Por que ONG ligada a filme de Bolsonaro é alvo da Polícia em SP?
Instituto Conhecer Brasil, ligado à produtora de "Dark Horse", é alvo de operação por suspeita de desvio em contrato com a Prefeitura de São Paulo
📋 Em resumo ▾
- Polícia Civil cumpre mandados contra ONG por suspeita de fraude em contrato de R$ 108 milhões para wi-fi público.
- Investigação aponta notas fiscais canceladas, preços acima do mercado e pagamentos sem contraprestação de serviço.
- Empresária dona da ONG é sócia da produtora do filme "Dark Horse", sobre Jair Bolsonaro.
- Por que isso importa: O caso expõe falhas na fiscalização de parcerias com OSCs e questiona critérios de contratação pública.
A Polícia Civil de São Paulo deflagrou nesta segunda-feira (1º) uma operação contra o Instituto Conhecer Brasil (ICB), organização da sociedade civil suspeita de fraudar um contrato de R$ 108 milhões firmado com a Prefeitura de São Paulo para instalação de pontos de wi-fi gratuito na periferia da capital. Os investigadores apuram indícios de que ao menos R$ 26 milhões foram repassados à entidade sem a devida prestação do serviço, configurando possível desvio de recursos públicos.
"O primeiro elemento de suspeita reside no próprio direcionamento do chamamento público, o qual contou com a participação exclusiva do Instituto Conhecer Brasil."
A operação cumpre sete mandados de busca e apreensão em endereços ligados à empresária Karina Ferreira da Gama, proprietária da ONG e sócia da produtora Go UP, responsável pelo filme "Dark Horse", sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). As buscas também atingiram a sede da Secretaria Municipal de Tecnologia e Inovação, órgão responsável pela gestão do contrato.
Preços acima do mercado e pagamentos antecipados
Um dos pontos centrais da investigação é a discrepância entre os valores cobrados pela ONG e os praticados no mercado. Segundo o inquérito da 2ª Delegacia de Crimes Contra a Administração Pública (DICCA), enquanto a Prodam — empresa pública municipal de tecnologia — cobrava R$ 230 por ponto para implantação e R$ 306 para manutenção mensal, o contrato com o Instituto Conhecer Brasil estipulou pagamento fixo de R$ 1.800 por ponto instalado.
Essa diferença gerou um custo injustificadamente superior para os cofres municipais. Além disso, a Prefeitura realizou repasses mensais à ONG mesmo antes da instalação completa dos 5 mil pontos previstos. Nos meses de julho e agosto de 2024, por exemplo, foram pagos mais de R$ 11 milhões referentes a 3.200 pontos, quando apenas seis deles estavam efetivamente em funcionamento.
O contrato original, firmado em 2024, previa a entrega total dos equipamentos até junho de 2025. Até a presente data, porém, apenas 3.200 pontos foram instalados. Para justificar o atraso, foram assinados três termos aditivos em intervalos curtíssimos, elevando o valor total do acordo para R$ 157,1 milhões.
Notas fiscais canceladas e autoemissão irregular
A apuração policial identificou inconsistências graves nas prestações de contas apresentadas pela ONG. Ao menos R$ 4 milhões em notas fiscais canceladas ou emitidas pela própria entidade para si mesma foram utilizadas para justificar despesas.
Um caso emblemático envolve a empresa Complexsys Soluções Integradas Ltda., contratada pela ONG para serviços técnicos. Em novembro de 2025, a empresa emitiu uma nota fiscal de R$ 2 milhões no sistema da Prefeitura, mas o documento foi cancelado no mesmo dia — fato que não impediu sua inclusão na prestação de contas apresentada em fevereiro deste ano.
Outra irregularidade apontada: o Instituto Conhecer Brasil emitiu notas fiscais contra si próprio, como se tivesse prestado serviço a si mesmo. Um parecer técnico da Secretaria de Tecnologia, datado de fevereiro de 2026, classificou a prática como indevida e apontou ao menos R$ 925 mil em pagamentos em duplicidade. Apesar das ressalvas, a pasta aprovou a prestação de contas "com condicionantes", exigindo a devolução dos valores glosados.
