Por uma nova cultura democrática
Por Victor Missiato*

O atual cenário das eleições paulistanas apresenta um total esvaziamento da política como um espaço de representação democrática e republicana. Em nenhum debate eleitoral com mais de duas horas houve sequer um enfrentamento de ideias em torno de pautas fundamentais para um dos principais centros urbanos do mundo.
A cidade, que anteriormente apresentou uma importante alternativa pendular, com prefeitos homens e mulheres, brancos, pardos e negro, com posições de esquerda, direita e centro, está presa a um conjunto diverso de acusações levianas, agressões verbais e físicas, que transformam o espaço político em um palco de barbaridades e maus exemplos.
A violenta reação do candidato do PSDB, o apresentador José Luiz Datena, ao deferir um golpe com sua cadeira contra o candidato do PRTB, o empresário Pablo Marçal, sinalizou o ápice da separação entre liberdade e fraternidade nas condições de igualdade em um debate eleitoral. Por outro lado, as constantes acusações inverossímeis de Marçal demonstram o total desapreço pelo fortalecimento da cidadania no Brasil.
Evidente, portanto, que o efeito Pablo Marçal prejudicou o desenvolvimento cívico do debate eleitoral paulistano, mas isso está longe de responder todo esse drama. Trata-se de algo que, inclusive, preocupa cidadãos que residem em países com larga tradição democrática e republicana.
No livro A contrademocracia: a política na era da desconfiança, recentemente traduzido e publicado pela editora Ateliê de Humanidades, Pierre Rosanvallon afirma que vivemos uma “impolítica contemporânea”, marcada por um afastamento entre o universo democrático e o político.
De acordo com o historiador e intelectual francês, após as confrontações contra os regimes totalitários do século XX, o ideal democrático foi reduzido a uma simples realização de um regime protetor das liberdades básicas, longe de abranger a ambição dos antigos em estabelecer uma soberania efetivamente popular. Somada a uma irracionalidade consumista, que abala até os fundamentos clássicos da sociedade de mercado, o tempo da política não acompanha o tempo de sua própria sociedade.
Petrificada em seus conceitos, quando suas vozes eram hegemônicas no debate republicano, a opinião pública também não consegue reagir a essa era hipermoderna da política. As reações dos entrevistadores ao efeito Marçal demonstram isso. Entre selfies e cortes, a fragmentação do real vem afastando o olhar horizontal da esfera pública em detrimento de um liberalismo sem liberdade, pois o direito ao contraditório vem se tornando crime, segundo nossos juízes inspirados em Robespierre.
Diante de tamanha paralisia, espanto e baixaria é fundamental recriarmos nossa esfera pública e repensarmos a atuação cidadã na sociedade civil. Um dos caminhos é a formação de uma cultura cidadã digital, que ainda não se fez presente na modernidade. Embora todos os políticos possuam redes sociais e canais de debate, as prefeituras, governos e demais instâncias representativas pouco oferecem espaços virtuais para a construção de políticas públicas, baseadas em participações cidadãs.
Não se trata de criar um regime plebiscitário, facilmente exposto às tentações populistas, mas estabelecer um novo vínculo entre eleitor, cidadão e cultura republicana nos bairros, cidades e regiões brasileiras. Trata-se, portanto, de federalizar o acesso digital do cidadão e reconectá-lo a uma Ágora moderna, deliberando e participando de decisões que não mais fiquem restritas a assembleias de vereadores e deputados.
Fotografar problemas urbanos, estabelecer prioridades e discutir orçamento significa trazer a política para o olhar do cidadão. Essa perspectiva, ao invés de enfraquecer a democracia representativa, redimensiona sua importância ao ponto de trazer também a responsabilidade para o indivíduo, que busca cada vez mais autonomia enquanto cidadão.
Victor Missiato é professor de História do Colégio Presbiteriano Mackenzie (CPM) Tamboré, Dr. em História e analista político