Retórica anti-STF em Rondônia: lacuna entre discurso e voto
Promessas de enfrentamento ao STF esbarram na inércia legislativa. O histórico de senadores rondonienses revela um abismo entre o discurso de campanha e a prática no Congresso
📋 Em resumo ▾
- Candidatos ao Senado em Rondônia repetem promessas de limitar o STF e remover Alexandre de Moraes.
- Histórico legislativo mostra inação: votos pelo arquivamento de CPIs e pedidos de impeachment que não avançam no plenário.
- A estratégia transforma uma pauta institucional em mero marketing eleitoral de baixo custo político.
- Por que isso importa: O eleitor precisa discernir entre projetos legislativos reais e performances retóricas desenhadas apenas para capturar votos
O ciclo eleitoral em Rondônia repete um roteiro previsível. Candidatos ao Senado Federal que se autodenominam de direita emergem com promessas enfáticas de enfrentar o Supremo Tribunal Federal (STF) e remover o ministro Alexandre de Moraes. No entanto, quando a oportunidade legislativa surge, a retórica dá lugar à inércia.
O voto de arquivamento que desmente o discurso de oposição
A análise do histórico parlamentar revela uma discrepância sistemática. Sempre que foi necessário materializar o discurso em votos concretos, a atuação dos representantes rondonienses limitou-se à fala pública. Um exemplo paradigmático é o do senador Marcos Rogério (PL). Em 2019, quando a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado votou o arquivamento da CPI da Lava-Toga, o parlamentar votou contra a instalação da comissão e apresentou voto em separado barrando a proposta.
Anos depois, o mesmo senador passou a defender publicamente o impeachment do ministro, criando uma narrativa de oposição que não se sustenta diante de seu próprio histórico de votações no plenário.
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A oposição de gabinete e o gesto simbólico de Bagattoli
O senador Jaime Bagattoli (PL) segue trajetória similar. Embora figure em listas de signatários de pedidos de impeachment contra Alexandre de Moraes, a assinatura de requerimentos que não avançam na pauta do plenário configura o que analistas chamam de "oposição de gabinete".
Essa prática gera manchetes e engajamento nas redes sociais, mas não se traduz em votos favoráveis para derrubar decisões ou aprovar investigações reais. A ausência de pressão efetiva para pautar esses pedidos demonstra que a prioridade é o gesto simbólico, não a mudança institucional.
"A transformação de uma pauta institucional complexa em slogan de campanha permite ao político colher os frutos do antagonismo sem pagar o preço da governabilidade."
A repetição do ciclo com a candidatura de Bruno Scheidt
Agora, o pecuarista e vice-presidente estadual do PL, Bruno Scheidt, levanta a mesma bandeira como pré-candidato ao Senado. Com o aval de setores do bolsonarismo, ele promete trabalhar para retirar poderes do STF e perseguir a saída de Alexandre de Moraes.
O problema não está na liberdade de criticar o Judiciário, mas na inconsistência entre o que se promete no palanque e o que se entrega no Congresso. A estratégia transforma uma pauta institucional complexa em mero marketing eleitoral de baixo custo, sem um histórico legislativo que comprove a capacidade ou a intenção real de executar essas mudanças.
O eleitorado e a armadilha da retórica vazia
Diante desse cenário, cabe uma reflexão socrática ao eleitor rondoniense: qual é o objetivo final dessa retórica? Se a intenção fosse genuinamente alterar o equilíbrio de poderes, o histórico de votos e proposições já teria demonstrado um movimento coordenado e persistente.
A ausência de ação não é um acidente de percurso; é uma escolha política. Enquanto o eleitorado continuar a recompensar a performance em detrimento da prática, os candidatos não terão incentivo para mudar o roteiro.
A pergunta que resta para as próximas urnas não é quem gritará mais alto contra Alexandre de Moraes, mas quem terá a coerência de transformar indignação em voto efetivo. Até lá, a política em Rondônia continuará sendo um teatro onde o enredo é sempre o mesmo, e o final, invariavelmente, a inação.
Versão em áudio disponível no topo do post.