Tarifa de 25% dos EUA: 335 empresas contestam medida no USTR
Multinacionais, associações industriais e até rivais comerciais dos EUA se uniram contra o tarifaço antes da decisão final, marcada para 15 de julho
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- 335 empresas e entidades brasileiras e norte-americanas, além de 30 pessoas físicas, protocolaram manifestações formais contra a tarifa de 25% no portal do USTR.
- Gigantes como Tesla, Nestlé, Coca-Cola e eBay pediram exceções, alegando risco a cadeias de suprimentos e ao bolso do consumidor americano.
- A Abimaq lidera a mobilização industrial mostrando que mais de 80% do comércio bilateral de máquinas ocorre entre empresas do mesmo grupo econômico.
- O desmatamento na Amazônia, tema que envolve diretamente estados como Rondônia, é um dos seis pilares da acusação americana, mesmo com dados recentes de queda recorde.
- Por que isso importa: a decisão do USTR, prevista para 15 de julho, pode redesenhar a relação comercial Brasil-EUA e interferir até no calendário eleitoral de 2026.
Um total de 335 empresas e organizações de classe brasileiras e norte-americanas, somadas a 30 manifestações de pessoas físicas, registraram formalmente sua oposição à proposta do governo dos Estados Unidos de aplicar uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) recebeu os protocolos até 1º de julho, véspera da audiência pública que reuniu representantes dos dois países em Washington nos dias 6 e 7 de julho. A decisão final está marcada para 15 de julho e pode redefinir, de uma só vez, a relação comercial entre os dois países.
Uma lista de 335 empresas e organizações brasileiras e americanas se manifestaram formalmente sobre a medida do governo dos Estados Unidos de propor uma tarifa de 25% sobre os produtos brasileiros, anunciada em julho deste ano, com base na seção 301, além de outras 30 manifestações de pessoas físicas, como a do senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL). Além do posicionamento do governo brasileiro, diversas entidades setoriais do País também registraram posicionamento no portal do USTR, como a Confederação Nacional da Indústria (CNA) e a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
Como funciona a investigação que pode elevar tarifas sem passar pela Casa Branca
Diferentemente do tarifaço de 50% imposto por Donald Trump em agosto de 2025 — que teve motivação política declarada ligada ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro e acabou derrubado pela Suprema Corte dos Estados Unidos em fevereiro, restando a Washington apenas a possibilidade de aplicar uma tarifa global de 10% sobre exportações ao país —, a atual proposta nasce de um processo técnico-administrativo. A proposta atual resulta de uma investigação formal conduzida pelo USTR com base na Seção 301, que ao longo de quase um ano recebeu documentos, promoveu consultas públicas e analisou manifestações de empresas, entidades e governos, concluindo em junho com a proposta oficial de uma tarifa adicional de 25%. A legislação autoriza os Estados Unidos a investigar práticas comerciais de outros países consideradas injustas e, no caso do Brasil, o USTR afirma ter identificado problemas em seis áreas: comércio digital e pagamentos eletrônicos, como o Pix, tarifas preferenciais, combate à corrupção, propriedade intelectual, acesso ao etanol e desmatamento ilegal.
O Itamaraty já havia contestado formalmente essas conclusões antes da audiência. Na manifestação, o governo brasileiro sustenta que o USTR 'não estabelece o nexo legal exigido' entre atos, políticas ou práticas concretas do Brasil e um ônus identificável ao comércio dos EUA, argumentando que as conclusões preliminares avançam de uma discordância em relação às escolhas soberanas do Brasil para afirmações de desvantagem comercial.
Multinacionais americanas viram aliadas inesperadas do Brasil
O dado mais revelador da apuração não é a quantidade de empresas brasileiras mobilizadas, mas a presença maciça de gigantes dos próprios Estados Unidos na lista de opositores. Tesla, Nestlé, Coca-Cola e eBay enviaram cartas ao USTR solicitando que produtos brasileiros fiquem de fora das tarifas adicionais, alertando que a imposição de barreiras prejudicará a competitividade, as cadeias de suprimentos e o orçamento dos consumidores norte-americanos.
"O Brasil tornou-se fornecedor suplementar vital para o café da manhã das famílias americanas", argumentou a Coca-Cola em manifestação sobre o suco de laranja, citando a queda da produção de laranja na Flórida, de 242 milhões de caixas na safra 2003/04 para estimadas 12 milhões em 2025/26, devido a doenças e pragas.
