma Empreendimentos e dos fundos Lunar e Quality Golden, entre outros bens do banqueiro.

"Fundos utilizados como instrumentos de aquisição e titularização formal de bens destinados ao uso e benefício pessoal de Daniel Vorcaro"

A medida é cautelar e preparatória para futura ação revocatória, quando o liquidante tentará recuperar ativos desviados do banco. Até o momento, a decisão não foi contestada por terceiros.

📰
Gostou do que está lendo?Assine o Painel Político e acesse todo o conteúdo exclusivo — análises, bastidores e o jornalismo que vai fundo no poder.
Assinar por R$19/mêsJá sou assinante

Baume Itaim: o primeiro prédio pronto da parceria

Há poucas semanas, ficou pronto o primeiro empreendimento fruto da parceria iniciada em setembro de 2022. É o edifício boutique Baume Itaim, cujo menor dos 21 apartamentos tem 219m² e não custa menos que R$ 8 milhões. A incorporadora é a ORSP 29, sociedade dividida igualmente entre Orion/Odebrecht e Magma.

A Magma é uma SA dirigida por David Lopes Monteiro, irmão do advogado Daniel Monteiro, preso na quarta fase da Operação Compliance Zero sob acusação de estruturar pagamento de propina ao ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa. As empresas de Daniel Monteiro compravam imóveis a partir de sociedades anônimas dirigidas por um cunhado, usando o mesmo fornecedor de CNPJs de prateleira da Magma e de outras companhias ligadas a Vorcaro.

Ao menos um dos terrenos que deram origem ao Baume Itaim foi comprado com empréstimo concedido em dezembro de 2022 pelo Banco Master. As cotas da Magma na incorporadora foram dadas ao banco como garantia — que ainda não foi liberada.

Ryt, Vert e BP Itaim: a expansão da sociedade oculta

A mesma estrutura societária se repete nos empreendimentos Ryt Paulista Apartments e Ryt Paulista Smart Studios, na Bela Vista, região central. Com apartamentos de até 43m² e clara vocação para locação de curta estada, os Ryt estão tecnicamente em construção, segundo a OR. Na prática, tratam-se de um prédio só, dividido em dois para fazer jus a incentivos tributários recentemente discutidos em CPI na Câmara Municipal de São Paulo.

Já o Vert Vila Nova, apresentado no site da OR como "em lançamento", também é sociedade entre Orion/Odebrecht e Vorcaro. Neste caso, o sócio minoritário é a Praia Empreendimentos, representada por Tiago Ferraz de Moraes Coelho — irmão de Ana Coelho (União), candidata a vice-governadora da Bahia em chapa com ACM Neto.

Na Vila Nova Conceição, Vorcaro é representado pela Verde Bahia SA, que pertence ao fundo Lunar e também é dirigida por David Monteiro. O futuro prédio, na esquina entre a rua Bueno Brandão e a avenida Santo Amaro, prevê uso misto: 209 unidades residenciais e 70 não residenciais.

"Assim que tomou conhecimento, por meio da imprensa, sobre os processos em curso, adotou imediatamente as medidas cabíveis para encerrar qualquer associação"

Um dos terrenos foi comprado em novembro de 2023 por R$ 17,3 milhões, também com empréstimo do Banco Master — R$ 25,4 milhões tomados pela Verde Bahia. Em setembro de 2025, a alienação do imóvel foi repassada pelo banco de Vorcaro a um FIDC gerido pela Trustee, o GSR. No mesmo dia, a alienação foi cancelada: a dívida foi dada como paga.

Verde Bahia, Praia e Orion/Odebrecht também são sócios em um empreendimento residencial prometido para lançamento breve na esquina das ruas Tabapuã e Bandeira Paulista, no Itaim Bibi. A incorporadora BP Itaim, originalmente da Odebrecht, passou a ser dividida meio a meio com a Verde Bahia em julho de 2024.

A defesa da OR e as lacunas da due diligence

A sexta sociedade entre Vorcaro e Odebrecht está na incorporadora de um projeto de luxo na Praça Pereira Coutinho, também na Vila Nova Conceição. Só um dos lotes custou R$ 40 milhões. O ex-banqueiro é representado pela Pérgamo SA, controlada pelo fundo Quality Golden — mesmo dono da Magma e sócio do Lunar em dezenas de empresas. A Pérgamo é dirigida por Mauro Gamberi, que também já respondeu pela Verde Bahia.

Dos oito empreendimentos mais recentes da OR em São Paulo, apenas dois — que também são um só, dividido por questões burocráticas — não têm participação do Banco Master.

Procurada, a OR enviou nota afirmando que "não tem ou teve qualquer relacionamento societário com o Banco Master ou com Daniel Vorcaro, e que não realizou empréstimos com o banco". A empresa destacou que possui centenas de investidores para parcerias em seus empreendimentos, prática comum no mercado.

A OR esclareceu que, em 2022, estabeleceu tratativas somente com as empresas Verde Bahia, Pérgamo e Magma, vinculadas a Augusto Lima, então CEO do Banco Master. "Os aportes somente ocorreram após os procedimentos padrão de governança e Due Dilligence aplicados no mercado, os quais não resultaram em qualquer menção ao Banco Master ou ao Sr. Daniel Vorcaro como possíveis beneficiários finais dessas empresas investidoras", informou.

A empresa afirmou ainda que, ao tomar conhecimento pela imprensa sobre os processos em curso, "adotou imediatamente as medidas cabíveis para encerrar qualquer associação ou relacionamento com essas empresas". Até aqui, nenhuma mudança societária foi informada à Junta Comercial.

O que a Justiça paulista determinou — e o que vem por diante

A decisão da 3ª Vara de Falências de São Paulo é cautelar e preparatória. O objetivo do liquidante é recuperar ativos desviados do Banco Master por meio de ação revocatória. Enquanto isso, os bloqueios impedem a movimentação de participações societárias vinculadas a Vorcaro — inclusive nas incorporadoras que são sócias da OR.

O caso reacende o debate sobre a eficácia dos procedimentos de due diligence em operações de alto valor. Se fundos controlados por um banqueiro sob investigação conseguem se associar a uma das maiores incorporadoras do país sem que seu beneficiário final seja identificado, que garantias restam ao mercado e ao poder público?

A trama também ilustra como o mercado imobiliário de luxo segue sendo atraente para esquemas de ocultação de ativos. Apartamentos de R$ 8 milhões, terrenos de R$ 40 milhões, sociedades anônimas com diretores interligados: a sofisticação é proporcional ao valor envolvido.

Resta saber se as medidas adotadas pela OR após a exposição midiática serão suficientes para restaurar a confiança de investidores e clientes. Ou se o caso se tornará mais um capítulo na longa história de como grandes estruturas corporativas lidam — ou deixam de lidar — com riscos reputacionais de origem obscura.


Versão em áudio disponível no topo do post.

💬 Comentários

Carregando comentários…

#Odebrecht #Vorcaro #OperacaoComplianceZero #IncorporadorasSaoPaulo #EscandalosImobiliarios