Operações Enxágue e Catéter miram fundos ligados à QI Tech; fintech nega envolvimento
MPPR e Receita Federal bloqueiam R$ 271,5 milhões em operação contra sonegação de ICMS e lavagem; fundos administrados pela Singulare, da QI Tech, estão no centro do esquema
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- A sede da QI Tech, em São Paulo, foi alvo de busca e apreensão na quarta-feira (4/11), no âmbito das Operações Enxágue (2ª fase) e Catéter, do Ministério Público do Paraná (MPPR), Polícia Civil e Receita Federal.
- As investigações apuram sonegação de ICMS, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro no comércio de sebo e gordura animal usados por indústrias de biodiesel.
- Fundos (FIDCs) administrados pela Singulare, corretora comprada pela QI Tech, teriam sido usados para dar aparência de legalidade a títulos sem lastro.
- Ao todo, R$ 271,5 milhões foram bloqueados, com 64 mandados de busca e apreensão em 28 municípios e 9 mandados de prisão.
- A QI Tech afirma que não é alvo da investigação e que os fatos apurados são anteriores à conclusão da compra da Singulare, em novembro de 2024.
- Por que isso importa: o caso reabre o debate sobre a responsabilidade das administradoras de fundos — e não só das gestoras — na prevenção à lavagem de dinheiro, num momento em que o mercado de FIDCs cresce rapidamente no Brasil.
A fintech QI Tech teve sua sede, em São Paulo, alvo de uma operação de busca e apreensão na quarta-feira (4/11), no âmbito das Operações Enxágue (2ª fase) e Catéter, deflagradas pelo Ministério Público do Paraná (MPPR), pela Polícia Civil e pela Receita Federal. As investigações apuram o envolvimento de fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs) em um esquema de fraude fiscal — e esses fundos eram administrados pela Singulare, corretora cuja compra pela QI Tech foi anunciada em 2023 e concluída em novembro de 2024, com aprovação do Banco Central.
O esquema: notas fiscais falsas e créditos fictícios
Segundo o MPPR, as duas investigações têm como alvo organizações criminosas voltadas à prática de crimes contra a ordem tributária — sonegação de ICMS —, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro no comércio de subprodutos de origem animal, como sebo e gordura, usados como matéria-prima por indústrias de biodiesel e curtumes. O esquema funcionava com empresas de fachada, as chamadas “noteiras”, que emitiam documentos fiscais sem operações reais para simular a compra e venda desses subprodutos e gerar créditos tributários fictícios para usinas de biodiesel. Depois, títulos ligados a essas notas fiscais eram vendidos a fundos de investimento e securitizadoras — dando aparência de legalidade a papéis sem lastro real.
A promotoria paranaense resume a conexão entre as duas operações: “Embora autônomas, as investigações são conexas. Em ambas, foram identificados os mesmos fundos de investimento em direitos creditórios, geridos e administrados pela mesma instituição, utilizados como canais para converter títulos sem lastro em recursos com aparência de legalidade.”
Os números: R$ 271,5 milhões bloqueados
Foram cumpridos 64 mandados de busca e apreensão em 28 municípios do Paraná, São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, além de 9 mandados de prisão. As ordens de sequestro e indisponibilidade de bens somam R$ 271,5 milhões, divididos entre as duas frentes: aproximadamente R$ 143,4 milhões na segunda fase da Enxágue e R$ 128,1 milhões na Catéter — esta última com medidas autorizadas pela 3ª Vara Criminal de Londrina. Entre os bens bloqueados na Catéter estão mais de 30 imóveis (apartamentos, residências, terrenos em condomínios fechados, fazendas e áreas rurais), 79 veículos e uma embarcação motonáutica.
Do total de recursos bloqueados, R$ 63,8 milhões correspondem a cotas de dez FIDCs, e outros R$ 10,9 milhões estão relacionados a quatro companhias securitizadoras.
