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PF mira delegado e clã Haidar: veja a lista completa de alvos da Ifrit

PF e Receita Federal miram o clã Haidar e um delegado da elite policial de MS por tráfico internacional ligado ao PCC; veja os 29 alvos e os desdobramentos

PF mira delegado e clã Haidar: veja a lista completa de alvos da Ifrit
📷 Reprodução
📋 Em resumo ▾
  • A Operação Ifrit, da Polícia Federal e da Receita Federal, mirou uma organização que teria movimentado mais de R$ 500 milhões em dois anos com tráfico de drogas e armas na fronteira entre Ponta Porã (MS) e o Paraguai.
  • A cúpula é apontada como um núcleo familiar — o clã Haidar — com ligações suspeitas ao PCC e ao PGC, e rotas que chegavam a Espanha e Portugal.
  • O delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa, ex-chefe da Denar, é apontado como o principal elo entre a polícia e o esquema — e teria lucrado R$ 15 milhões revendendo cocaína apreendida pela própria corporação.
  • Foram cumpridos 76 mandados de busca e apreensão, 25 de prisão preventiva e 1 de prisão temporária, em sete estados.
  • Por que isso importa: o caso expõe, com provas de bastidor (fotos, selfies, código de propina em árabe), como uma estrutura familiar teria cooptado policiais para transformar uma delegacia especializada em operador do próprio tráfico que deveria combater
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A Polícia Federal (PF), em conjunto com a Receita Federal, deflagrou na última quarta-feira (4/11) a Operação Ifrit, mirando uma organização criminosa transnacional que, segundo as investigações, movimentou mais de R$ 500 milhões em dois anos com tráfico internacional de drogas e armas, lavagem de dinheiro e desvio de cocaína apreendida pela própria polícia. No centro do esquema está o clã Haidar, família de origem libanesa radicada em Ponta Porã (MS), cidade na fronteira com o Paraguai, e um delegado de elite da Polícia Civil sul-mato-grossense.

A hierarquia do clã Haidar

Segundo a investigação, a cúpula decisória era dividida entre parentes. Adel Hassan Haidar é descrito pela PF como peça central, com controle dos núcleos de comando, operacional e financeiro — e como o principal elo da família com o delegado investigado. Seu irmão, Bassam Hassan Haidar Ahmed, é apontado como figura histórica do grupo, responsável pelo contato com fornecedores estrangeiros de armas e cocaína no Paraguai e pela administração de imóveis e empresas usadas para ocultar patrimônio. Um terceiro irmão, Nasser Hassan Haidar, atuaria no financiamento das operações e na administração de recebimentos internacionais via casas de câmbio paraguaias.

Da esquerda para direita, Adel Hassan Haidar, Adule e Maroan Haidar -Da esquerda para direita, Adel Hassan Haidar, Adule e Maroan Haidar

Também aparecem no núcleo de comando Adule Vasques Haidar, filho de Adel, apontado como “homem de confiança” dos tios e responsável por coordenar o transporte de drogas por rodovias e os pagamentos de propina; e Maroan Fernandes Haidar Ahmed, primo da família, que já está preso no sistema penitenciário federal — ele foi condenado em janeiro de 2025 a 21 anos e seis meses de prisão pelo Tribunal do Júri de Rondonópolis (MT), pelo assassinato de Fábio Batista da Silva. Mesmo encarcerado, segundo a PF, Maroan teria continuado emitindo ordens sobre negociação de drogas, compra de fuzis e pistolas e cobrança de dívidas, por meio de conversas em parlatório e bilhetes.

Completam a lista de familiares citados Fahd Haidar, de 25 anos, filho de Nasser, apontado como operador financeiro — ele vivia em uma casa de alto padrão em Ponta Porã e é proprietário de um centro hípico na cidade — e Mamede Alhaj Haidar, ligado ao núcleo operacional e de logística.

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Delegado Hoffman D’Ávila Cândido. — Foto: PCMS.

Delegado Hoffman D’Ávila Cândido. — Foto: PCMS

O delegado que vendia a própria droga que apreendia

O nome que conecta o clã ao Estado é o do delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa, ex-titular da Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico) e policial há 17 anos — começou como escrivão em Goiás e ingressou como delegado na Polícia Civil de MS em 2014. Ele já estava presoe desde setembro, quando o Ministério Público de MS, via Gaeco, deflagrou a Operação Infiltrados, que apurava desvio de drogas apreendidas pela própria Denar. A Ifrit é a segunda vez, em menos de dois meses, que Hoffman é alvo de uma operação — agora com um novo mandado de prisão preventiva, que o levou a um presídio federal de segurança máxima.

Segundo a PF, Hoffman teria lucrado ao menos R$ 15 milhões revendendo cerca de duas toneladas de cocaína desviadas do próprio depósito da Denar, vendendo cada quilo por valores entre R$ 8,5 mil e R$ 10,5 mil. Entre os bens que teria acumulado estão uma mansão no condomínio Alphaville, em Campo Grande, um sítio em Pirenópolis (GO) e uma frota de veículos.

A PF também encontrou registros de proximidade social entre o delegado e integrantes do clã: fotos de festas com karaokê, selfies e abraços. Em um episódio datado de 25 de julho de 2021, Adule Haidar enviou a outro integrante do grupo uma selfie em frente a uma viatura da Garras — nela apareciam os policiais Andrey Elesbão e Douglas Silva, também investigados — com a legenda: “Polícia parou aqui, kkkkkkkkkkk”. Nas planilhas financeiras apreendidas, a organização usava a palavra árabe “askari” (que significa “militar”) como código contábil para registrar os pagamentos de propina a policiais — numa delas, do dia 10 de fevereiro de 2025, aparece um valor de R$ 800 mil movimentado em um único dia.

