Quebra do Banco Master faz Mastercard cobrar fatura de maquininhas
Após colapso da fintech Will Bank, multinacional tenta ratear perdas de R$ 5 bilhões com operadoras de pagamento, gerando forte cabo de guerra no setor financeiro
📋 Em resumo ▾
- Mastercard tenta minimizar prejuízos gerados pela liquidação do braço digital do Master.
- Disputa envolve R$ 5 bilhões em transações feitas por clientes do Will Bank.
- Bandeira de cartões propõe reter repasses para se reembolsar antes das credenciadoras.
- Empresas de maquininhas rejeitam cobrança e alegam falta de responsabilidade legal.
- Por que isso importa: O impasse testa a força das novas regras do Banco Central e pode redefinir quem arca com o risco de crédito em falências de bancos e fintechs no Brasil
A gigante americana Mastercard abriu uma ofensiva nos bastidores do mercado financeiro nacional para tentar repassar perdas milionárias decorrentes da quebra do Banco Master. A companhia enviou uma proposta formal para que as maiores empresas de maquininhas de cartão do Brasil ajudem a cobrir o rombo deixado pelo colapso do Will Bank, fintech que operava como braço digital da instituição liquidada e utilizava a bandeira da multinacional. A disputa envolve um volume estimado em R$ 5 bilhões em transações processadas antes da intervenção na instituição.
O rastro de bilhões e a estratégia de retenção
O problema começou quando o Will Bank sofreu colapso junto com o banco controlador, deixando faturas em aberto. Por força das regras de arranjos de pagamento, a Mastercard precisou intervir emergencialmente para pagar as credenciadoras (as empresas de maquininhas) que haviam processado as compras dos clientes da fintech. A bandeira cobriu cerca de 50% do total devido no primeiro mês após a liquidação, utilizando recursos próprios.
Agora, para estancar o prejuízo interno, a empresa americana apresentou uma minuta de contrato às adquirentes propondo uma inversão no fluxo financeiro. A intenção da Mastercard é usar os pagamentos que entrarem futuramente dos clientes do Will Bank para se reembolsar em primeiro lugar, retendo os valores antes de repassar qualquer recurso restante para as empresas de maquininhas de cartão.
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"A Mastercard está propondo usar os valores pagos pelos clientes do Will para se reembolsar antes de repassar recursos às credenciadoras", aponta o relatório da Bloomberg News sobre os documentos do caso.
O cabo de guerra em torno das regras do Banco Central
O movimento da multinacional gerou forte reação no ecossistema de pagamentos e esbarra em uma recente mudança regulatória. O Banco Central (BC) publicou novas regras estipulando que as credenciadoras de cartões são responsáveis, de forma irrestrita, por garantir o pagamento de todas as transações ao lojista final, mesmo que tenham que utilizar capital próprio se os mecanismos de proteção falharem.
A Mastercard argumenta reservadamente que o episódio do Will Bank não deve ser balizado por essa nova exigência do BC. A justificativa da bandeira é que o mercado tinha um prazo de transição para se adaptar às novas exigências, enquanto a liquidação da fintech ocorreu antes do fim desse limite.
Maquininhas rejeitam a conta do colapso bancário
A proposta de partilha de perdas foi enviada a um grupo de peso do setor de pagamentos, que inclui operadoras controladas por grandes bancos, como a Rede (Itaú Unibanco) e a Cielo, além de gigantes independentes do setor de tecnologia financeira, como a Stone e a PagSeguro. A reação do setor foi de forte resistência institucional.
Em posicionamento oficial sobre a controvérsia jurídica, a Cielo rechaçou qualquer responsabilidade sobre o passivo deixado pela fintech e criticou a tentativa de transferência do risco de crédito para as operadoras de maquininhas.
“As adquirentes não podiam, não podem e não poderão escolher os emissores que fazem parte do arranjo e tampouco são responsáveis pelas garantias atreladas à operação”, afirmou a Cielo em nota oficial.
O cenário futuro para o mercado de crédito
Até o momento, a Mastercard, a Rede e a Stone não se manifestaram publicamente sobre o andamento das negociações da minuta. A PagSeguro direcionou os questionamentos para a Associação Brasileira de Internet (Abranet), que também não emitiu pronunciamento sobre as tratativas.
O desenlace desse embate é crucial para o sistema financeiro do país. Se a Mastercard obtiver sucesso em impor a retenção de valores, abrirá um precedente onde as plataformas de pagamento assumem o prejuízo final por falências bancárias. Caso as maquininhas consigam barrar o contrato, a bandeira terá de absorver perdas bilionárias sozinha. A grande questão estratégica é: o Banco Central vai intervir para fazer valer o espírito de sua nova regulação ou deixará que as gigantes do setor resolvam a partilha do prejuízo em contratos privados?
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