Petrobras acha hidrocarbonetos no Amapá, mas poço Morpho segue sem definição
Achado no bloco FZA-M-59, a 175 km da costa, ainda não tem volume estimado nem confirmação de viabilidade comercial, diz a estatal.
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- Petrobras identificou hidrocarbonetos por perfis elétricos e indicativos em rocha no poço Morpho, na Bacia da Foz do Amazonas, mas a perfuração continua e não há estimativa de volume.
- O poço fica a 175 km da costa do Amapá e 500 km da foz do rio, em lâmina d'água de 2.886 metros, no bloco que a Petrobras opera com 100% de participação desde 2013.
- A licença ambiental levou quase cinco anos para sair: negada pelo Ibama em 2023, só foi concedida em outubro de 2025 após EIA/RIMA, três audiências públicas e simulado de emergência com mais de 400 pessoas.
- Em fevereiro de 2026, o Ibama barrou pedido da Petrobras para estender a mesma licença a mais três poços da área, batizados Marolo, Maracujá e Manga.
- Por que isso importa: a Margem Equatorial é vista pela Petrobras como sucessora do pré-sal, com US$ 3 bilhões previstos até 2029, mas a decisão comercial sobre o Amapá ainda depende de meses de avaliação técnica.
A Petrobras informou nesta sexta-feira (14) ter identificado a presença de hidrocarbonetos em um poço exploratório na Bacia da Foz do Amazonas, na costa do Amapá. A descoberta ocorreu no bloco FZA-M-59, uma das áreas da Margem Equatorial brasileira, e foi anunciada em comunicado ao mercado.
O poço batizado Morpho (1-BRSA-1405-APS) está localizado a cerca de 175 km da costa do estado do Amapá, em lâmina d'água de 2.886 metros. Segundo dados anteriores da própria companhia, o ponto fica também a 500 km da foz do rio Amazonas. De acordo com a estatal, "o intervalo portador de hidrocarbonetos foi constatado através de perfis elétricos e indicativos em rocha". A companhia afirma que a perfuração ainda está em andamento, com o objetivo de dar continuidade à avaliação exploratória da área, "de forma segura e com respeito ao meio ambiente e às pessoas".
A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, comemorou o resultado preliminar.
"Nosso otimismo em relação à margem equatorial brasileira se confirma hoje. Essa primeira descoberta na costa do Amapá é resultado da dedicação e da competência da Petrobras, que está comprometida com a recomposição das reservas de petróleo e com a segurança energética do país", declarou a presidente da Petrobras.
Apesar do anúncio, a Petrobras não divulgou estimativa de volume nem qualquer indicação sobre a viabilidade comercial da jazida. A companhia é operadora do bloco e detém 100% de participação na área, adquirida na 11ª Rodada de Licitações da Agência Nacional do Petróleo (ANP), em 2013, sob regime de concessão.
Cinco anos de disputa para furar um único poço
O caminho até a perfuração do Morpho foi longo. Em fevereiro de 2023, a equipe técnica do Ibama recomendou negar o pedido de licença por riscos ambientais, e em maio daquele ano o órgão rejeitou formalmente a primeira solicitação da Petrobras. Pelo cronograma da época, a estatal já havia gasto cerca de US$ 174 milhões se preparando para a perfuração, incluindo o afretamento da sonda, que custava cerca de US$ 400 mil por dia.
Para reverter a negativa, a Petrobras fez concessões técnicas. Em abril de 2025, a empresa concluiu a construção de um centro veterinário no município de Oiapoque, no Amapá, destinado a cuidar da fauna silvestre em caso de vazamento de óleo, exigência do Ibama. Em maio daquele ano, o órgão aprovou o plano de emergência para atendimento à vida selvagem, etapa que aproximou a companhia da licença.
A autorização definitiva só veio em 20 de outubro de 2025, com a Licença de Operação (LO) nº 1.684/2025, que autoriza a perfuração marítima do poço Morpho. O processo, segundo o próprio Ibama, envolveu elaboração de Estudo de Impacto Ambiental (EIA/RIMA), três audiências públicas, 65 reuniões técnicas setoriais em mais de 20 municípios do Pará e do Amapá, vistorias em todas as estruturas de resposta à emergência e uma Avaliação Pré-Operacional com mais de 400 pessoas.
