Venda da Naskar para Azara Capital sob suspeita deixa 3 mil sem R$ 1 bilhão
Operação bilionária envolve empresa sem registro regulatório nos EUA, sócio com histórico de processos e reuniões secretas para recuperação judicial em São Paulo
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- Fintech Naskar anuncia venda por R$ 1,2 bilhão à Azara Capital após calote estimado em até R$ 1 bilhão.
- Empresa compradora opera sem registros na SEC (EUA) e sem autorização do Banco Central no Brasil.
- Único sócio da Azara no Brasil declara renda de R$ 1,7 mil mensais e acumula processos por estelionato.
- Sócios da Naskar, incluindo o ex-ESPN Maurício Jahu, articulam recuperação judicial e são investigados pela PCDF.
- Por que isso importa: A suposta transação internacional exibe fortes indícios de manobra corporativa para blindar patrimônio de executivos e adiar o ressarcimento de 3 mil poupadores lesados.
A venda da Naskar para a pretensa gestora americana Azara Capital, anunciada em meados de maio de 2026, entrou definitivamente no radar das autoridades policiais e de escritórios de advocacia sob suspeita de fraude institucional. O negócio, avaliado em R$ 1,2 bilhão, ocorre no ápice de uma crise em que cerca de 3 mil investidores tentam reaver entre R$ 335 milhões e R$ 1 bilhão desaparecidos das contas da plataforma. Longe de trazer segurança jurídica, a transação revelou uma intrincada teia de irregularidades regulatórias e inconsistências societárias que apontam para uma provável estratégia de evasão de responsabilidade.
O colapso operacional e a atuação à margem do sistema
O estopim da crise da Naskar Gestão de Ativos ocorreu no início de maio de 2026, quando clientes de diferentes estados — com forte concentração no Distrito Federal e em São Paulo — relataram a interrupção abrupta dos repasses contratuais. A fintech operava de maneira agressiva no mercado, prometendo rendimentos fixos de 2% ao mês (equivalentes a cerca de 175% do CDI). A atratividade dos lucros seduziu desde pequenos poupadores familiares a investidores com aportes individuais superiores a R$ 3,9 milhões.
Contudo, o modelo de negócios ocultava uma grave assimetria de risco: a Naskar amparava sua legitimidade unicamente no selo de "participante do Pix", mas atuava sem qualquer licença ou cadastro público junto ao Banco Central do Brasil (BC) e à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para captar recursos públicos ou ofertar produtos de investimento. Em poucos dias, o aplicativo da empresa saiu do ar, bloqueando saldos e extratos. Diante da enxurrada de boletins de ocorrência, a Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) instaurou inquérito para investigar indícios de pirâmide financeira e golpe.
O sumiço dos sócios e a falsa "auditoria de dados"
Com o fechamento silencioso da sede física em São Paulo, os três sócios fundadores da fintech cortaram sumariamente a comunicação. A junta de administradores é composta por Marcelo Liranço Arantes, de perfil operacional discreto; Rogério Vieira, ligado a outras holdings em Alphaville; e o executivo José Maurício Volpato, amplamente conhecido no cenário esportivo como Maurício Jahu, ex-jogador de vôlei da Seleção Brasileira e apresentador da ESPN Brasil por duas décadas.
Antes de silenciarem totalmente, os sócios divulgaram uma nota oficial alegando que a interrupção dos serviços decorria de uma "perda na base de dados" e que a empresa realizaria um processo de "circularização de informações" por meio de uma auditoria interna. A justificativa técnica foi recebida com profundo ceticismo pelo mercado financeiro e não impediu o avanço das ações judiciais de arresto de bens, movidas por defensores das vítimas que denunciaram o desaparecimento físico dos executivos de seus canais habituais.
As contradições da adquirente Azara Capital
No dia 14 de maio de 2026, as assessorias divulgaram o encerramento das negociações para a venda do controle acionário da Naskar, além das marcas correlatas 7Trust e Next Gestão de Ativos, para a Azara Capital pelo montante de R$ 1,2 bilhão. O contrato teria sido firmado no dia anterior, 13 de maio, permanecendo sob sigilo corporativo devido a cláusulas de confidencialidade. A adquirente se apresentou publicamente como uma robusta gestora norte-americana dedicada ao mercado imobiliário e corporativo, sediada em Miami, Flórida.