O eBay, por sua vez, recomendou isenção categórica para produtos de segunda mão, argumentando que as tarifas foram desenhadas para a produção industrial e agrícola primária, e que um produto usado já cumpriu seu ciclo de vida, penalizando apenas o revendedor e o consumidor de baixa renda.
Abimaq transforma integração produtiva em escudo jurídico
Entre as entidades brasileiras, a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) construiu a defesa mais detalhada. Pela entidade, a diretora de Comércio Exterior Patrícia Gomes foi a Washington argumentar que mais de 80% do comércio bilateral do setor ocorre entre empresas do mesmo grupo econômico, como matrizes e filiais, e que os Estados Unidos importaram US$ 3,2 bilhões em máquinas e equipamentos brasileiros em 2025, registrando superávit de US$ 1,2 bilhão nessa relação comercial. Na avaliação da entidade, isso enfraquece a própria justificativa da sobretaxa.
O argumento mais contundente da Abimaq, porém, mira um adversário que Washington não quer favorecer: a China. Hoje, fabricantes chineses enfrentam tarifas próximas de 30% para vender máquinas aos Estados Unidos; com a imposição de uma sobretaxa de 25% sobre os produtos brasileiros, a diferença de competitividade entre os dois países diminuiria drasticamente, o que levou o presidente-executivo da entidade, José Velloso, a afirmar que 'se o objetivo é uma guerra comercial com a China, ele vai aumentar as vendas da China'. A fabricante WEG reforçou essa linha destacando que sua subsidiária americana emprega cerca de 2.300 funcionários e participa de cadeias ligadas aos setores de energia, indústria e infraestrutura, enquanto a Bauducco pediu um período de transição citando um investimento de US$ 200 milhões em nova fábrica na Flórida, que dobra a capacidade de produção da empresa nos Estados Unidos e deverá gerar cerca de 600 empregos quando operar em plena capacidade.
A dimensão amazônica da disputa e o motivo pelo qual Rondônia entra no radar nacional
Entre os seis pilares da acusação americana está o combate ao desmatamento ilegal — critério que recai diretamente sobre estados amazônicos como Rondônia, historicamente entre os que mais perdem cobertura florestal na região. É aí que a disputa comercial deixa de ser só uma pauta de exportadores do Sul e Sudeste e passa a interessar diretamente o leitor do Norte do país: o desempenho ambiental de estados como Rondônia virou, na prática, moeda de barganha em uma negociação que decide o preço de máquinas, madeira e alimentos em todo o Brasil. Chama atenção que a acusação persiste mesmo diante de indicadores recentes mais favoráveis: dados do Deter já indicavam queda de 35% nas áreas sob alerta de desmatamento entre agosto de 2025 e janeiro de 2026, o Imazon confirmou em abril o menor patamar de degradação florestal em onze anos para o mês de março, e em maio foi registrado recorde histórico de baixa. Ainda assim, nenhum desses marcos impediu o avanço da investigação do USTR, o que analistas de comércio internacional apontam como sinal de que o critério ambiental funciona mais como instrumento político do que como métrica técnica na disputa.
Calendário eleitoral vira moeda de troca na mesa de Washington
A audiência pública também escancarou o entrelaçamento entre a disputa comercial e a corrida presidencial de 2026. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, pediu ao USTR a suspensão da tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros e propôs um gatilho para retomar a medida em 180 dias, prazo que deslocaria a aplicação da sanção para depois da eleição brasileira de outubro. Do lado da indústria madeireira, outro setor fortemente exposto, entidades como a Abimci alertaram que a recomendação do USTR de aplicar uma tarifa adicional de 25% pode comprometer a competitividade da indústria nacional de madeira processada e afetar empregos, produção e exportações.
"Se nós olharmos 13 dos maiores produtos que serão impactados, em 11 deles nós somos o maior exportador, o maior fornecedor para a economia americana", comentou o presidente da CNI, Ricardo Alban, ao defender que a cooperação bilateral é o caminho mais racional para resolver o impasse.
Com o prazo estatutário de 15 de julho se aproximando e negociações diplomáticas ainda em curso, o desfecho permanece incerto. O que a mobilização recorde de 335 empresas e entidades já deixou claro é que o tarifaço, dessa vez, não encontra unanimidade nem mesmo dentro dos próprios Estados Unidos — um detalhe que pode pesar tanto quanto qualquer argumento jurídico na decisão final de Washington.
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