A defesa de Hoffman, em nota enviada à imprensa, afirma: “Até o presente momento, a Defesa ainda não teve acesso integral aos autos, à decisão que fundamentou a nova custódia nem aos elementos probatórios que embasaram as medidas. Diante disso, qualquer manifestação sobre o mérito seria prematura. Assim que houver acesso completo ao procedimento, a Defesa realizará a análise técnica do caso e adotará todas as medidas processuais cabíveis, assegurando o pleno exercício do contraditório e da ampla defesa.”

É importante reforçar, pelo princípio da presunção de inocência: as acusações contra Hoffman e os demais investigados ainda não configuram condenação, e todos têm direito a ampla defesa no curso do processo.

Um esquema identificado antes, mapeado e vigiado

A Ifrit não nasceu do zero. A PF afirma ter identificado ao menos 12 grandes apreensões de drogas e armas entre 2022 e 2026, ligadas ao PCC (Primeiro Comando da Capital) e ao PGC (Primeiro Grupo Catarinense), antes de deflagrar a operação — ao todo, a investigação soma 2,5 toneladas de cocaína e 8 toneladas de maconha apreendidas, além de armamento. O levantamento também atribui ao grupo um episódio de violência extrema: o sequestro e tortura de três paraguaios, em julho de 2025.

Também são investigados, além de Hoffman, outros policiais: o investigador Andrey Elesbão Silva, afastado das funções após a prisão preventiva; o policial civil Douglas Tobias, que já havia sido alvo da Operação Infiltrados junto com Hoffman; mais um policial civil e um militar de Mato Grosso do Sul; e um policial rodoviário federal aposentado do Mato Grosso. Segundo a PF, esses agentes forneciam informações sigilosas sobre rivais do grupo e ajudavam a monitorar pessoas, veículos e locais de interesse dos investigados, em troca de dinheiro ou bens.

O alcance territorial — e uma divergência a esclarecer

Segundo o material judicial de sequestro de bens, a organização atuava a partir de Ponta Porã, com operações em Campo Grande e também em Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Goiás e Mato Grosso — além de conexões internacionais com Paraguai, Bolívia, Argentina, Peru, Espanha e Portugal. Já a execução dos mandados da Operação Ifrit em si, segundo a Justiça Federal (3ª Vara Federal de Campo Grande) e múltiplos veículos de MS, ocorreu em sete estados: Mato Grosso do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Mato Grosso, Goiás e Rondônia. Ou seja, são dois dados diferentes — o alcance de atuação da organização (que inclui o Rio Grande do Sul) e os estados onde a Justiça autorizou o cumprimento de mandados nesta fase da operação (que inclui São Paulo e Rondônia, não citados na lista de atuação). Mantemos essa distinção clara para não gerar confusão entre os dois dados.

Ao todo, foram cumpridos 76 mandados de busca e apreensão, 25 de prisão preventiva e 1 de prisão temporária, além de 3 medidas de monitoramento eletrônico e o afastamento de três policiais civis de Mato Grosso do Sul. Entre os bens apreendidos: uma caminhonete L200 Triton, armas, munições, dinheiro em espécie, dólares e um relógio Rolex dourado guardado em uma caixa.

📋 OS 29 ALVOS DA OPERAÇÃO IFRIT


  1. Adel Hassan Haidar
  2. Adule Vasques Haidar
  3. Andrey Elesbão Silva
  4. Bassam Hassan Haidar Ahmed
  5. Brendo Benega Pereira
  6. Bruno Banega
  7. Bruno Leonardo Bergamasco
  8. Daniel Ecleverson da Silva Barbosa
  9. Daniel Jonatas Ferreira
  10. Douglas Tobias
  11. Eduardo Greco
  12. Fahd Haidar
  13. Hector Salinas Esquivel
  14. Hoffman D’Ávila Candido e Sousa (delegado)
  15. Ireneo Ramom Acosta
  16. João Fernando Andrade de Carvalho
  17. Jorge Adalid Granier Ruiz
  18. José Miguel Vela Caprioli Junior
  19. Mamede Alhaj Haidar
  20. Maroan Fernandes Haidar Ahmed
  21. Nasser Haidar
  22. Pedro Henrique Flores Camargo
  23. Rafael Rodas Neto
  24. Renan Braiana Garcia Presotto
  25. Salazar José Batista
  26. Valdeson Pereira dos Santos
  27. Valter Ulisses Martins Silva
  28. Victor Hugo Santos Queiroz
  29. Vitor da Silva


O caso Ifrit expõe uma dinâmica incomum até para o padrão de operações contra o crime organizado na fronteira: não é apenas um grupo familiar estruturado internacionalmente, mas uma aliança registrada em fotos, apelidos e um código contábil em árabe com agentes do próprio Estado responsáveis por combater esse tipo de crime. A manutenção das prisões preventivas pela Justiça Federal nos dias seguintes à operação — caso de Fahd Haidar — sugere que o processo deve se estender por meses, com fases adicionais de apuração patrimonial e, possivelmente, novos desdobramentos envolvendo os que ainda constam como foragidos.


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