PF traz do Paraguai jato de R$ 120 milhões ligado a Vorcaro
Gulfstream apreendido em Assunção pertence a empresa de Vorcaro e retornou ao Brasil neste domingo; PF já rastreia outros bens do banqueiro em três países
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- Jato Gulfstream GV-SP (PR-PSE), avaliado em R$ 120 milhões, foi localizado pela PF em Assunção e trazido ao Aeroporto Internacional de Brasília.
- A aeronave estava registrada em nome da Viking Participações, uma das dez empresas usadas por Daniel Vorcaro (Agência Brasil, O Tempo).
- Vorcaro segue preso preventivamente desde março no 19º Batalhão da PM do DF (Papudinha) e teve duas propostas de delação rejeitadas pela PF.
- STF autorizou em julho o rastreamento internacional de seus bens; Operação Compliance Zero já bloqueou cerca de R$ 27,71 bilhões em ativos (Agência Brasil).
- Por que isso importa: o caso expõe a extensão internacional do esquema que levou à liquidação do Banco Master e ao maior rombo da história do Fundo Garantidor de Créditos.
A Polícia Federal localizou neste sábado (15) em Assunção, capital do Paraguai, um jato Gulfstream GV-SP de matrícula PR-PSE vinculado ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. A aeronave, avaliada em R$ 120 milhões, retornou ao Brasil neste domingo (16) e pousou no Aeroporto Internacional de Brasília, onde ficará à disposição da Justiça.
A operação contou com apoio da Adidância da PF no Paraguai e da Secretaria Nacional Antidrogas paraguaia (SENAD/PY). Após tratativas com as autoridades locais, o avião foi liberado para retornar ao território brasileiro e será submetido às medidas judiciais determinadas no âmbito da Operação Compliance Zero.
Empresa de fachada usada para blindar o patrimônio
Segundo apurado pela reportagem, o avião estava registrado em nome da empresa de gestão patrimonial Viking Participações LTDA, uma das 10 companhias de Vorcaro. A pulverização de bens em múltiplas empresas é um dos pontos centrais da investigação sobre o esquema que, segundo a PF, teria sido arquitetado para mascarar o real patrimônio do banqueiro diante de credores e reguladores.
A localização da aeronave não é um episódio isolado. A PF também realiza cooperação policial e jurídica internacional em pelo menos três países para localizar outros bens de Vorcaro no exterior. O movimento ganhou respaldo formal do Judiciário no fim de julho: o ministro André Mendonça, do STF, autorizou a Polícia Federal a rastrear bens e recursos no exterior do ex-banqueiro, e com a decisão o governo brasileiro acionará mecanismos de cooperação internacional para obter informações sobre bens e recursos ilegais possivelmente transferidos para fora do país.
Preso há mais de cinco meses, sem acordo fechado
Daniel Vorcaro está preso preventivamente no 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, o Papudinha, e teve duas propostas de delação premiada rejeitadas pela Polícia Federal. Segundo os investigadores, o ex-banqueiro não apresentou informações inéditas em relação às provas já reunidas e também não admitiu a prática de crimes nas tentativas anteriores.
Reportagens recentes indicam que a defesa não desistiu do caminho da colaboração. Preso pela segunda vez desde março, Vorcaro reforçou sua equipe jurídica para tentar destravar uma nova proposta de colaboração premiada — a terceira desde que se tornou alvo das investigações —, e apostou em reconstruir a relação com as autoridades, com uma reunião prevista entre seu novo advogado e o ministro André Mendonça, relator do caso no STF.
"As investigações se fundam em fato inexistente", afirmou a defesa de Vorcaro em nota após a primeira prisão, em novembro de 2025.
Da prisão à liquidação: como o esquema veio à tona
O Banco Master foi liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central em novembro de 2025, no mesmo dia em que a PF prendeu Vorcaro pela primeira vez, quando ele tentava deixar o país. Na primeira etapa da Compliance Zero, em 18 de novembro de 2025, Daniel Vorcaro, então com 42 anos, foi um dos sete presos, entre eles o ex-CEO Augusto Ferreira Lima. O rombo é considerado o maior já registrado pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), estimado em cerca de R$ 41 bilhões segundo o próprio fundo.
Seis meses após a deflagração, o balanço oficial mostrava a dimensão da apuração: as provas reunidas motivaram o Poder Judiciário, sobretudo o STF, a decretar 21 prisões temporárias ou preventivas, incluindo a do próprio banqueiro, além de 116 mandados de busca e apreensão e bloqueios de bens em valores próximos a R$ 27,71 bilhões. A investigação apurou que títulos de crédito sem lastro financeiro foram vendidos ao Banco de Brasília (BRB) e, após fiscalização do Banco Central, substituídos por outros ativos sem avaliação técnica adequada.
Relator trocado e prisões em cascata
O caso já teve dois relatores no STF. O ministro Dias Toffoli conduziu a fase inicial, mas foi afastado após suspeitas de proximidade com o banqueiro — episódio que incluiu uma viagem em jato particular a Peru na companhia do advogado de um diretor de compliance do Master. O caso passou então para André Mendonça, sob quem Vorcaro foi preso pela segunda vez. A terceira fase da Compliance Zero foi deflagrada em 4 de março de 2026, quando o ex-banqueiro, que já havia ficado 11 dias preso na primeira fase, voltou à prisão por ordem de Mendonça. Um juiz citou "forte indício" de que Vorcaro tentou subornar um ex-diretor do Banco Central com presentes em troca de tratamento preferencial, e um painel do STF manteve a prisão em março.
As fases seguintes ampliaram o alcance da investigação. Na quarta fase, deflagrada em 16 de abril de 2026, a PF passou a examinar aportes que somariam R$ 16,7 bilhões realizados pelo BRB em operações ligadas ao Banco Master entre 2024 e 2025. O caso também revelou um núcleo interno apelidado de "A Turma", responsável por ações de vigilância e intimidação contra adversários do grupo — um dos investigados dessa estrutura, identificado como "Sicário", morreu sob custódia pouco depois de preso, em episódio que a PF classificou como suicídio.
Uma teia que chegou ao Congresso e ao Judiciário
A investigação também atingiu figuras de peso na política nacional. Documentos da PF apontam que o senador Jaques Wagner (PT-BA), então líder do governo Lula no Senado, teria recebido vantagens indevidas em troca de atuação no Congresso. O ex-ministro Ciro Nogueira (PP), presidente nacional do partido, também foi alvo da operação, à luz de suspeitas de corrupção e lavagem de dinheiro. Há ainda o financiamento bilionário do filme "Dark Horse", sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, negociado entre Vorcaro e Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
O avião localizado em Assunção é hoje o retrato mais recente da tentativa de blindagem patrimonial que a Justiça brasileira tenta desmontar peça por peça. Com autorização para rastrear ativos em pelo menos três países e uma nova rodada de negociação por delação em curso, o desfecho do caso Vorcaro segue em aberto — e cada bem recuperado no exterior reacende a pergunta sobre quanto do rombo bilionário do Master ainda está fora do alcance da Justiça brasileira.
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