Poder e Bastidores

Quando um comportamento sexual pode ser considerado fora de controle?

Por Dra. Pebble Kranz e Daniel Rosen*

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Um homem de 25 anos procura atendimento com uma distensão muscular. Você pergunta se ele tem mais alguma coisa para discutir. Timidamente, ele diz que faz uso de pornografia e está preocupado com isso.

Uma mulher de 45 anos, lutando contra a depressão, procura persistentemente sexo fora de seu relacionamento de longa data. Seu parceiro está ameaçando ir embora. Ela fica arrasada e diz que não entende seu próprio comportamento.

Esses pacientes têm algum tipo de dependência sexual? Como deve intervir um médico da atenção primária? O encaminhamento para um programa para dependência sexual é a escolha certa? Existem outras opções? Um diagnóstico – deixe de lado o tratamento – é possível ou correto?

“Quem você está chamando de ‘anormal’?”

Normal não é um conceito significativo no comportamento sexual humano. Para o terapeuta sexual Dr. Marty Klein: “Normal é apenas uma configuração na secadora”.

O mesmo acontece entre os parceiros: o que é “normal” para uma pessoa em uma relação sexual pode ser desagradável para a outra. Nas relações de casais, existem diferenças relacionadas a todos os tipos de assuntos, desde finanças até a criação dos filhos e como programar a máquina de lavar louça. Por que o sexo, o desejo sexual e a frequência sexual deveriam ser diferentes?

Lembre-se: a vergonha, o medo e o sigilo muitas vezes desempenham um papel na perpetuação de comportamentos que causam sofrimento. Ajudar os nossos pacientes a aceitarem-se e a abraçarem-se por inteiro pode ser um tratamento importante, aliviar a ansiedade e pode até ajudá-los a regular as suas ações. Sentir menos vergonha, medo e necessidade de sigilo pode ajudar a fazer escolhas mais seguras sobre sexo, bem como a buscar diagnóstico e tratamento para infecções sexualmente transmissíveis.

A Classificação Internacional de Doenças CID-11 inclui o transtorno de comportamento sexual compulsivo como uma tentativa de criar consenso sobre um problema complicado e muito debatido, a fim de facilitar o diagnóstico e a pesquisa. Síndromes semelhantes ao transtorno de comportamento sexual compulsivo tiveram muitos nomes: “transtorno hipersexual”, “vício sexual”, “compulsividade sexual” e “comportamento sexual descontrolado”. Um grupo considerável da comunidade de pesquisa em sexualidade lança dúvidas sobre se o transtorno de comportamento sexual compulsivo é mesmo um diagnóstico discreto.

De acordo com a CID-11, o transtorno de comportamento sexual compulsivo é caracterizado por “impulsos ou urgências sexuais intensos e repetitivos que são sentidos como irresistíveis ou incontroláveis” e resultam em sofrimento significativo ou comprometimento funcional.

Para firmar o diagnóstico, é preciso considerar vários pontos importantes. Primeiro, devem-se excluir as parafilias, definidas como um conjunto de comportamentos e interesses sexuais não consensuais. Segundo, o sofrimento relacionado exclusivamente ao julgamento moral ou à desaprovação social não é suficiente para um diagnóstico de transtorno de comportamento sexual compulsivo.

Por fim, o diagnóstico depende do sofrimento causado por qualquer tipo de comportamento sexual, e não da sua frequência. Algumas pessoas têm sofrimento significativo devido a comportamentos nos quais se envolvem com pouca frequência, enquanto outras podem não sentir sofrimento devido a atividades nas quais se envolvem com bastante frequência.

Em um estudo realizado na Alemanha, 5% dos homens e 3% das mulheres preencheram os critérios de transtorno de comportamento sexual compulsivo. Um pequeno estudo nos EUA constatou uma porcentagem de 10% e 7%, respectivamente. O diagnóstico não é simples. O comportamento sexual compulsivo pode ser secundário a outras doenças clínicas ou transtornos de saúde mental. Comportamentos às vezes confundidos com transtorno de comportamento sexual compulsivo podem resultar de doenças neurológicas, como lesões cerebrais frontais ou demência frontotemporal, bem como do uso de substâncias e medicamentos que aumentam a atividade dopaminérgica.

A perda de controle sobre os impulsos sexuais ocorre em episódios maníacos e hipomaníacos. O comportamento sexual compulsivo frequentemente ocorre concomitantemente com transtornos de humor, transtorno obsessivo-compulsivo, transtorno de déficit de atenção/hiperatividade e transtornos por uso de substâncias. Os indivíduos que atendem aos critérios de transtorno de comportamento sexual compulsivo podem se envolver em comportamentos sexuais como forma de lidar com a depressão, ansiedade, tédio, solidão ou outros estados afetivos negativos.

O diagnóstico de transtorno de comportamento sexual compulsivo pode ser útil para os médicos. No entanto, muitos, talvez a maioria, dos pacientes que apresentam preocupações sobre o comportamento sexual não preencherão a maioria dos critérios de transtorno de comportamento sexual compulsivo. O problema desses pacientes é de menor duração, relacionado com a moralidade, desaprovação externa, falta de informação sobre saúde sexual e ansiedade relacionada a interesses eróticos diversos. Pode ser útil para eles compreenderem que não estão com uma doença permanente, mas sim enfrentando desafios comuns da vida.

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