PF quer ouvir Léo Dias em inquérito sobre influenciadores do Banco Master
Investigação apura se Banco Master financiou campanha coordenada contra o Banco Central; depoimento do comunicador foi adiado após defesa alegar falta de acesso aos autos
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- A Polícia Federal marcou oitiva de Léo Dias para quinta-feira (30), mas a defesa confirmou o adiamento por falta de acesso aos autos do inquérito
- Investigação apura se aportes do Banco Master ao grupo de comunicação tiveram como objetivo financiar ataques coordenados contra o Banco Central após a liquidação da instituição
- Dados da Receita Federal revelam vínculos societários entre Thiago Miranda, da Agência MiThi, e empresas do grupo Léo Dias, incluindo CNPJs com o mesmo número de telefone registrado
- Por que isso importa: O desdobramento pode esclarecer se houve uso de recursos de instituição financeira sob investigação para influenciar a opinião pública e interferir em apurações oficiais — prática que, se confirmada, configura obstrução de Justiça
A Polícia Federal quer ouvir o comunicador Léo Dias no inquérito que investiga a atuação de influenciadores digitais no caso Banco Master. A oitiva, inicialmente marcada para quinta-feira (30), foi adiada após a defesa do jornalista informar que os advogados ainda não tiveram acesso integral aos autos do processo.
"Os investigadores querem saber se há relação do Master com o grupo Léo Dias, se o banco aportou dinheiro no grupo, e por qual motivo." — Polícia Federal
A apuração, autorizada pelo ministro Dias Toffoli no Supremo Tribunal Federal, examina se o Banco Master, sob comando de Daniel Vorcaro, financiou uma campanha coordenada nas redes sociais para atacar o Banco Central após a liquidação extrajudicial da instituição, decretada em novembro de 2025.
O que a PF investiga: dinheiro, influenciadores e obstrução
O núcleo da investigação não se limita à contratação de criadores de conteúdo. Os policiais buscam elementos que caracterizem obstrução de Justiça — crime previsto na Lei de Organizações Criminosas, com pena de três a oito anos de reclusão.
A hipótese levantada pelos investigadores é a de que recursos do Master tenham sido usados para:
- Contratar influenciadores com perfis de direita para disseminar narrativas favoráveis ao banco e críticas à atuação do BC;
- Distorcer fatos sobre a liquidação extrajudicial, sugerindo que a decisão teria sido "precipitada" ou politicamente motivada;
- Criar um ambiente de desinformação orquestrada capaz de pressionar autoridades e influenciar a opinião pública durante fase sensível da investigação.
Influenciadores como Rony Gabriel e Juliana Moreira Leite já relataram publicamente ter recebido propostas para produzir esse tipo de conteúdo, com contratos de três meses e cachês que chegavam a R$ 7,8 mil por publicação inicial.
Thiago Miranda: o elo entre agência, grupo de comunicação e o inquérito
A figura central na apuração dos contratos com influenciadores é Thiago Miranda, proprietário da Miranda Comunicação, também conhecida como Agência MiThi. Segundo a PF, há indícios de que Miranda tenha sido o intermediário na contratação dos criadores de conteúdo.
Dados públicos da Receita Federal apontam vínculos formais entre Miranda e o grupo de Léo Dias:
- Thiago Miranda é sócio-administrador da Miranda Comunicação;
- Ele também figura como administrador da Léo Dias Comunicação e Jornalismo S.A.;
- Até 2025, foi administrador da Léo Dias Comunicação e Jornalismo Ltda SCP VTG.
Um mesmo número de telefone aparece registrado nos CNPJs de ambas as empresas. No WhatsApp, esse número está vinculado a um perfil com a inscrição "Leo Dias de Comunicação - Financeiro".
"A assessoria afirma que Thiago Miranda continua sócio do Grupo Léo Dias e que Daniel Vorcaro, dono do Master, é investidor." — Nota do Grupo LeoDias de ComunicaçãoO Grupo LeoDias, por meio de nota oficial, esclareceu que a Agência MiThi "não possui qualquer relação com o portal LeoDias" e que Miranda deixou funções de gestão na empresa em junho de 2025, com processo de transferência de sua participação societária em andamento desde o final do ano passado.
R$ 9,9 milhões: o valor que conecta Léo Dias ao Banco Master
Além dos vínculos societários, há um dado financeiro que chamou a atenção dos investigadores: uma empresa ligada a Léo Dias recebeu ao menos R$ 9,9 milhões diretamente do Banco Master entre fevereiro de 2024 e maio de 2025, conforme relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras.
Esse montante não foi divulgado como contrato de publicidade ou prestação de serviços jornalísticos convencionais. A origem e a contrapartida desses recursos são, justamente, um dos pontos que a PF busca esclarecer na oitiva de Léo Dias.
A defesa do comunicador sustenta que os valores correspondem a investimentos legítimos de Vorcaro no grupo, sem contrapartidas editoriais. Já a investigação examina se esses aportes tiveram como contrapartida a produção de conteúdo favorável ao banco ou a ataques coordenados contra instituições reguladoras.
O adiamento da oitiva e o direito de defesa
O depoimento de Léo Dias estava agendado para quinta-feira (30 de abril), mas foi remarcado após a defesa alegar que os advogados não tiveram acesso tempestivo aos autos do inquérito. A nova data está sendo definida pela Polícia Federal.
O mesmo motivo — falta de acesso integral aos autos — levou ao adiamento de outras oitivas no âmbito do caso Master. A questão do sigilo e do acesso da defesa a elementos de prova é sensível em investigações de grande repercussão e tem sido objeto de debate entre a Procuradoria-Geral da República e o Supremo Tribunal Federal.
Thiago Miranda, por sua vez, já havia sido intimado a depor, mas teve sua oitiva adiada por motivos de saúde — ele passou por uma cirurgia recente.
Por que este inquérito importa para além do caso Master
A investigação sobre a suposta contratação de influenciadores pelo Banco Master não é apenas um desdobramento do caso de fraude financeira. Ela toca em uma questão estrutural da democracia digital: o uso de recursos de instituições sob investigação para financiar campanhas de desinformação contra órgãos de controle.
Se confirmada a hipótese de que recursos do Master foram usados para distorcer fatos sobre a atuação do Banco Central, o caso pode estabelecer um precedente importante sobre os limites da liberdade de expressão quando financiada por entidades com interesses diretos em processos judiciais e administrativos.
Além disso, a apuração testa a capacidade das instituições de investigar esquemas que operam na fronteira entre comunicação, marketing digital e interferência em processos oficiais — um desafio crescente em um ecossistema midiático cada vez mais fragmentado e monetizado por engajamento.
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