STF bloqueia R$ 6 bi de Willer Tomaz em inquérito com Flávio Bolsonaro
Ministro Alexandre de Moraes decreta quebras de sigilo, suspensão empresarial e cancelamento de passaportes após PF apontar senador cadastrado em conta de holding internacional
📋 Em resumo ▾
- Ministro Alexandre de Moraes (STF) determina bloqueio cautelar de até R$ 6 bilhões contra o advogado Willer Tomaz.
- Quebra de sigilo telemático pela PF localizou e-mail que apontava o senador Flávio Bolsonaro (PL) cadastrado como "usuário master" de conta da Alcazar Holdings.
- Decisão impõe cancelamento de passaportes (inclusive diplomático), suspensão de atividades empresariais e prazo de 24h para envio de dados bancários.
- Investigação apura lavagem de dinheiro após saída de Tomaz do Brasil em agosto, decorrente dos desdobramentos da Operação Sem Desconto.
- Por que isso importa: A identificação de acesso administrativo direto de um parlamentar e candidato presidencial a contas de uma offshore abala a tese de amizade estritamente pessoal e amplia o cerco a elos societários ocultos.
O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou nesta sexta-feira (23) o bloqueio de até R$ 6 bilhões nas contas do advogado Willer Tomaz, além da suspensão imediata das atividades econômicas de suas empresas e a quebra ampla dos seus sigilos bancário, fiscal e cambial. As medidas cautelares foram deferidas no inquérito que apura suposto esquema de lavagem de capitais envolvendo o operador e o senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
A decisão judicial foi ancorada em relatórios de extração de dados da nuvem telemática de Tomaz realizados pela Polícia Federal (PF). Os peritos localizaram comunicações por e-mail entre uma secretária do advogado e uma funcionária do banco Santander demonstrando que Flávio figurava formalmente cadastrado com perfil de "usuário master" da conta corrente mantida pela empresa Alcazar Holdings.
O acesso administrativo e a suspeita de sociedade de fato
Segundo a representação da Polícia Federal remetida ao STF, a classificação técnica de "usuário master" conferia a Flávio Bolsonaro um elevado nível de gerência e movimentação operacional sobre os recursos da holding, condição que teria perdurado formalmente ao menos até 22 de maio de 2025, data em que foi solicitado o cancelamento do endereço eletrônico associado.
Para os investigadores, esse vínculo documental não apenas enfraquece a tese reiterada pelo senador de que sua relação com Tomaz limitava-se a laços de amizade pessoal, como também "sustenta a hipótese de sua eventual participação econômica ou societária de fato na empresa". O inquérito relaciona ainda registros materiais de viagens custeadas pelo advogado ao parlamentar, recepções privadas em imóveis de luxo e reuniões de negócios conjuntas.
A devassa atinge um conglomerado de pessoas jurídicas: Moraes decretou o cancelamento de sigilos e suspensão de registros das firmas Alcazar Brasil Ltda, Alcazar Holdings Unipessoal, Alcazar Global Holdings e Catedral - Holdings SGPS. As instituições financeiras receberam ordem expressa para encaminhar em até 24 horas a lista completa e o histórico de co-titulares e operadores das contas.
"O perfil de usuário master é uma condição que, em princípio, conferia elevado nível de acesso e de gerenciamento da conta (...) e sustenta a hipótese de sua eventual participação econômica ou societária de fato na empresa."
— Relatório da Polícia Federal enviado aos autos do inquérito no STF.
A viagem ao exterior e o risco de ocultação transnacional
A fundamentação do ministro para a decretação de medidas assecuratórias extremas — que incluem o cancelamento imediato de todos os passaportes de Tomaz, inclusive um de natureza diplomática — levou em conta a sua saída do território nacional em agosto. O deslocamento para fora do Brasil ocorreu logo após ele se tornar alvo da Operação Sem Desconto, deflagrada para investigar fraudes e desvios contra segurados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Na avaliação dos investigadores, a permanência de Tomaz no exterior colocava em risco a higidez probatória e a localização de patrimônio, viabilizando a reestruturação clandestina de ativos em fundos e companhias constituídas em jurisdições internacionais.

Planilha e mensagens mostram conteúdo que teria sido removido a pedido de Willer Tomaz — Foto: Reprodução
A resposta da defesa e a contestação ao bloqueio
Em nota oficial encaminhada à imprensa, a defesa técnica de Willer Tomaz classificou as determinações expedidas pelo ministro Alexandre de Moraes como desproporcionais e ilegais, sustentando que a paralisia imposta às empresas configura "punição antecipada, sem acusação, processo ou condenação" formal.
Os advogados argumentaram que a apuração atual deriva de um desvirtuamento da Operação Sem Desconto, afirmando que, ao não encontrar vínculos do defensor com fraudes previdenciárias, a autoridade policial teria passado a devassar indiscriminadamente suas relações profissionais e privadas. A defesa asseverou categoricamente ser "falsa a informação de que Flávio Bolsonaro seria 'usuário master' de conta da Alcazar", pontuando que a amizade entre ambos jamais resultou em gestão compartilhada de recursos.
A ordem do Supremo adiciona uma frente de desgaste no ápice da corrida eleitoral. Quando a contabilidade de uma holding internacional se choca com perfis digitais de controle bancário em nome de uma autoridade federal, o campo das explicações políticas é atropelado pelas regras rígidas da apuração criminal de evasão e lavagem de ativos.
Versão em áudio disponível no topo do post.