Entretanto, checagens em bases de dados internacionais acenderam alertas vermelhos. A Azara Capital não possui registro ou licença de operação junto à Securities and Exchange Commission (SEC) nem à Financial Industry Regulatory Authority (FINRA), os pilares regulatórios do mercado financeiro nos Estados Unidos. Questionada pela imprensa, a assessoria da empresa argumentou que atua com "capital próprio" e que, por esta razão, prescindiria de tais chancelas estatais. Especialistas jurídicos rebatem, sinalizando que a movimentação internacional de ativos de terceiros exige rigorosas autorizações de conformidade.
Radiografia de uma fachada de R$ 1,7 mil
A fragilidade institucional da operação ganha contornos ainda mais explícitos ao se analisar a estrutura montada no Brasil. A Azara Instituição de Pagamento Ltda foi formalmente registrada na Junta Comercial no dia 4 de fevereiro de 2026 — escassos 100 dias antes do anúncio da aquisição bilionária. Embora declare um capital social formal de R$ 13 milhões, a Receita Federal enquadra a empresa na categoria de EPP (Empresa de Pequeno Porte). Somado a isso, a entidade não tem qualquer autorização do Banco Central para atuar no ecossistema de pagamentos nacional.
O elemento de maior suspeita recai sobre o quadro societário da filial brasileira. O único sócio-administrador listado nos registros oficiais é o jovem Douglas Silva de Oliveira Azara, de 25 anos. Cruzamentos de dados fiscais e judiciais revelam que Douglas possui uma renda mensal declarada de meros R$ 1,7 mil. O empresário acumula ainda 24 protestos cartorários ativos que totalizam R$ 386 mil em inadimplências, além de responder a mais de 15 processos judiciais sob acusações de estelionato e crimes de natureza patrimonial.
A articulação da quebra programada na Avenida Paulista
Enquanto a nota conjunta da transação tentava projetar um horizonte de normalidade e pacificação com o mercado, os passos reais dos fundadores da Naskar seguiam a cartilha clássica da insolvência. Na tarde e noite de sexta-feira, 15 de maio de 2026 — um dia após o anúncio da venda —, Marcelo Liranço, Rogério Vieira e Maurício Jahu estiveram reunidos presencialmente em um influente escritório de advocacia especializado em reestruturação corporativa, localizado na Avenida Paulista, em São Paulo.
Fontes próximas ao caso confirmaram que o objeto central da reunião foi a formatação jurídica de um pedido iminente de recuperação judicial. A estratégia de anunciar uma venda internacional para uma empresa sem substância financeira, combinada com o pedido de proteção judicial, serve como uma blindagem coordenada. Sob a lei de falências, o deferimento da recuperação suspende temporariamente todas as execuções, arrestos e bloqueios de contas bancárias por até 180 dias, paralisando as investidas urgentes dos advogados das vítimas.
O labirinto jurídico e o destino dos recursos
Em suas manifestações mais recentes, a assessoria da Azara Capital declarou em nota que "assumiu integralmente os ativos e passivos da Naskar" e que dará início às tratativas de auditoria individualizada e circularização para planejar futuras liquidações com os investidores credores. Contudo, pontuou que a sua estrutura de pagamentos nacional "encontra-se em fase de estruturação técnica e operacional", sem previsão de regularização junto ao BC para o ano corrente de 2026. A defesa técnica da Naskar optou pelo silêncio, informando apenas que não comentará as investigações em curso.
A engenharia financeira desenhada nos últimos dias sinaliza um clássico processo de esvaziamento de responsabilidade civil e penal. Ao transferir um passivo que chega à casa dos bilhões para uma pessoa jurídica recém-criada, desprovida de lastro real e administrada por um intermediário com histórico criminal e insolvente, os verdadeiros operadores do esquema ganham tempo precioso para ocultar o patrimônio remanescente. Diante do manifesto cenário de fraude contra credores, juristas recomendam que os investidores lesados ignorem as promessas da Azara e intensifiquem os pedidos judiciais de desconsideração da personalidade jurídica para atingir diretamente os bens pessoais dos sócios fundadores.
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