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Representantes da Goldman Sachs são indiciados por estelionato no IPO da Oncoclínicas

Delegado da Polícia Civil de SP conclui que executivos do banco tiveram "participação consciente" em manobra que mudou versão sobre dono de fatia relevante da rede de câncer, em prejuízo de minoritários

Representantes da Goldman Sachs são indiciados por estelionato no IPO da Oncoclínicas
📷 Reprodução
📋 Em resumo
  • A Polícia Civil de São Paulo indiciou Felipe Guerra Acosta, superintendente executivo de investimento do Goldman Sachs, e Natan Lima Reinig, ex-conselheiro da Oncoclínicas indicado pelo banco, por estelionato e fraude na administração de sociedade por ações
  • O delegado José Eduardo Jorge concluiu que a dupla teve "participação consciente" numa "falsa reconstrução" da estrutura societária para afastar obrigação de OPA e prejudicar minoritários
  • No IPO de 2021, o Goldman informou ao mercado que era dono indireto de 100% dos fundos Josephina I e II. Em 2024, sustentou que a Centaurus já era dona indireta daquela participação desde antes do IPO
  • O indiciamento coloca em risco a reputação ilibada exigida pela Lei das S.A. e pela Resolução do CMN para integrantes de conselhos e bancos de investimento
  • Por que isso importa: o caso remete ao paralelo com a Americanas, onde investigações sobre informações ao mercado avançaram sobre responsabilidade pessoal de executivos, e expõe como bancos de investimento podem usar reestruturações societárias para escapar de obrigações com acionistas minoritários
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A Polícia Civil de São Paulo indiciou dois representantes do Goldman Sachs por estelionato e fraude na administração de sociedade por ações numa investigação sobre o IPO da Oncoclínicas, realizado em agosto de 2021. O delegado José Eduardo Jorge concluiu que há elementos que atestam que Felipe Guerra Acosta, superintendente executivo de investimento do banco americano, e Natan Lima Reinig, ex-integrante do Conselho de Administração da rede de tratamento para câncer indicado pelo Goldman, tiveram "participação consciente" numa manobra para induzir a erro a própria Oncoclínicas, a CVM, a B3 e os investidores.

A "falsa reconstrução" dos fundos Josephina

O fato principal da investigação é uma mudança na versão sobre quem era dono de uma fatia relevante da Oncoclínicas — e quando.

Quando a empresa abriu o capital, em agosto de 2021, o Goldman informou ao mercado que era o dono indireto de 100% dos fundos Josephina I e II. Na época, o banco detinha 93% da companhia antes do IPO, conforme documentos de oferta.

Em 2024, porém, quando uma alteração nos fundos poderia obrigar uma oferta aos demais acionistas — a chamada OPA estatutária, prevista na cláusula "poison pill" da companhia —, a versão foi outra. Acosta e Reinig assinaram uma carta sustentando que a gestora americana Centaurus Capital já era dona indireta daquela participação desde antes do IPO.

Para a polícia, a nova versão foi usada para afastar a obrigação da OPA e permitir a manutenção da participação sem o desembolso que seria exigido, em prejuízo dos minoritários. O despacho de indiciamento cita uma "falsa reconstrução" da estrutura da companhia e afirma que a dupla participou conscientemente da manobra.

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O que a Centaurus diz — e o que os minoritários alegam

A Centaurus, gestora de fundos de investimento sediada nos Estados Unidos, defende que já detinha participação relevante na Oncoclínicas antes do IPO. Em documentos apresentados à CVM, a gestora sustentou que, no momento da oferta pública, já possuía 43,88% do Josephina II — que, por sua vez, detinha 72,51% da Oncoclínicas —, o que equivaleria a uma fatia indireta de 31,81% da companhia.

A reestruturação de novembro de 2024 — que criou o Josephina III, veículo de exclusividade da Centaurus — teria sido, segundo a gestora, apenas uma "segregação de participações societárias já existentes" entre Goldman e Centaurus, sem impacto na dispersão acionária ou nos demais acionistas.