Foram quase cinco anos de jornada, nos quais a Petrobras teve como interlocutores governos e órgãos ambientais municipais, estaduais e federais. Segundo o Ibama, o intervalo entre a negativa de 2023 e a aprovação permitiu "significativo aprimoramento substancial do projeto apresentado, sobretudo no que se refere à estrutura de resposta a emergência".
Ibama barra ampliação para mais três poços
A licença concedida em outubro cobre exclusivamente o Morpho — e o Ibama fez questão de deixar isso claro quando a Petrobras tentou ampliar o alcance da autorização. Em parecer técnico enviado em 10 de fevereiro de 2026, o órgão rejeitou a tentativa da estatal de estender a mesma licença para outros três poços exploratórios do bloco 59, afirmando que a LO autoriza um único poço e não pode servir de autorização para novas perfurações.
O pedido de retificação havia sido protocolado em 21 de outubro de 2025, um dia após a obtenção da licença para o Morpho, e buscava incluir os prospectos "contingentes" batizados Marolo, Maracujá e Manga. O parecer foi direto: "Esta Licença de Operação autoriza a perfuração de um poço (Morpho)", e eventuais perfurações em outros prospectos só poderão ser avaliadas "em momento oportuno", mediante nova anuência específica do órgão.
Aposta bilionária inspirada em Guiana e Suriname
O interesse da Petrobras na região tem lastro geológico e estratégico. Segundo a ANP, citada pela imprensa nesta sexta, estima-se haver na Margem Equatorial uma reserva de 30 bilhões de barris de petróleo — um volume que, se confirmado, colocaria a bacia em outro patamar de relevância para o país.
A comparação com os vizinhos é constante entre analistas do setor: a formação geológica da Foz do Amazonas se assemelha à de campos já descobertos na Guiana e no Suriname, onde mais de 11 bilhões de barris de óleo já foram encontrados, atraindo forte interesse exploratório internacional.
A companhia tem tratado a Margem Equatorial como sucessora natural do pré-sal, cuja produção deve atingir o pico até 2030. Levantamentos do setor apontavam, ainda em 2025, que a Petrobras havia alocado US$ 3 bilhões até 2029 para atividades exploratórias na bacia e já havia gasto mais de US$ 185 milhões no rigoroso processo de licenciamento.
O apetite pela região também motivou expansão recente do portfólio: em junho de 2025, a Petrobras adquiriu dez blocos na Bacia da Foz do Amazonas e três na Bacia de Pelotas no 5º Ciclo de Oferta Permanente de Concessão da ANP, em parceria com a ExxonMobil. Em cinco desses blocos a estatal brasileira é operadora com 50% de participação; nos outros cinco, a ExxonMobil assume a operação.
Apoio político e resistência ambiental
A liberação da licença em outubro de 2025 dividiu opiniões. Do lado político, houve comemoração imediata: o então líder do governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), classificou a data como "um dia histórico para o Amapá e para a transição energética em nosso país". O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, também tratou a autorização como vitória institucional para o estado e para os planos energéticos do país.
Do outro lado, ambientalistas mantiveram a cobrança. A liberação ocorreu pouco antes da Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP30), em Belém, motivando protestos devido à exploração de petróleo em áreas com fauna e flora marítimas singulares. A região concentra ecossistemas sensíveis, com recifes de coral e espécies raras, o que sustenta o temor de que um eventual vazamento em águas ultraprofundas tenha efeito transfronteiriço no Atlântico Sul.
O que vem a seguir
Pela própria descrição do processo, a fase atual não envolve produção. Segundo o comunicado da Petrobras à época da liberação da licença, a perfuração da fase inicial tem duração estimada em cinco meses e busca obter mais informações geológicas para avaliar se há petróleo e gás na área em escala econômica — "não há produção de petróleo nessa fase".
O anúncio desta sexta-feira confirma apenas a presença de hidrocarbonetos, não o tamanho da reserva nem se ela é economicamente explorável. Até que a Petrobras conclua a perfuração e as análises petrofísicas, a real dimensão da descoberta na Foz do Amazonas — e se ela justifica a aposta bilionária feita pela estatal na Margem Equatorial — segue em aberto.
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