PF aponta WhatsApp de Vorcaro para fraudar documentos do BRB
Investigação revela grupo usado para ajustar extratos e dar aparência legal a carteiras de crédito vendidas ao banco público, com rombo de bilhões
📋 Em resumo ▾
- Polícia Federal identificou grupo "Info BRB" no celular de Daniel Vorcaro para orientar fraudes documentais
- Conversas mostram ajustes de valores entre R$ 6,4 bi e R$ 7,2 bi em carteiras ligadas à Tirreno
- Documentos com inconsistências foram registrados em cartório e apresentados ao Banco Central
- BRB tem até sexta-feira (29/5) para divulgar balanço com prejuízo das operações
- Por que isso importa: o caso expõe falhas de governança em banco público e pressiona o sistema financeiro regional
A Polícia Federal identificou, no celular do banqueiro Daniel Vorcaro, um grupo de WhatsApp batizado "Info BRB" usado para coordenar a produção de documentos fraudulentos destinados a mascarar operações bilionárias entre o Banco Master e o Banco de Brasília (BRB). As conversas, obtidas com quebra de sigilo autorizada pelo ministro Dias Toffoli, revelam ajustes manuais em extratos, pressão por reconhecimento cartorial e tentativa de dar aparência de legalidade a carteiras de crédito de valor duvidoso.
"Não fecha a conta. Vamos ter que colocar remuneração", escreveu Vorcaro ao subordinado, em mensagem sobre extrato de carteira vendida ao BRB.
O grupo "Info BRB" e a engenharia dos extratos
O grupo era composto por Daniel Vorcaro, Alberto Félix (à época superintendente de tesouraria do Master) e Ângelo Silva (diretor financeiro da instituição). Em 23 de junho de 2025, Vorcaro cobrou o envio de um extrato referente a carteiras de crédito consignado fabricadas pela Tirreno, empresa que investigadores suspeitam ser de fachada e principal origem dos chamados "títulos podres" adquiridos pelo BRB.
Às 18h56, o banqueiro escreveu: "Cadê o extrato". Félix encaminhou o arquivo "Tirreno_junho.pdf". Minutos depois, Vorcaro reagiu: "Pessoal. Saldo não pode ser 6.400!!! Era 7.200. Valor da recompra". Os valores citados correspondem a R$ 6,4 bilhões e R$ 7,2 bilhões.
Manipulação documental e o terceiro valor
O relatório parcial da PF aponta "manipulação do valor final do extrato relativo ao pagamento da Tirreno pelo pagamento dos créditos originados e posteriormente cedidos ao BRB". Chama atenção que o extrato apresentado ao Banco Central registrou um terceiro valor — R$ 6,6 bilhões — distinto tanto dos R$ 6,4 bi quanto dos R$ 7,2 bi discutidos internamente.
A PF destaca que o extrato da conta vinculada ao pagamento das carteiras cedidas "deveria apresentar rendimento ou remuneração indexada ao CDB emitido pelo próprio Banco Master", o que não ocorreu na documentação original.
Pressa cartorial e pendências detectadas pelo BRB
Em conversa de 13 de maio de 2025, Vorcaro enviou aos subordinados uma lista de inconsistências apontadas pelo BRB nas carteiras cedidas. Os dois primeiros itens tratavam da ausência de reconhecimento em cartório dos contratos da Tirreno e do envio desses documentos. Félix respondeu: "Vou pedir para reconhecer firma dos contratos e aí já te enviamos todos".
Outra pendência: comprovar averbações que atestassem o registro formal dos contratos de crédito consignado. Diante da dificuldade, Félix admitiu: "Esse é difícil". A PF observa que a revisão dos contratos por Félix ocorria apenas em maio de 2025, embora os negócios datassem de janeiro do mesmo ano — o que, em tese, exigiria documentação já assinada.
"Não dá pra fazer um mutirão de emissão no fds?", cobrou Vorcaro, demonstrando urgência para regularizar pendências antes de repassar os títulos ao BRB.
O rombo no BRB e o prazo que aperta
As operações apuradas pela PF integram um volume de pelo menos R$ 12,2 bilhões aportados pelo BRB no Banco Master. A compra de títulos de origem duvidosa deixou um rombo bilionário no banco distrital, que tem até a próxima sexta-feira (29/5) para divulgar seu balanço financeiro — documento que deverá explicitar o prejuízo decorrente dessas operações.
O caso ganha contornos políticos porque envolve um banco público de capital misto, com participação do Governo do Distrito Federal, e porque ocorre em meio a negociações de delação premiada de Vorcaro e à liquidação do Banco Master pelo Banco Central.
O que está em jogo além do balanço
Para o leitor nacional, o caso do BRB não é apenas um episódio regional. Ele expõe vulnerabilidades recorrentes na governança de instituições financeiras com controle estatal, na fiscalização de operações de grande porte e na capacidade de órgãos de controle anteciparem esquemas complexos de engenharia financeira.
A pergunta que fica: como carteiras de crédito em valores bilionários, originadas por uma empresa suspeita de ser de fachada, conseguiram transitar entre instituições reguladas sem barreiras mais efetivas de due diligence?
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