Os minoritários, porém, não aceitam essa versão. A Associação Brasileira de Investidores, Credores e Consumidores (ABRAICC) e o fundo Latache, que detém 14,59% da Oncoclínicas, argumentam que a Centaurus estava escondida atrás do Goldman durante todo o IPO e que, ao emergir como acionista direto, deveria ter sido tratada como novo investidor, obrigada a lançar uma OPA. A disputa está sob análise da CVM, cuja área técnica rejeitou o pedido de OPA, mas o caso aguarda julgamento pelo colegiado.

"A reorganização de 2024 apenas separou as ações que o Goldman Sachs e a Centaurus já detinham conjuntamente. A transação não representou a entrada de um novo acionista, não aumentou a participação da Centaurus na companhia e não teve impacto sobre a liquidez das ações de livre negociação nem sobre a base acionária da empresa."

Josephina III, em manifestação à CVM

O problema da reputação ilibada

O indiciamento cria um problema que vai além do processo criminal. A Lei das S.A. (Lei nº 6.404/1976) exige reputação ilibada de integrantes de conselhos de administração. O artigo 147, § 3º, estabelece que "o conselheiro deve ter reputação ilibada", e o § 4º condiciona a comprovação a uma declaração firmada pelo conselheiro, "sob as penas da lei".

No sistema financeiro, a Resolução nº 4.893/2021 do Conselho Monetário Nacional (CMN), aplicada a bancos de investimento e outras instituições fiscalizadas pelo Banco Central, determina que a reputação ilibada seja considerada para o exercício de determinados cargos. A norma diz que, nessa avaliação, deve ser levada em conta a existência de processo criminal ou inquérito policial. Isso não significa afastamento automático, mas coloca os indiciamentos no radar regulatório e aumenta a pressão sobre a permanência dos executivos nos cargos.

"A norma diz que, nessa avaliação, deve ser levada em conta a existência de processo criminal ou inquérito policial. Isso não significa afastamento automático, mas coloca os indiciamentos no radar regulatório."

Análise do caso

O paralelo com a Americanas

O caso já remete, nos bastidores do mercado, a um paralelo com o que ocorreu na Americanas, quando uma investigação sobre informações apresentadas ao mercado avançou sobre a responsabilidade pessoal dos executivos.

Na Americanas, a CVM concluiu que a fraude de R$ 25 bilhões foi "uma complexa fraude perpetrada com o objetivo de produzir resultados completamente descasados da realidade econômico-financeira". A autarquia acusou 30 executivos, incluindo o ex-CEO Miguel Gutierrez, de manipulação de preços, violação ao dever de lealdade e não oferecimento de informações verdadeiras aos investidores.

A diferença, no caso da Oncoclínicas, é que a fraude não envolveu manipulação de resultados contábeis, mas sim uma reconstrução narrativa da estrutura societária — uma mudança na versão sobre quem era dono do quê, e desde quando.

O que está em jogo além do indiciamento

O Goldman Sachs não é uma empresa qualquer. É um dos maiores bancos de investimento do mundo, com operações em mais de 60 países. O fato de dois de seus executivos serem indiciados por estelionato no Brasil — em um caso que envolve um IPO de R$ 1,5 bilhão — não é um incidente local. É um sinal de que a Polícia Civil de São Paulo está disposta a tratar manipulações societárias com a mesma gravidade com que trata fraudes contábeis.

Para a Oncoclínicas, o desfecho da disputa na CVM será decisivo. Se o colegiado entender que a Centaurus deveria ter lançado uma OPA, a obrigação pode ser avaliada em até R$ 6 bilhões — quase sete vezes o valor de mercado atual da companhia.

Para o Goldman, o risco é reputacional e regulatório. O banco já reduziu sua exposição na Oncoclínicas para 0,7% e anunciou que pretende sair completamente do capital da companhia. Mas sair do capital não significa sair do processo.

A pergunta que o caso deixa no ar é se a reestruturação dos fundos Josephina foi uma engenharia societária legítima — ou uma manobra para esconder, por três anos, quem realmente controlava uma das maiores redes de tratamento de câncer do Brasil. Se a Polícia Civil tiver razão, o Goldman não será apenas mais um banco vendendo ações. Será um banco que, para não pagar uma OPA, reconstruiu a própria história — e foi pego no flagra.


Versão em áudio disponível no topo do post.

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