Conexões políticas e o filme "Dark Horse"
A investigação ganha contornos políticos ao revelar que a mesma empresária que comanda a ONG é sócia da produtora do filme "Dark Horse", projeto que tem recebido atenção por seu financiamento controverso. Ambas as entidades — ONG e produtora — operaram no mesmo endereço na Avenida Paulista e, posteriormente, mudaram para a Rua Haddock Lobo, nos Jardins, sem atualização formal nos registros estaduais e federais.
Karina Ferreira da Gama também mantém relações com aliados do bolsonarismo. Em 2022, prestou serviços de consultoria para a campanha do deputado Mário Frias (PL), recebendo R$ 54 mil de sua campanha. Frias, por sua vez, destinou cerca de R$ 2 milhões em emendas parlamentares ao Instituto Conhecer Brasil — transação que também está sob investigação no Supremo Tribunal Federal (STF) por suspeita de falta de transparência.
Subcontratação com empresa de réu por feminicídio
Outro ponto sensível do contrato é a subcontratação da empresa Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda., responsável pela instalação de mais de 900 pontos de internet em favelas da capital. A empresa recebeu mais de R$ 2 milhões da ONG, mas seu proprietário original, Alex Leandro Bispo dos Santos, está preso desde fevereiro acusado de feminicídio.
O contrato inicial, no valor de R$ 12 milhões, foi assinado com a representação apenas como "Alex", sem sobrenome, CPF ou identificação completa. Após denúncias veiculadas por The Intercept Brasil e Metrópoles, a empresa alterou sua sociedade, transferindo o controle para Tatiane Camargo de Oliveira Fernandes, que reside no mesmo endereço do réu. Karina afirmou ao g1 não reconhecer o contrato e levantou a hipótese de fraude documental.
Posicionamentos oficiais e próximos passos
Procurada, a Prefeitura de São Paulo afirmou que colabora com as investigações e que todo o material requisitado já foi encaminhado às autoridades. O prefeito Ricardo Nunes (MDB) declarou que "não constatou nada de irregular no processo", mas garantiu que "tomará todas as providências de forma rigorosa" caso sejam identificadas irregularidades.
A gestão municipal reforçou que o programa de wi-fi funciona normalmente e que o chamamento público de 2024 foi aberto por 30 dias a qualquer entidade interessada, cumprindo todas as exigências legais. A Prefeitura também destacou que o custo estimado para 2026 (R$ 1.280,80 por ponto/mês) é significativamente menor que propostas recebidas em 2022.
A empresária Karina Ferreira da Gama, por sua vez, afirmou desconhecer as notas canceladas mencionadas na reportagem e garantiu que os problemas apontados em prestações de contas "estão sendo resolvidos". Ela também confirmou que ONG e empresas do seu grupo compartilham endereço para "manter o controle sobre as empresas".
Um teste para a governança das parcerias públicas
O caso do Instituto Conhecer Brasil expõe vulnerabilidades no modelo de contratação de organizações da sociedade civil para prestação de serviços públicos. A combinação de preços inflacionados, pagamentos antecipados sem contrapartida, documentação fiscal inconsistente e conexões políticas levanta questionamentos sobre os mecanismos de fiscalização e transparência adotados pela administração municipal.
Se confirmadas as irregularidades, o episódio pode resultar não apenas em responsabilização criminal dos envolvidos, mas também em revisão de protocolos para futuras parcerias. Para o contribuinte paulistano, a questão é direta: recursos públicos destinados a levar conectividade a áreas vulneráveis estão sendo aplicados com eficiência e lisura?
A resposta dependerá do desfecho das investigações em curso — na Polícia Civil, no Ministério Público e, potencialmente, no Judiciário. Enquanto isso, os 1.800 pontos de wi-fi ainda pendentes de instalação permanecem como símbolo de uma promessa que, até agora, não saiu do papel.
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