Poder e Bastidores

Pablo Marçal: do incômodo ao medo no bojo do bolsonarismo

Por Rodrigo Augusto Prando*

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O clássico Nicolau Maquiavel assevera em “O Príncipe” que sua “intenção [é] escrever coisas que sejam úteis a quem se interesse, [...] ir direto à verdade efetiva da coisa que a imaginação em torno dela”. Maquiavel, portanto, tem a força de apresentar a tese fundamental do realismo político: a política é o que ela é e não o que gostaríamos que ela fosse.

Assim, prezados leitores, vamos, panoramicamente, nos deter à figura política de Pablo Marçal, coach e empresário, que já embaralhou a disputa à prefeitura da cidade de São Paulo, bem como trouxe à tona, em um primeiro momento, incômodo e, agora, medo no bojo do bolsonarismo.

A questão é: o que quer Marçal? O objetivo no curtíssimo prazo é, sem dúvida, ser eleito prefeito de São Paulo e, segundo o próprio Marçal, isso ocorrerá ainda no primeiro turno. De um certo desprezo por sua trajetória, imagem e ideias, Marçal já se encontra, segundo algumas pesquisas, em um empate triplo, dentro da margem de erro, com Guilherme Boulos e Ricardo Nunes. Com isso, há um crescimento consistente de Marçal e queda de Nunes e de Boulos, ambos, segundo se esperava, os protagonistas da repetição da polarização, já que temos bolsonarismo e lulopetismo como as forças apoiadoras dos candidatos.

Marçal, hoje, apresenta-se em uma situação mais confortável de candidato antissistema, contra o establishment, antipolítica e turbinado pelos algoritmos das redes sociais, onde ele é beneficiado por impressionante musculatura comunicacional. Em suas falas e nos debates dos quais participou, usa uma retórica antissistema e também conjuga o conhecimento de anos de coach, empresário e teologia da prosperidade. Ataca todos os candidatos por serem comunistas e ele como sendo o único representante da direita.

O fato é que Marçal traz medo ao universo de Jair Bolsonaro. A retórica e o figurino do candidato não apenas encaixaram na disputa à prefeitura, mas encantam os bolsonaristas em valores que lhes são caros e que, para muitos, já não estão tão próximos de Bolsonaro que, além de derrotado em 2022, está inelegível. Neste sentido, a discussão de quem seriam os herdeiros do espólio político de Bolsonaro (Michele Bolsonaro, Tarcísio de Freitas, Romeu Zema, Ratinho Júnior, Ronaldo Caiado etc.) encontra, agora, um personagem que, ao que tudo indica, pode ser o que o eleitor de direita e da extrema-direita queriam e não conseguiram com Bolsonaro.

Obviamente, há muitas semelhanças entre Marçal e Bolsonaro, mas, para além da superfície, há elementos que os distinguem. Vamos a eles. Marçal é novo e apresenta disposição e vigor físico, Bolsonaro já tem mais idade e problemas recorrentes em sua saúde após a facada; Marçal é, ao mesmo tempo, ator e roteirista em suas redes sociais, tem conhecimento e domínio, Bolsonaro era excelente ator, mas o roteirista das suas redes foi seu filho, Carlos Bolsonaro, e, depois, dezenas de profissionais; Marçal apresenta-se como empresário milionário, vindo de baixo e, não raro, afirma que todos, com ele na política, terão direito de ficar ricos e serão, segundo suas palavras, “abençoados”, Bolsonaro nunca empreendeu, saiu do Exército e adentrou à política e, ainda, tem sua família toda envolvida nas distintas esferas do poder. Essas diferenças, contudo, não significam, como afirma Maquiavel, a verdade efetiva, mas são as imagens construídas e comunicadas.

Marçal, portanto, pode não apenas ocupar o espaço de Bolsonaro, já que o poder não fica órfão, mas trazer significativo percentual de bolsonaristas para seu projeto, até porque os dados indicam que número considerável de eleitores bolsonaristas não votarão em Nunes, candidato de Bolsonaro, e sim em Marçal.

O cenário, assim, pode favorecer substancialmente Marçal e enfraquecer o bolsonarismo original. Já até concedi entrevistas em que é usado o termo “marçalismo”, um bolsonarismo turbinado, mais conhecedor e preciso no uso dos algoritmos das redes sociais. Não espantaria, e isso traz pânico ao bolsonarismo originário, se o ex-presidente e sua família, junto com o PL e Valdemar Costa Neto, fossem jogados na “vala” da velha política, sendo superados por um Marçal ou outro líder hipertrofiado nos valores presentes neste campo político.

As criaturas liberadas pelo bolsonarismo podem devorar seus criadores. Em entrevista à Globo News, Marçal afirmou – ao ser questionado em relação aos recentes conflitos com os bolsonaristas - que a direita não está rachada e que ele chegou até onde chegou sem Bolsonaro, mas que respeita o ex-presidente. Disse desejar que, na direita, tenham-se mil Bolsonaros, mil Pablos Marçais e mil Nikolas Ferreiras. Foi enfático ao asseverar que sua exposição e força nas pesquisas de intenção de voto está naquilo que ele representa: princípio, valores e propósito. E concluiu a resposta ao questionamento dos jornalistas da seguinte maneira: “Eu não quero tomar nada de Bolsonaro, a liberdade não tem dono”.

Marçal lembra a criatura kriptoniana que, no filme “Batman vs. Superman: a origem da Justiça”, cada vez que é atacada fica mais forte. O fim está em uma lança de kriptonita cravada no peito da criatura e que, na sequência, acaba matando Superman. A questão é simples: em uma democracia não se elimina inimigos e não há lanças alienígenas ou soluções mágicas. Suas redes sociais foram tiradas do ar por decisão judicial e a narrativa é de censura; mal foram derrubadas, já há milhares de seguidores em suas novas contas. Jornalistas buscam respostas racionais e desestabilizar Marçal e ele responde com evasivas, piadas e palavras chocantes. Tem dado certo.

A política existe para, entre outras atividades, resolver os conflitos por meio do diálogo, dentro das instituições e à luz da lei. Importante acompanhar essa trajetória de Marçal e seu estilo bolsonarista anabolizado e qual será a escolha do eleitor e a reação das instituições e dos demais atores políticos. Aguardemos.


Rodrigo Augusto Prando é professor e pesquisador do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas (CCSA) da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM). Graduado em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp.