Pesquisa Quaest em Rondônia reacende dúvida sobre os institutos
Levantamento traz Marcos Rogério na frente e Hildon com 10%. Mas Rondônia já viu candidato saltar do 4º lugar ao governo e institutos errarem a leitura da direita
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- A Quaest divulgou em 25 de agosto o levantamento para o governo de Rondônia: Marcos Rogério (PL) lidera com 24%, seguido de Adailton Fúria (PSD), com 21%; Expedito Netto (PT) e Hildon Chaves (União) têm 10% cada.
- Rondônia tem histórico de surpresas: em 2018, Marcos Rocha aparecia em 4º lugar, com 8%, na última pesquisa Ibope — e terminou eleito governador.
- Em 2022, o Ipec projetou 15 pontos de vantagem no 1º turno que viraram menos de 2 nas urnas — e a última pesquisa do 2º turno apontou o candidato errado à frente.
- Nas eleições nacionais de 2022 e na disputa de São Paulo em 2024, também houve descompassos relevantes, quase sempre subestimando o voto de direita.
- Por que isso importa: pesquisa é retrato de um momento, não previsão — e em Rondônia esse retrato já saiu, mais de uma vez, muito diferente do resultado da urna.
A pesquisa Quaest para o governo de Rondônia, divulgada em 25 de agosto, chegou com um recado embutido para quem lê números eleitorais: no Estado, o retrato das pesquisas e o resultado das urnas nem sempre coincidem. O levantamento traz Marcos Rogério (PL) na frente, com 24%, e Hildon Chaves (União) com 10% — mas a própria história recente de Rondônia explica por que projeções de agosto pedem cautela.
O retrato da Quaest em agosto
No cenário estimulado, em que os nomes são apresentados ao eleitor, a corrida ao Palácio Rio Madeira aparece assim: Marcos Rogério (PL), 24%; Adailton Fúria (PSD), 21%; Expedito Netto (PT), 10%; Hildon Chaves (União), 10%; Samuel Costa (PSB), 2%; e Pedro Abib (MDB), 1%. Brancos, nulos e quem não pretende votar somam 10%, e há 22% de indecisos.
Rogério e Fúria estão tecnicamente empatados dentro da margem de erro de 3 pontos percentuais. Num eventual segundo turno entre os dois, o candidato do PL abriria 11 pontos. O Instituto Quaest ouviu 804 eleitores entre 21 e 24 de agosto, com nível de confiança de 95% e registro no TSE sob o número RO-05711/2026. O trabalho foi encomendado pela Rede Amazônica.
São números legítimos e recém-colhidos. O problema não está na pesquisa em si — está na tentação de tratá-la como desfecho. E é aí que Rondônia oferece um acervo de exemplos.
2018: o estreante que aparecia em 4º lugar e virou governador
O caso mais eloquente é recente. Na última pesquisa Ibope antes do primeiro turno de 2018, divulgada dois dias antes da votação, Expedito Júnior (PSDB) liderava com folga, com 43% dos votos válidos. Maurão de Carvalho (MDB) aparecia em segundo, com 18%. E um coronel da reserva, estreante nas urnas, ocupava o quarto lugar com apenas 8%: Marcos Rocha (então no PSL).
O que a urna registrou foi outra coisa. Rocha saltou para cerca de 24% dos votos válidos, garantiu o segundo lugar e a vaga no segundo turno. Semanas depois, venceu com folga: cerca de 66% dos votos válidos, contra 33,66% de Expedito Júnior. Um nome que, na véspera, aparecia em quarto com 8%, terminou governador do Estado.
Em 2018, Marcos Rocha aparecia em quarto lugar, com 8% das intenções de voto, dois dias antes da eleição — e terminou governador.
Não é um detalhe de rodapé. É a demonstração de que, em um ambiente de eleitorado volátil e onda política em curso, a fotografia da pesquisa pode envelhecer em horas.
2022: quinze pontos que viraram menos de dois
Quatro anos depois, o descompasso se repetiu — agora com outro instituto. Três dias antes do primeiro turno de 2022, o Ipec projetava Marcos Rocha (União Brasil) com 40% dos votos válidos e Marcos Rogério (PL) com 25% — uma diferença de 15 pontos. A urna devolveu um quase empate: Rocha com 38,88% e Rogério com 37,05%. A vantagem projetada evaporou para menos de dois pontos, e Rogério terminou 12 pontos acima do que a pesquisa indicava.
Em nota, a própria imprensa especializada reconheceu o tamanho do problema: a maioria dos institutos não conseguiu captar o comportamento do eleitor rondoniense no primeiro turno, sobretudo de quem votou em candidatos de direita.
O segundo turno reservou a última surpresa. A pesquisa Ipec da véspera mostrava Marcos Rogério à frente pela primeira vez, com 52% dos votos válidos, contra 48% de Marcos Rocha. No domingo, o resultado se inverteu: Rocha foi reeleito com 52,47%, contra 47,53% de Rogério. Estava dentro da margem, e o agregado de pesquisas apontava a vitória do governador — mas o levantamento final, isolado, colocou o vencedor no lugar errado.
Um padrão que não é só de Rondônia
O fenômeno extrapola as fronteiras do Estado. Na véspera do primeiro turno presidencial de 2022, a Quaest projetava Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com 49% dos votos válidos, contra 38% de Jair Bolsonaro (PL). A urna deu 48,4% a 43,2%: Bolsonaro terminou cerca de cinco pontos acima do previsto, além da margem declarada. E, por honestidade, o registro completo: o descompasso não foi exclusividade da Quaest — Datafolha, Ipec e Ipespe erraram na mesma direção, subestimando o voto conservador.
Em São Paulo, em 2024, o quadro foi mais matizado. Na véspera do primeiro turno, a Quaest trazia um empate triplo técnico, com Guilherme Boulos (PSOL) numericamente à frente, com 29%, seguido de Ricardo Nunes (MDB), com 28%, e Pablo Marçal (PRTB), com 27%. A urna inverteu o topo: Nunes fez 29,48% e Boulos, 29,07%. No segundo turno, o instituto acertou o vencedor — Nunes, apoiado pela direita —, mas subestimou a margem: projetou algo próximo de 56% a 44% em votos válidos, e o resultado foi 59,4% a 40,7%.
Pesquisa é retrato, não previsão. Mas retratos sucessivos que erram na mesma direção alimentam desconfiança.
Por que as pesquisas erram
Três pontos ajudam a ler os números sem ingenuidade e sem exagero. Primeiro, a margem de erro se aplica a cada percentual individual, e não à diferença entre dois candidatos — daí por que a distância entre os postulantes costuma variar mais do que a margem sugere. Segundo, pesquisa é fotografia de um instante: voto útil, decisão de última hora e migração de indecisos deslocam resultados nos dias finais, e analistas apontam ainda o chamado "eleitor conservador silencioso" como fator recorrente nos erros de 2018 e 2022.
Terceiro, e no sentido inverso, nem todo descompasso é falha grosseira. No segundo turno de Rondônia em 2022, o conjunto das pesquisas indicava corretamente o favoritismo de Rocha, ainda que o levantamento final tenha tropeçado. Metodologias e institutos diferentes produzem números diferentes — em julho, o RealTime Big Data media Marcos Rogério em 36% e Hildon em 13%, patamares distintos dos da Quaest de agosto.
O que isso diz sobre 2026
Nada, ainda, sobre acerto ou erro. A eleição em Rondônia é em 4 de outubro, e nenhum voto foi apurado. A Quaest é uma fotografia legítima de agosto, e nela quem lidera é justamente o principal nome da direita, Marcos Rogério — o que já desautoriza leituras apressadas de "viés". O que a história local recomenda é mais modesto e mais interessante: tratar os 10% de Hildon Chaves, os 21% de Fúria e a própria dianteira de Rogério como um ponto de partida, não como um destino.
Há uma ironia que resume o Estado. Expedito Netto, hoje candidato pelo PT, é filho de Expedito Júnior — o mesmo que, em 2018, liderava com 43% e foi derrotado no segundo turno pelo azarão que aparecia com 8%. Em Rondônia, mais do que em quase qualquer lugar, a pergunta que importa não é quem está na frente em agosto. É quem o eleitor esconde da pesquisa até o dia em que entra na cabine.
Versão em áudio disponível no topo do post.