A análise financeira: quanto foi movimentado pelos fundos
De acordo com a Receita Federal, a análise contou com o apoio do Laboratório de Tecnologia contra Lavagem de Dinheiro (LAB-LD) do MPPR, e examinou as contas de 67 pessoas físicas e jurídicas. A apuração identificou que nove FIDCs administrados pela Singulare repassaram R$ 63,7 milhões a uma empresa investigada, com um retorno de mais de R$ 31 milhões aos próprios fundos ao longo de 645 transações — um movimento de ida e volta que, segundo a investigação, reforça a suspeita de que os fundos serviam como canal de “lavagem” dos títulos sem lastro. Seu texto original cita ainda que “um único FIDC, ligado a um grupo econômico de Maringá, injetou R$ 60 milhões em empresas de fachada” — não encontrei confirmação independente dessa citação específica em outras fontes consultadas; ela aparenta vir originalmente do Valor Econômico, então recomendo manter a atribuição direta ao jornal nessa frase, caso você tenha o link da reportagem original.
O que diz a QI Tech
Procurada, a QI Tech informou que atendeu a uma requisição de documentos de autoridades públicas do Estado do Paraná, no âmbito de investigação sobre operações realizadas por terceiros em fundos administrados pela Singulare. Em nota:
“Os fatos sob apuração referem-se ao período entre 2016 e 2021, anterior à aquisição da Singulare pela QI Tech, concluída em novembro de 2024. Os fundos mencionados têm suas decisões de investimento tomadas por gestores independentes, não integrantes do grupo QI Tech.”
A fintech afirma ainda que seu papel se limitou ao fornecimento das informações solicitadas, e reforça: “A QI Tech não é alvo da investigação e segue operando normalmente, reiterando seu compromisso com a transparência e a cooperação com as autoridades.”
É importante destacar, pelo princípio da presunção de inocência: a QI Tech não consta formalmente como investigada nas Operações Enxágue e Catéter, e as acusações contra terceiros ainda estão em fase de apuração, sem condenação.
Quem é responsável: administradora ou gestora?
Uma fonte com conhecimento do assunto ouvida pelo Valor argumenta que a responsabilidade pelos processos de “know your client” (conheça seu cliente) e de prevenção à lavagem de dinheiro é das gestoras do fundo — que tomam as decisões de investimento —, e não da administradora, papel que a Singulare (hoje sob controle da QI Tech) exercia. É uma distinção técnica relevante para entender o argumento de defesa da fintech: administradoras cuidam da estrutura jurídica e operacional do fundo, enquanto gestoras decidem onde o dinheiro é investido.
O tamanho do problema dentro do universo da QI Tech
Não há, até o momento, detalhes públicos sobre o patrimônio total dos fundos afetados, mas estima-se que representem menos de 1% do total sob administração da QI Tech. Juntos, esses FIDCs tinham mais de 8 mil cedentes — e as empresas formalmente investigadas são 13, uma fração pequena dentro desse universo. Segundo o levantamento, os fundos estariam com documentos atualizados perante a CVM e balanços auditados; não há informação pública sobre o número total de cotistas, mas trata-se de veículos destinados a investidores qualificados, não produtos de varejo com milhares de pequenos investidores.
Um antecedente recente — e não relacionado
Vale registrar, como contexto sobre o histórico recente da fintech com a Justiça: a QI Tech já havia sofrido, antes desta operação, uma derrota em processo na Justiça de São Paulo (TJSP) envolvendo suposto esquema de pirâmide financeira ligado ao grupo Canis Majoris — uma decisão de junho de 2026, que a empresa pretende contestar em recurso. É importante marcar que se trata de um processo totalmente distinto das Operações Enxágue e Catéter, sem relação direta com o caso dos FIDCs da Singulare.
O episódio ilustra uma tensão que deve crescer junto com o mercado de FIDCs no Brasil: a linha entre quem administra a estrutura de um fundo e quem decide onde o dinheiro é investido pode não ser clara para o público, mas tende a ser decisiva nos próximos capítulos dessa investigação — tanto para definir responsabilidades jurídicas quanto para a reputação de instituições que compram carteiras de administração sem necessariamente herdar o histórico de quem usava esses fundos antes da aquisição.
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