Operação da PF mira previdência de Cajamar por envolvimento com Banco Master
Investigação da Federal apura gestão temerária de recursos previdenciários e possíveis irregularidades em aplicações ligadas ao Banco Master
📋 Em resumo ▾
- PF deflagra Operação Off-Balance para investigar R$ 112 milhões em aplicações de risco do IPSSC de Cajamar
- Ex-dirigentes do instituto de previdência têm funções afastadas e bens indisponibilizados por decisão federal
- Cerca de R$ 87 milhões foram aplicados em produtos ligados ao Banco Master, alvo de investigações paralelas
- Por que isso importa: o caso expõe fragilidades na governança de fundos previdenciários municipais e riscos ao patrimônio de servidores públicos.
A Polícia Federal deflagrou nesta quarta-feira (13) a Operação Off-Balance para investigar suspeitas de gestão temerária de mais de R$ 100 milhões do Instituto de Previdência Social dos Servidores de Cajamar (IPSSC). A apuração mira aplicações de alto risco feitas entre 2023 e 2024, parte delas vinculadas ao Banco Master, e já resultou em afastamento de ex-dirigentes e indisponibilidade de bens por decisão da 9ª Vara Criminal Federal de São Paulo.
Quem está na mira da operação
Os principais alvos são integrantes da antiga cúpula do IPSSC e membros responsáveis pelas decisões de investimento do fundo. Entre os investigados está Luiz Henrique Miranda Teixeira, diretor-executivo do instituto entre julho de 2023 e dezembro de 2025. A PF apura a participação dele nas decisões que autorizaram os aportes financeiros sob suspeita.
Também responde à operação Marcelo Ribas de Oliveira, presidente do Comitê de Investimentos e diretor de Benefícios do instituto, que participava das análises e deliberações sobre as aplicações. Milton Marques Dias, ex-diretor administrativo e financeiro do RPPS e membro do comitê, é apontado como um dos responsáveis pela gestão direta dos recursos.
Completa a lista Rafael Petroziello, membro do comitê que assinou autorizações relacionadas aos investimentos investigados. Todos tiveram funções públicas afastadas e bens indisponibilizados como medida cautelar.
"Recursos do regime próprio de previdência dos servidores municipais teriam sido aplicados sem análise técnica adequada e com falhas graves nos mecanismos de governança e controle de risco."
Como funcionavam as aplicações sob suspeita
De acordo com a investigação, cerca de R$ 112 milhões do patrimônio previdenciário de Cajamar foram direcionados para quatro letras financeiras emitidas por bancos privados. A maior parte dos recursos, aproximadamente R$ 87 milhões, teria sido aplicada em produtos ligados ao Banco Master. Outros R$ 20 milhões envolveriam operações com o Banco Daycoval.
A PF trabalha com a suspeita de que houve direcionamento das aplicações financeiras, especialmente em favor do Banco Master, além de possível desrespeito a critérios técnicos exigidos para investimentos de fundos previdenciários públicos.
Os investigadores apontam ausência de estudos consistentes de risco, deficiência nos controles internos e possível exposição excessiva do patrimônio dos servidores municipais. A apuração começou após o recebimento de informações sobre irregularidades na aplicação de cerca de R$ 107 milhões em letras financeiras emitidas por bancos privados.
Governança frágil e riscos ao patrimônio público
A operação expõe uma questão estrutural: a vulnerabilidade de regimes próprios de previdência municipais frente a decisões de investimento sem blindagem técnica adequada. Fundos como o IPSSC lidam com recursos destinados a aposentadorias e pensões — patrimônio que exige governança rígida, comitês independentes e auditoria constante.
"Os investigadores apontam ausência de estudos consistentes de risco, deficiência nos controles internos e possível exposição excessiva do patrimônio dos servidores municipais."
A decisão judicial que determinou as medidas cautelares reforça a gravidade atribuída pela Justiça Federal às condutas apuradas. O afastamento preventivo dos investigados busca preservar a integridade da apuração e evitar interferências na gestão remanescente do fundo.
Conexão com o caso Banco Master
A Operação Off-Balance surge em meio ao avanço de investigações relacionadas ao Banco Master e pessoas ligadas à instituição financeira. Segundo informações da apuração, os investimentos ocorreram durante a gestão do então prefeito de Cajamar, Danilo Joan (PP), considerado aliado político do senador Ciro Nogueira.
O nome do parlamentar apareceu em desdobramentos recentes da Operação Compliance Zero, que apura suposta rede de influência envolvendo o Banco Master. Até o momento, não há indícios de envolvimento direto de Ciro Nogueira nas aplicações do IPSSC, mas o caso reforça a necessidade de transparência nas relações entre gestores públicos e instituições financeiras.
O que está em jogo vai além de Cajamar. O caso serve como alerta para outros municípios que administram regimes próprios: a combinação entre pressão por rentabilidade, governança frágil e conexões políticas pode transformar fundos previdenciários em instrumentos de risco — com prejuízos que recaem sobre quem mais depende de proteção estatal.
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